Minha trajetória na Medicina sempre esteve muito ligada ao cuidado de pacientes que exigem decisões complexas. Desde a formação em Cirurgia Geral, eu me identifiquei com a possibilidade de unir conhecimento técnico, raciocínio clínico e capacidade de resolver problemas de forma objetiva, especialmente em situações em que o tempo, a precisão e a segurança fazem muita diferença.
Com o passar dos anos, a Cirurgia Oncológica tornou-se um caminho natural. O paciente com câncer frequentemente precisa de uma abordagem muito individualizada, que considere não apenas a doença, mas também sua condição clínica, sua história, seus riscos e suas possibilidades de tratamento. Isso exige preparo técnico, atualização constante e, acima de tudo, responsabilidade na tomada de decisão.
A cirurgia, para mim, nunca foi apenas um ato operatório. Ela começa muito antes, na avaliação adequada, no planejamento, na indicação correta e na construção de uma relação de confiança com o paciente. Foi essa combinação entre técnica, decisão e cuidado humano que me levou a seguir na área cirúrgica e, posteriormente, a aprofundar minha atuação na oncologia.
A cirurgia oncológica profilática corresponde a intervenção cirúrgica com objetivo de reduzir a incidência e mortalidade relacionada a determinado tipo de câncer. Trata-se de um paciente que não tem o tumor, mas possui um risco muito superior ao da população em geral, devido a síndromes hereditárias e alterações genéticas bem estabelecidas.
A cirurgia redutora de riscos não é indicada de forma indiscriminada, ela faz parte da estratégia de prevenção em grupos muito específicos de pacientes.
O primeiro passo é definir qual o risco de câncer real desse indivíduo. Avalio o histórico pessoal e familiar, idade em que os cânceres ocorreram na família, tipos de tumores, presença de síndromes hereditárias e, quando indicado, são realizados aconselhamento e testes genéticos.
Depois, são comparados o risco de desenvolver e morrer pela doença com os riscos e consequências da operação. Nessa decisão, considero idade, comorbidades, desejo reprodutivo, impacto hormonal e funcional, qualidade de vida, existência ou não de métodos eficazes de rastreamento e, principalmente, a preferência do paciente.
Portanto, trata-se de uma decisão compartilhada, idealmente envolvendo equipe multidisciplinar e aconselhamento genético.
As situações mais bem estabelecidas estão relacionadas principalmente às síndromes hereditárias de câncer. Os exemplos mais importantes são:
Nos casos de Síndrome de Lynch, após completar o planejamento reprodutivo, histerectomia e cirurgia redutora de risco ovariano podem ser consideradas para prevenção de câncer de endométrio e ovário. É importante destacar que retirar profilaticamente o cólon de uma pessoa saudável não é a conduta habitual nesta síndrome, porque a colonoscopia periódica é uma estratégia preventiva eficaz.
O histórico familiar é uma das principais portas de entrada para identificar câncer hereditário, mas não significa automaticamente que aquela pessoa precise de cirurgia.
Avalio tanto o lado materno quanto o paterno, quais familiares tiveram câncer, o tipo de tumor, a idade ao diagnóstico e a ocorrência de múltiplos tumores ou de vários familiares acometidos. Cânceres em idades muito jovens ou determinados agrupamentos de tumores aumentam a suspeita de uma síndrome hereditária.
Quando esse padrão existe, o próximo passo costuma ser uma avaliação especializada em oncogenética. O teste genético, quando indicado, ajuda a separar indivíduos que realmente herdaram uma predisposição daqueles que não a herdaram.
Portanto, histórico familiar é um sinal de alerta e instrumento de estratificação de risco, não uma indicação cirúrgica isolada.
O principal benefício é evitar um câncer potencialmente grave ou reduzir de maneira muito significativa sua probabilidade. Em alguns cenários, essa redução é muito expressiva; por exemplo, a mastectomia bilateral redutora de risco em portadoras de BRCA1/2 reduz o risco de câncer de mama em pelo menos 95%, embora não o elimine completamente.
Por outro lado, estamos operando uma pessoa que muitas vezes está saudável naquele momento. Por isso, precisamos considerar sangramento, infecção, complicações anestésicas, sequelas funcionais, alterações da imagem corporal, fertilidade, sexualidade, menopausa precoce e possíveis consequências nutricionais e metabólicas, dependendo do órgão retirado.
Algumas dessas operações são irreversíveis e podem produzir repercussões para toda a vida.
A pergunta fundamental é: o benefício esperado de evitar aquele câncer supera os riscos e as consequências da intervenção para aquele paciente específico? É essa relação risco-benefício que deve nortear a decisão.
A cirurgia redutora de risco não significa alta do acompanhamento médico. Na realidade, o seguimento muda de objetivo.
Passamos a acompanhar as repercussões da cirurgia, eventuais riscos residuais naquele órgão ou tecido e, sobretudo, outros cânceres relacionados à síndrome genética do paciente. A cirurgia modifica o alvo do monitoramento, mas não encerra a vigilância oncológica.
O segmento passa a ser personalizado de acordo com a síndrome genética e o procedimento realizado.
Ter familiares com câncer não significa que você necessariamente desenvolverá câncer, nem que precisará realizar uma cirurgia preventiva. Mas determinados padrões familiares merecem investigação porque podem revelar uma predisposição hereditária e permitir que a prevenção começa antes do aparecimento da doença.
Meu principal recado seria: não espere adoecer para conhecer o seu risco. Procure uma avaliação especializada e, se possível, leve informações sobre quais familiares tiveram câncer, qual era o tipo de tumor e com que idade receberam o diagnóstico.
A avaliação pode tanto identificar alguém que necessita de um programa especial de prevenção quanto tranquilizar pessoas que imaginavam ter um risco muito maior do que realmente possuem.