TDAH em adultos: especialista explica como o transtorno, muitas vezes não diagnosticado, afeta o desempenho profissional

Dra. Karinne Paternostro, psiquiatra, explica como os sintomas podem se manifestar na vida adulta, os impactos na rotina profissional e a importância de uma avaliação adequada.

Por
3 15 Min

TDAH em adultos: especialista explica como o transtorno, muitas vezes não diagnosticado, afeta o desempenho
Ia

 

Minha trajetória até a Psiquiatria

Sou médica formada pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Após a graduação, fiz residência em Medicina de Família e Comunidade, também pela UFPA, e, posteriormente, residência médica em Psiquiatria pelo Hospital de Clínicas Gaspar Vianna, vinculado à Universidade do Estado do Pará (UEPA).

Bom, a Psiquiatria foi a disciplina com a qual mais me identifiquei durante a faculdade. Sempre gostei muito de estudar esse universo da mente humana e percebi que seria muito gratificante trabalhar com algo que realmente despertava meu interesse.

Além disso, sempre tive muita sensibilidade e empatia pelas pessoas que sofrem com transtornos mentais. Ainda existe muito estigma, preconceito e desinformação em relação a essas condições, e muitos pacientes acabam vivendo à margem da sociedade justamente por causa disso. Acredito que a Psiquiatria também é uma forma de contribuir para reduzir esse sofrimento e oferecer um cuidado mais humano e acolhedor.

Outra coisa que sempre fez parte da minha vida são as artes, a literatura, a música e o cinema. Acho que todas essas formas de expressão estão profundamente ligadas à mente, às emoções e à maneira como cada pessoa vivencia o mundo. De certa forma, essa sensibilidade também me aproximou da Psiquiatria e reforçou minha escolha por uma especialidade que busca compreender o ser humano para além dos sintomas e dos aspectos puramente físicos, enxergando também sua história, suas experiências, sua subjetividade e tudo aquilo que não é imediatamente visível.

Como o TDAH se apresenta na vida adulta

O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que se inicia na infância, mas pode persistir ao longo de toda a vida. O que muda ao longo da vida não é o transtorno em si, mas a forma como ele se manifesta.

Na infância, os sintomas costumam ser mais evidentes, principalmente pela hiperatividade motora, impulsividade e dificuldade em permanecer sentado ou seguir regras em ambientes como a escola. Já na vida adulta, a hiperatividade tende a se tornar menos visível, manifestando-se mais como uma sensação constante de inquietação interna, dificuldade para relaxar ou necessidade de estar sempre ocupado.

Na vida adulta, as alterações nas funções executivas costumam ganhar maior destaque. As dificuldades passam a se manifestar principalmente na organização, no planejamento, no gerenciamento do tempo, na priorização de tarefas, na procrastinação, nos esquecimentos frequentes e na dificuldade de manter o foco em atividades pouco estimulantes. Essas alterações tendem a comprometer o desempenho profissional, os estudos, os relacionamentos e a administração da rotina.

De acordo com o DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, da Associação Americana de Psiquiatria), o TDAH é mais frequente no sexo masculino do que no feminino na população geral, com uma proporção aproximada de 2:1 entre crianças e de 1,6:1 entre adultos. O manual também destaca que pessoas do sexo feminino apresentam, com maior frequência, características predominantemente de desatenção quando comparadas às do sexo masculino. Esse padrão de apresentação pode contribuir para que os sintomas sejam menos reconhecidos durante a infância e o diagnóstico ocorra apenas na vida adulta.

A apresentação clínica do TDAH no adulto costuma ser mais heterogênea. Isso ocorre porque, ao longo da vida, é comum que o transtorno esteja associado a outras condições, como ansiedade, depressão e transtornos por uso de substâncias. Essas comorbidades podem modificar a forma como os sintomas se manifestam e tornar o diagnóstico mais desafiador.

Outra diferença importante é que muitos adultos desenvolvem estratégias para compensar suas dificuldades ao longo dos anos. Por isso, o diagnóstico pode passar despercebido durante muito tempo e só ser reconhecido quando as demandas aumentam, como na faculdade, no mercado de trabalho ou após assumir novas responsabilidades familiares.

É importante entender que o TDAH no adulto não representa um transtorno que surgiu nessa fase da vida. Na realidade, trata-se de um quadro que teve início na infância, mas que não foi identificado anteriormente ou cujos sintomas persistiram ao longo do desenvolvimento. Por isso, um dos critérios para o diagnóstico é a presença de sintomas desde a infância, ainda que eles só tenham sido reconhecidos na vida adulta.

