O que a aviação pode ensinar à saúde sobre inovação em operações críticas
Experimentação controlada, participação das equipes de operação e métricas de impacto orientam a adoção de inteligência artificial. Esses aprendizados chegam ao HIS 2026 em uma discussão sobre como inovar em ambientes onde não há espaço para erro.
Inovar em uma operação que não pode parar exige mais do que escolher a tecnologia certa. É preciso saber onde experimentar, como medir resultados, quando avançar — e, principalmente, quando abandonar uma solução que não entregou o que prometia. Essa é uma das provocações que a aviação levará ao setor de saúde durante o Healthcare Innovation Show 2026, em uma discussão sobre os aprendizados da GOL na adoção de inteligência artificial em uma operação crítica. A palestra “IA em uma operação que não pode parar: aprendizados da GOL para a saúde”, com Juliana Freitas, Coordenadora Digital de IA e Inovação da GOL, integra um novo formato de conteúdo desta edição do evento. A proposta do HISx é cruzar as fronteiras tradicionais do setor e trazer profissionais de outras indústrias para compartilhar soluções, métodos e experiências desenvolvidos em seus próprios mercados. A ideia é buscar referências que possam provocar o setor de saúde a olhar para problemas conhecidos sob novas perspectivas — e transformar esses insights em práticas capazes de acelerar a inovação. No caso da aviação, a aproximação é especialmente relevante: assim como na saúde, trata-se de uma operação de alta complexidade regulatória, com baixa margem de erro e na qual decisões equivocadas podem ter consequências críticas. É justamente nesse ambiente que a GOL vem estruturando sua abordagem para inteligência artificial. Experimentar antes de escalar Para Juliana, um dos principais aprendizados da aviação para a saúde está na forma de experimentar. Antes de incorporar uma solução à operação, a empresa trabalha com testes em ambientes controlados e estabelece métricas capazes de determinar se a tecnologia efetivamente entrega valor. “Só incorporamos soluções que passam por uma rodada meticulosa de testes e métricas altamente confiáveis”, afirma. A lógica desloca o debate de “qual tecnologia adotar?” para uma pergunta mais importante para gestores: qual problema precisa ser resolvido e como saberemos se a solução funcionou? Esse processo também envolve, desde o início, os profissionais que estão na ponta da operação. Segundo Juliana, o envolvimento das equipes operacionais em todas as etapas de teste e experimentação é determinante para validar uma solução. “O crivo do time que vai usar a solução no dia a dia é o que nos dá segurança sobre a entrega de valor de uma solução de IA.” Para a saúde, onde uma mesma tecnologia pode afetar fluxos assistenciais, administrativos e decisões clínicas, o princípio traz uma provocação importante: inovação não deve ser construída apenas por quem domina a tecnologia. Quem vive o problema precisa participar da construção da resposta. IA não pode ser um projeto isolado Outro aprendizado da GOL diz respeito à própria estrutura de inovação. Em vez de concentrar todas as iniciativas de inteligência artificial em uma única equipe, a companhia descentralizou os esforços. Enquanto o time de IA atua em frentes como eficiência operacional e segurança, outras áreas trabalham na adoção de ferramentas voltadas, por exemplo, à experiência do cliente. O desafio, explica Juliana, é manter alinhamento entre iniciativas, ferramentas e métodos sem perder a escala proporcionada pela descentralização. A experiência também questiona um modelo comum em grandes organizações de saúde: concentrar a inovação em uma área específica e esperar que ela seja responsável por disseminar a transformação para o restante da organização. Na visão da executiva, a participação de diferentes áreas é parte da própria capacidade de escalar a inovação. “Descentralizar os esforços e manter o alinhamento entre todas as ações, ferramentas e método é o maior desafio desse formato, mas é o formato mais escalável que permite que as principais frentes atuem juntas.” Cultura antes da tecnologia A adoção segura de IA também exige uma mudança de mentalidade. Na GOL, esse processo começou pelo letramento da organização, da alta liderança aos colaboradores da operação. A GOL Labs conduziu durante um ano um programa que treinou mais de 600 colaboradores nas ferramentas de IA recomendadas para ganho de produtividade. Até o momento, segundo Juliana, não houve incidente de segurança envolvendo essas ferramentas. Mas o treinamento é apenas uma parte da transformação. A empresa passou a trabalhar com versões menores das soluções, em ambientes seguros, envolvendo os times de negócio na construção e nos ajustes incrementais antes de disponibilizá-las aos colaboradores. A lógica se aproxima de métodos utilizados no ecossistema de startups, como lean startup, cultura ágil e validação em pequena escala, mas adaptados aos parâmetros de segurança de uma operação crítica. “Não adianta colocar o time de tecnologia para executar, isso precisa vir com visões do cliente, do usuário, da operação”, destaca