SasiSUS: como funciona o SUS para indígenas?

O SasiSUS adapta o atendimento à diversidade dos povos indígenas no Brasil. Saiba mais sobre o subsistema responsável pela saúde dessa população.

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No Brasil, existem aproximadamente 1.693.535 indígenas de 391 etnias diferentes, que possuem visões de mundo variadas. Algumas delas, por exemplo, acreditam que a energia vital do ser humano entra pelo nariz. Fazer uma lavagem nasal para o tratamento de sinusite, neste caso, seria fazer mal ao espírito do paciente.  Essa foi uma situação real vivenciada por Carla Rodrigues, médica de família e comunidade do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS), que encontrou na ocasião outras maneiras de seguir com o atendimento.  Legal e formalmente, o SasiSUS é a única estrutura de cuidado especializada dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Ele foi criado para garantir a saúde dos grupos indígenas e o respeito aos seus modos de vida e ritos de cura. Antes dele, as condições de assistência à saúde para esses grupos não levava em conta as suas especificidades, além de colaborar para a divisão e a violência contra os povos indígenas. “O maior erro que um profissional de saúde pode cometer é achar que vai reproduzir o modelo da cidade dentro de uma aldeia. Além de inviável, isso é violento. É claro que utilizamos o raciocínio clínico e os tratamentos farmacológicos da medicina urbana, mas sempre em diálogo. Antes de agir, precisamos compreender o significado daquele sintoma para o paciente e sua comunidade, e respeitar o tempo dos ritos e tratamentos tradicionais”, explica Rodrigues. Como funciona o SasiSUS na prática? A Secretaria de Saúde Indígena (SESAI) é o órgão do Ministério da Saúde responsável por coordenar e executar a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) e gerir o SasiSUS. Isso significa: levar a atenção básica diretamente às aldeias através de equipes capacitadas; prover saneamento e infraestrutura para as unidades de saúde nas áreas indígenas; respeitar as especificidades culturais de cada povo originário; coordenar o acolhimento e o tratamento de cada paciente indígena. Esse caminho acontece a partir de estruturas bem definidas: os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI). Essas unidades são descentralizadas e possuem autonomia na coordenação do cuidado da população pela qual é responsável. Diferentemente das Unidades Básicas de Saúde, que limitam a sua área de atuação por ruas, avenidas, bairros ou acidentes geográficos que marcam um território, os DSEI levam em conta também a cultura, as relações políticas e a distribuição demográfica dos povos indígenas. Os 34 DSEIs que existem hoje no Brasil, portanto, podem agregar vários municípios e até unidades federativas diferentes. Para capilarizar esse atendimento, os DSEI contam com: Unidades Básicas de Saúde Indígenas (UBSI): pontos de atendimento assistencial e sanitário para a população. Localizam-se dentro ou muito próximas das aldeias; Polos Base (PB): possuem uma estrutura maior para receber pacientes de alta complexidade, além de servir de apoio sanitário, administrativo e logístico para as equipes de saúde. Coordenam o trabalho das UBSIs presentes dentro da sua microárea de atuação. Localizam-se no próprio território indígena ou em cidades próximas às aldeias; Casas de Apoio à Saúde Indígena (CASAI): recebem, alojam, alimentam e apoiam os pacientes que precisam de atenção especializada, bem como os seus familiares. Localizam-se nos municípios para onde os pacientes são referenciados. Os médicos dos DSEIs costumam realizar um trabalho itinerante em várias aldeias, sendo a maioria deles vinculada ao Programa Mais Médicos. O trajeto pode ser feito de carro, barco ou avião, e as escalas variam de acordo com a distância e a logística de acesso à aldeia. Da aldeia ao cuidado: as dificuldades no caminho O atendimento primário do paciente indígena, portanto, começa nas UBSIs. Se o caso for mais grave, ele é encaminhado para o Polo Base. E se o Polo Base não puder resolver, ele é encaminhado para um hospital na cidade, com apoio das CASAIs.  Em casos de urgência ou emergência, o paciente deve ser levado imediatamente através de helicópteros, aviões, barcos ou carros. Se não for uma situação de risco iminente, o atendimento é agendado e, chegando próximo da data, o paciente é levado para uma CASAI durante o período de internação.  “Quando os pacientes precisam ir aos hospitais das cidades, frequentemente encontram barreiras graves: falta de comida adequada para sua dieta tradicional, frio pelo ar condicionado, ausência de roupas e violência por parte dos profissionais, sobretudo contra as mulheres. É comum que fujam dos hospitais e acabem expostas a novas violências urbanas. Um parto hospitalar, por exemplo, pode ser extremamente traumático para uma mulher indígena, pois o nascimento é um momento central em sua cultura”, relata Rodrigues. Doenças infecciosas, respiratórias e parasitárias são as enfermidades que mais acometem os indígenas atualmente, configurando um perfil epidemiológico parecido com o de países em condições de extrema pobreza.  A médica destaca a necessidade de um atendimento sério e aprofundado para esses grupos, com base na antropologia de cada etnia. Para ela, o cuidado diferenciado às populações indígenas não pode ser uma brecha para desassistência ou atendimento de menor qualidade. “É por isso que o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS) é um patrimônio brasileiro fundamental para os povos tradicionais. Ele ainda precisa de muito aprimoramento: melhorar a qualidade assistencial, inserir curadores tradicionais nas equipes, incorporar antropólogos especializados em cada etnia, contar com tradutores indígenas, identificar grupos de recente contato e aprimorar a interconexão de dados. Mas, sem dúvida, o SasiSUS é essencial para o Brasil”, afirma. Veja também: Saúde dos Povos Originários – DrauzioCast #191 The post SasiSUS: como funciona o SUS para indígenas? first appeared on Portal Drauzio Varella.

Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL

FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/saude-publica/sasisus-como-funciona-o-sus-para-indigenas/
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