As principais queixas que levam adultos a buscar avaliação

Muitas vezes, o adulto busca ajuda pelos prejuízos que os sintomas causam no dia a dia, especialmente no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos ou na organização da rotina.

Entre as principais queixas estão dificuldade para manter o foco em tarefas prolongadas, procrastinação, sensação constante de desorganização, esquecimentos frequentes, dificuldade para gerenciar o tempo, cumprir prazos e concluir projetos. Muitos também relatam a sensação de estar sempre sobrecarregados, mesmo se esforçando bastante para dar conta das responsabilidades.

Outro aspecto bastante característico é que muitos adultos descrevem uma discrepância entre seu potencial e seu desempenho. São pessoas que sabem que têm capacidade, mas têm dificuldade em transformar esse potencial em resultados consistentes, o que frequentemente gera frustração e impacto na autoestima.

Além disso, é comum que esses pacientes procurem inicialmente atendimento por ansiedade, depressão, estresse ou sintomas de esgotamento profissional. Durante uma avaliação clínica cuidadosa, identificamos que essas condições podem coexistir com um TDAH que nunca havia sido reconhecido. Isso reforça a importância de uma investigação abrangente, já que o TDAH raramente vem sozinho e frequentemente está associado a outras condições psiquiátricas.

Vale ressaltar que dificuldades de atenção, por si só, não significam TDAH. Alterações do sono, ansiedade, depressão, estresse crônico, uso de substâncias e outras condições clínicas também podem comprometer a concentração. Por isso, o diagnóstico deve sempre ser realizado por meio de uma avaliação clínica criteriosa, considerando a história de vida, a presença dos sintomas desde a infância e o impacto funcional que eles causam.

Os impactos do TDAH não tratado no ambiente de trabalho

O TDAH não tratado pode ter um impacto importante na vida profissional porque as dificuldades nas funções executivas afetam diretamente habilidades essenciais para o ambiente de trabalho, como planejamento, organização, gerenciamento do tempo, priorização de tarefas e manutenção da atenção em atividades prolongadas.

Como consequência, o profissional pode ter dificuldade para cumprir prazos, concluir projetos, organizar demandas simultâneas e manter um desempenho consistente ao longo do tempo.

Essas dificuldades costumam gerar sofrimento significativo. Muitos adultos relatam que, apesar do esforço constante, têm dificuldade para manter um desempenho consistente, cumprir prazos e organizar as demandas do trabalho. Como consequência, frequentemente vivenciam uma discrepância entre o potencial que sabem possuir e os resultados que conseguem alcançar, o que pode levar à frustração, culpa, redução da autoestima e desgaste emocional.

Ao longo da trajetória profissional, isso pode se traduzir em maior instabilidade na carreira, mudanças mais frequentes de emprego, dificuldades para alcançar o potencial esperado, menor satisfação no trabalho e maior risco de desenvolver ansiedade, depressão e esgotamento relacionado ao trabalho.

É importante entender que isso não significa que pessoas com TDAH sejam menos capazes. Muitas apresentam grande criatividade, capacidade de inovação, pensamento flexível e, em situações de maior interesse, podem alcançar excelente desempenho. O desafio está em manter esse desempenho de forma consistente diante das demandas de organização, planejamento e autorregulação exigidas na maioria dos contextos profissionais.

Felizmente, esse cenário pode mudar de forma significativa com o diagnóstico e o tratamento adequados. Quando o TDAH é reconhecido e tratado, muitos pacientes relatam melhora da organização, da produtividade, do gerenciamento do tempo e da qualidade de vida, refletindo positivamente na trajetória profissional e na satisfação com o próprio trabalho.

Como é realizado o diagnóstico do TDAH em adultos

O diagnóstico do TDAH em adultos é essencialmente clínico e é realizado com base em critérios diagnósticos estabelecidos em manuais e diretrizes reconhecidos internacionalmente, como o DSM-5-TR e os principais consensos para avaliação e tratamento do TDAH em adultos.

De acordo com esses critérios, para o diagnóstico, o adulto deve apresentar pelo menos cinco sintomas de desatenção e/ou de hiperatividade/impulsividade, persistentes por, no mínimo, seis meses.

Além disso, vários sintomas de desatenção ou hiperatividade-impulsividade devem ter iniciado antes dos 12 anos de idade, estar presentes em dois ou mais contextos, como trabalho, estudos, ambiente familiar ou relacionamentos, apresentar evidências claras de que os sintomas causam prejuízo clinicamente significativo no funcionamento do indivíduo e não serem mais bem explicados por outro transtorno mental, condição clínica ou pelos efeitos do uso de substâncias.