Juliana. Para ela, quem vive a operação possui uma riqueza de informações que um time exclusivamente tecnológico não consegue reproduzir. Esse ponto é particularmente relevante para organizações de saúde que buscam avançar em IA sem transformar inovação em uma agenda restrita à área de tecnologia. A experiência da GOL sugere que a mudança cultural acontece menos pela simples disponibilização de ferramentas e mais pela participação contínua dos profissionais na experimentação. O indicador que importa não é tecnológico Se existe uma preocupação recorrente na adoção de novas tecnologias, ela é demonstrar que o investimento produziu resultado. Na experiência da GOL, a resposta está em medir o impacto sobre o negócio — e não apenas o desempenho da própria tecnologia. “Os KPIs não devem ser relacionados à tecnologia em si, e sim ao impacto dela no negócio. Quanto reduziu de tempo operacional? Quanto ganhou em produtividade? Qual o ponteiro do negócio que moveu?”, questiona Juliana. A abordagem também muda a forma de encarar os experimentos que não dão certo. Em vez de considerar uma solução não validada como necessariamente um fracasso, a empresa entende que descobrir que determinada hipótese não funciona também pode representar economia de tempo e recursos, além de reforçar a confiabilidade do método de experimentação. A lógica é simples, mas nem sempre fácil de aplicar: o objetivo não é provar que uma tecnologia funciona, mas descobrir se ela resolve um problema real. Nem toda dor precisa de IA É nesse ponto que a experiência da aviação traz uma provocação especialmente relevante para gestores de saúde. Em meio à corrida pela adoção de inteligência artificial, existe o risco de transformar a tecnologia em ponto de partida — quando ela deveria ser consequência de uma estratégia. “Nem tudo é IA, nem toda IA precisa ser um Agente e nem todo Agente resolve problemas verdadeiros”, afirma Juliana. Para ela, as organizações precisam começar pelas necessidades do negócio: quais são as dores mais importantes, onde querem chegar e quais metas precisam ser alcançadas. A tecnologia deve estar a serviço dessa estratégia, e não o contrário. A recomendação também vale para a própria experimentação. Inspirada na lógica das startups, a GOL trabalha com a possibilidade de mudar de rota sempre que os resultados não aparecem. “O foco aqui não é ‘entregar uma solução de IA’, o foco é aprender como os modelos de IA podem ajudar a solucionar uma dor de negócio de uma forma em que as ferramentas tradicionais não conseguem.” Isso significa aceitar que o processo é incerto — e que algumas ideias precisarão ser interrompidas. Onde termina a IA e começa a decisão humana Em operações críticas, a adoção de inteligência artificial também esbarra em uma questão central: até onde automatizar? Na GOL, “a decisão final sempre é do ser humano”, segundo Juliana. A IA pode ampliar os parâmetros de análise, gerar insights, produzir relatórios, organizar informações dispersas e identificar padrões e correlações. Pode, ainda, reduzir o trabalho operacional envolvido na consulta a manuais, históricos e diferentes bases de informação. Mas a tecnologia não elimina a necessidade de análise crítica. “Nenhuma IA é infalível”, ressalta Juliana. Em setores como aviação e saúde, portanto, reconhecer as limitações dos modelos faz parte da própria segurança da adoção. Mais do que definir o que a IA pode fazer, o desafio de gestão passa a ser estabelecer em quais situações a tecnologia apoia a decisão e em quais a supervisão humana permanece indispensável. Não se apaixone pela solução Para quem trabalha com inovação, talvez uma das provocações mais difíceis seja também uma das mais simples: não se apegar à própria ideia. “Não se apaixone pela solução. Existem momentos frustrantes quando uma solução precisa passar por um processo de experimentação. Não defenda a ideia e sim o resultado.” Na prática, isso significa estabelecer previamente os critérios que determinarão se uma iniciativa será mantida, modificada ou interrompida. A tomada de decisão, defende Juliana, precisa ser baseada em dados. “Metrifique o experimento e saiba o momento exato de parar, mudar de rota ou avançar”, sugere. Para a saúde, o aprendizado extrapola a inteligência artificial. Ele aponta para uma mudança na própria maneira de gerir inovação: experimentar com segurança, envolver quem conhece o problema, estabelecer métricas de impacto e aceitar que abandonar uma hipótese pode ser tão importante quanto escalar uma solução. É essa troca de referências que o novo formato do HIS pretende provocar. Ao trazer para o palco experiências de setores externos à saúde, o evento amplia o repertório disponível para gestores que enfrentam desafios semelhantes de complexidade, segurança, eficiência e experiência do usuário. No caso da aviação, a mensagem que chega à saúde é direta: inovar em uma operação crítica não significa experimentar menos. Significa experimentar melhor. The post O que a aviação pode ensinar à saúde sobre inovação em operações críticas appeared first on Saúde Business.
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