Desde o meu quinto ano cursando Medicina eu escolhi que queria seguir a Oftalmologia e foquei totalmente meu tempo e meus estudos para essa residência médica. Mas foi somente dentro da Oftalmologia que eu tive certeza de que trilhei o caminho certo e me apaixonei por essa especialidade, pelo que proporciona e pela satisfação em entregar, às vezes, em um simples exame de óculos, uma visão satisfatória.
A Oftalmologia une a parte clínica e cirúrgica de forma brilhante, o que foi determinante na minha escolha. Mas mais prazeroso ainda é a gratidão daqueles pacientes que passam por nós com a sua visão restabelecida, com sua doença controlada e com seu acompanhamento regular.
Eu costumo explicar que catarata não é uma doença, mas uma condição da senilinidade. Existe uma estrutura dentro dos olhos que é importante para a nossa visão e se chama cristalino. Ele funciona como uma lente natural e transparente responsável por levar a luz até a retina, onde a imagem se forma.
Ao longo da nossa vida, essa estrutura é exposta a radiações solares, danos celulares e, pelo próprio processo de envelhecimento, acúmulo de proteínas, causando a perda da sua transparência. Quando isso acontece, nós conseguimos observar que o cristalino já não é mais translúcido, dando lugar à catarata e causando perda de nitidez das imagens.
O diagnóstico pode ser feito em consulta oftalmológica de rotina e, normalmente, a indicação está atrelada tanto à qualidade de visão que o paciente apresenta nos exames, como capacidade de enxergar detalhes e distinguir objetos, quanto à quantificação e identificação do tipo de catarata através do exame na lâmpada de fenda, associadas às queixas específicas de menor desempenho visual.
Então, com uma avaliação detalhada, a cirurgia pode ser indicada. E, como está intimamente relacionada ao processo de senilinidade, essa indicação geralmente se dá por volta dos 60 anos de idade.
A cirurgia consiste em realizar uma pequena incisão sobre a córnea, fragmentar e aspirar o cristalino opacificado — geralmente por facoemulsificação — preservando a cápsula que o envolvia.
Por fim, implanta-se uma lente intraocular transparente. Esta será a nova responsável por exercer a função óptica do cristalino removido, ajudando a focalizar a luz sobre a retina. A lente permanece no olho de forma definitiva e não precisa ser substituída ao longo da vida.
Existem diferentes tipos de lentes intraoculares e a principal diferença entre elas está em como o foco da visão será distribuído e no grau de independência dos óculos que podem proporcionar após a cirurgia.
De forma simplificada, existem as lentes monofocais, que oferecem um único foco principal, escolhidas para uma boa visão de longe; as lentes de foco estendido, chamadas EDOF, que proporcionam uma faixa mais contínua de visão, especialmente para longe e incluindo uma melhora na visão intermediária; e as lentes multifocais ou trifocais, desenvolvidas para oferecer visão em diferentes distâncias — longe, intermediário e perto — e, consequentemente, reduzir ainda mais a necessidade de óculos.
Já as lentes tóricas são indicadas para corrigir o astigmatismo, e essa tecnologia pode estar presente tanto em lentes monofocais quanto em lentes com maior amplitude de foco.
A escolha para cada paciente deve ser individualizada. Não existe uma lente melhor para todos, e cada indicação se ajusta a uma série de avaliações: a expectativa do paciente e seu desejo de ter maior independência dos óculos; as diferentes formas com que o indivíduo lida com a visão durante suas atividades de vida diária; as características anatômicas dos olhos; a integridade e saúde de cada estrutura avaliada, incluindo a presença de doenças oculares já existentes; além dos exames pré-operatórios e outras comorbidades sistêmicas.
Após a cirurgia de catarata, a recuperação costuma ser rápida e progressiva. Nos primeiros dias, é comum o paciente perceber a visão embaçada, além de apresentar leve sensibilidade à luz, a chamada fotofobia.
O importante mesmo é seguir os passos pós-operatórios, com o uso dos colírios prescritos para prevenir inflamações e infecções, além de evitar coçar os olhos, esforços físicos intensos e contato direto com água ou sujeira.
A estabilização pode levar algumas semanas, mas a melhora visual já pode ser percebida nos primeiros dias, com melhora significativa da nitidez e do contraste, desde que não existam outras doenças oculares que limitem a visão.
O resultado também depende do tipo de lente intraocular escolhida. De modo geral, é uma cirurgia com alto índice de satisfação.
Atualmente, a cirurgia de catarata é um procedimento muito seguro e realizado rotineiramente. Mas, como toda e qualquer cirurgia, não é isenta de riscos. A maioria das complicações é pouco frequente e, quando identificada precocemente, pode ser tratada com bons resultados.
Entre as possíveis intercorrências estão o aumento da pressão intraocular, geralmente controlada com colírios e acompanhamento mais próximo. Também podem ocorrer edema da córnea ou da retina, alterações no posicionamento da lente intraocular e, mais raramente, complicações como infecção intraocular, chamada endoftalmite, descolamento de retina ou ruptura da cápsula do cristalino durante a cirurgia.
Nesses casos, o tratamento é mais individualizado e pode envolver medicamentos ou mesmo uma nova intervenção cirúrgica.
Há também a opacificação da cápsula posterior, decorrente do processo de migração de células e que pode ocorrer meses a anos após a cirurgia. Contudo, sua resolução é relativamente simples e rápida, com um procedimento a laser chamado capsulotomia com YAG laser.
Fica evidente que a cirurgia não se restringe apenas ao ato cirúrgico, mas também ao bom acompanhamento pós-operatório e às orientações quanto aos sinais de alerta para imediata internação.
O principal erro dos pacientes é normalizar a dificuldade para enxergar. Muitas pessoas se acostumam gradualmente com a piora da visão e acabam adiando a avaliação oftalmológica.
A catarata é hoje a principal causa de cegueira reversível, principalmente aqui na região Norte, onde o acesso a uma avaliação especializada é extremamente precário.
Mas nem sempre a baixa visual é apenas uma questão de óculos, tampouco deve ser aceitável conviver com isso somente pelo fato de ser idoso ou idosa. Quanto mais cedo investigamos a causa, maiores são as possibilidades de preservar a visão e manter a qualidade de vida de um indivíduo.