Na prática, a avaliação vai muito além de verificar se o paciente preenche uma lista de sintomas. É fundamental compreender quando essas dificuldades começaram, como evoluíram ao longo da vida e qual o impacto que exercem na rotina.

Sempre que possível, informações de familiares, boletins escolares e outros registros da infância ajudam a aumentar a confiabilidade da avaliação, especialmente quando o diagnóstico é realizado apenas na idade adulta.

As escalas de rastreamento e os questionários podem auxiliar a investigação clínica, mas, isoladamente, não confirmam nem descartam o diagnóstico.

Da mesma forma, a avaliação neuropsicológica é uma ferramenta complementar que pode contribuir para a investigação, caracterizar o perfil cognitivo, identificar dificuldades em funções executivas e auxiliar no diagnóstico diferencial. Entretanto, ela não estabelece o diagnóstico de TDAH.

É possível que uma pessoa apresente alterações na avaliação neuropsicológica e não preencha os critérios diagnósticos para o transtorno, assim como um paciente com TDAH pode ter um desempenho dentro da normalidade em alguns testes. O diagnóstico continua sendo clínico e depende da integração entre a história do paciente, os critérios diagnósticos e a avaliação realizada pelo psiquiatra.

Portanto, é indispensável, para o psiquiatra, realizar o diagnóstico diferencial, uma vez que condições como ansiedade, depressão, transtornos do sono, uso de substâncias e outras condições clínicas podem provocar sintomas semelhantes aos do TDAH ou coexistir com o transtorno. Por isso, uma avaliação cuidadosa e individualizada é fundamental para estabelecer o diagnóstico correto e definir o tratamento mais adequado.

A diferenciação entre TDAH, ansiedade e depressão

É comum ouvirmos que ansiedade ou depressão “mascaram” um TDAH. Porém, na prática clínica essa afirmação deve ser interpretada com cautela.

Em alguns casos, essas condições realmente podem dificultar o reconhecimento do transtorno, pois compartilham sintomas como dificuldade de concentração, esquecimento, desorganização e redução do rendimento. No entanto, isso não significa, necessariamente, que os diagnósticos prévios estejam incorretos.

Muitas vezes, ansiedade, depressão e TDAH coexistem. Por isso, não é correto assumir que todo adulto com ansiedade ou depressão tenha, na verdade, um TDAH não diagnosticado.

A diferenciação é feita por meio de uma avaliação clínica criteriosa, baseada na história do paciente e nos critérios diagnósticos estabelecidos em manuais e diretrizes reconhecidos internacionalmente.

Um dos aspectos mais importantes é investigar quando os sintomas começaram. No TDAH, eles estão presentes desde a infância, mesmo que o diagnóstico só seja realizado na vida adulta. Já na ansiedade e na depressão, as dificuldades de atenção e concentração costumam surgir como consequência desses transtornos e tendem a acompanhar sua evolução clínica, podendo melhorar com o tratamento adequado.

Outro ponto fundamental é reconstruir a história do desenvolvimento do paciente. Sempre que possível, a investigação deve incluir informações de familiares, boletins e históricos escolares ou outros registros da infância. Essas informações ajudam a verificar se os sintomas já estavam presentes precocemente, aumentando a confiabilidade da avaliação. Entretanto, a ausência desses documentos não impede o diagnóstico, que continua sendo essencialmente clínico e baseado na integração de todas as informações disponíveis.

Também é importante avaliar a natureza das dificuldades apresentadas. No TDAH, os prejuízos estão relacionados principalmente a alterações nas funções executivas, como planejamento, organização, gerenciamento do tempo, priorização de tarefas e controle da impulsividade, sendo persistentes ao longo da vida.

Na ansiedade, a dificuldade de concentração geralmente decorre da preocupação excessiva e da hiperativação emocional. Já na depressão, costuma estar associada à lentificação do pensamento, à redução da energia, da motivação e do interesse pelas atividades.

Além disso, pessoas com TDAH apresentam maior risco de desenvolver outros transtornos psiquiátricos, incluindo ansiedade e depressão. Assim, o mais comum na prática clínica é encontrarmos comorbidades, e não um diagnóstico substituindo o outro.

O papel do psiquiatra é identificar quais condições estão presentes, compreender a origem dos sintomas e elaborar um plano terapêutico individualizado para cada paciente.

As opções de tratamento para adultos com TDAH

As evidências científicas atuais e as principais diretrizes internacionais recomendam uma abordagem multimodal e individualizada para o tratamento do TDAH em adultos.

Isso significa que o plano terapêutico deve ser adaptado às necessidades de cada paciente, considerando a gravidade dos sintomas, os prejuízos funcionais, as preferências do indivíduo e a presença de possíveis comorbidades, como ansiedade, depressão e transtornos relacionados ao uso de substâncias.

Atualmente, o tratamento medicamentoso apresenta as evidências mais robustas para reduzir os sintomas centrais do TDAH em adultos. Quando indicado, ele pode promover melhora significativa da atenção, do controle da impulsividade, da organização, do planejamento e do gerenciamento do tempo.

No entanto, a medicação não ensina habilidades nem substitui mudanças comportamentais, sendo mais efetiva quando integrada a outras estratégias terapêuticas.

A psicoterapia, especialmente as abordagens baseadas na terapia cognitivo-comportamental, pode auxiliar o paciente a desenvolver estratégias para lidar com procrastinação, desorganização, dificuldades no planejamento, regulação emocional e manejo das demandas do cotidiano.

Além disso, a psicoeducação é uma etapa importante do tratamento, pois ajuda o paciente e seus familiares a compreenderem melhor o transtorno, favorecendo maior adesão ao tratamento e uma participação mais ativa no processo terapêutico.

Quando adequadamente tratado, o TDAH pode proporcionar uma melhora importante da qualidade de vida. Muitos pacientes apresentam melhor desempenho acadêmico e profissional, maior capacidade de organização, aumento da produtividade, melhora da autoestima e dos relacionamentos interpessoais.

Isso não significa que o transtorno desapareça, mas que seus sintomas passam a ser mais bem controlados, permitindo que o indivíduo expresse melhor suas capacidades e reduza os prejuízos funcionais causados pelo transtorno.

Os impactos de adiar uma avaliação

O adiamento de uma avaliação pode custar anos de sofrimento e de prejuízos que muitas vezes poderiam ser minimizados com o tratamento adequado.

Quando o TDAH está presente e permanece sem diagnóstico e tratamento, seus impactos podem se acumular ao longo da vida. Muitos adultos convivem durante anos com dificuldades persistentes no trabalho, nos estudos, na organização da rotina e nos relacionamentos, sem compreender a origem desses problemas.

Isso pode gerar frustração, baixa autoestima, sensação de não conseguir alcançar o próprio potencial e aumentar o risco de desenvolver outros transtornos psiquiátricos, como ansiedade, depressão e transtornos relacionados ao uso de substâncias psicoativas.

No entanto, destaco mais uma vez que nem toda dificuldade de atenção, organização ou procrastinação significa que a pessoa tenha TDAH. Esses sintomas também podem estar relacionados a outras condições médicas ou psiquiátricas. Por isso, o primeiro passo não é buscar um diagnóstico por conta própria, mas uma avaliação adequada com um profissional capacitado.

A boa notícia é que nunca é tarde para procurar ajuda. O diagnóstico, mesmo na vida adulta, pode proporcionar uma compreensão mais adequada das dificuldades vivenciadas e possibilitar um tratamento capaz de reduzir os prejuízos funcionais, melhorar a qualidade de vida e favorecer um desempenho mais consistente nas atividades pessoais, acadêmicas e profissionais.

Mais do que receber um diagnóstico, o objetivo é compreender o que está causando os sintomas e oferecer o tratamento mais adequado para cada pessoa. Em muitos casos, a avaliação confirma o TDAH; em outros, identifica condições diferentes que também merecem atenção.

O mais importante é evitar o autodiagnóstico e a automedicação, que podem atrasar o tratamento correto.

Referências

  1. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5-TR. 5th ed., Text Revision. Washington, DC: American Psychiatric Association Publishing; 2022.

  2. Faraone SV, Asherson P, Banaschewski T, et al. Attention-deficit/hyperactivity disorder. Nature Reviews Disease Primers. 2024;10:17.
    https://doi.org/10.1038/s41572-024-00495-0

  3. Kooij JJS, Bijlenga D, Salerno L, et al. Updated European Consensus Statement on diagnosis and treatment of adult ADHD. European Psychiatry. 2019;56:14-34.
    https://doi.org/10.1016/j.eurpsy.2018.11.001

  4. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management (NG87). Updated 2019.
    https://www.nice.org.uk/guidance/ng87

  5. Canadian ADHD Resource Alliance (CADDRA). Canadian ADHD Practice Guidelines. 5th ed. Toronto: CADDRA; 2020 (e atualizações posteriores).


  • Ir para GoogleNews
Notícias Relacionadas »