O glaucoma é uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo e, justamente por agir de forma silenciosa, representa um dos maiores desafios da oftalmologia moderna. Neste Dia Nacional de Combate ao Glaucoma, quero compartilhar informações importantes sobre a doença, os avanços no diagnóstico e a importância da prevenção.
Minha escolha pela oftalmologia surgiu ainda durante a graduação em medicina.
“Sempre me intrigou o fato de um órgão tão pequeno e muitas vezes subestimado poder ter um impacto tão grande na qualidade de vida da população.”
Durante a faculdade, busquei aprofundamento na área através de estágios no Brasil e no exterior, ampliando minha experiência prática e acadêmica na especialidade.
O cenário brasileiro ainda é preocupante.
“90% dos casos de glaucoma no Brasil, em 2024, não são diagnosticados.”
Esse dado é baseado no Projeto Glaucoma, conduzido no Sul do país e publicado na revista científica Investigative Ophthalmology & Visual Science (IOVS).
Além disso, outro fator importante merece atenção:
“Segundo o IBGE, 80% da população brasileira não possui plano de saúde.”
Essa combinação entre falta de acesso e ausência de sintomas contribui diretamente para o diagnóstico tardio.
O glaucoma não é uma doença única, mas sim um grupo de condições que provocam dano progressivo ao nervo óptico.
Dentro do olho existe um líquido chamado humor aquoso. Quando sua drenagem não ocorre adequadamente, a pressão intraocular aumenta e passa a comprometer lentamente o nervo óptico.
“Essa pressão age como um enforcamento lento do nervo óptico, matando as células nervosas.”
Os principais tipos da doença são:
O histórico familiar é um dos fatores mais importantes para o desenvolvimento da doença.
“Ter histórico familiar de glaucoma aumenta a chance de possuir a patologia em 2,85 vezes.”
Além disso, outros fatores de risco incluem:
Também chamo atenção para a maior incidência na população negra, refletindo tanto fatores genéticos quanto desigualdades no acesso à saúde ocular.
“É um problema de saúde pública e social.”
O processo diagnóstico vai muito além da simples medição da pressão ocular.
Entre os exames utilizados estão:
Destaco especialmente a importância da Tomografia de Coerência Óptica (OCT).
“O OCT revolucionou o diagnóstico do glaucoma.”
O exame consegue medir a camada de fibras nervosas da retina com precisão micrométrica, permitindo identificar alterações estruturais antes mesmo de alterações no campo visual.
Embora o glaucoma não tenha cura, o tratamento é altamente eficaz quando iniciado precocemente.
“Nosso objetivo é parar a progressão e preservar o campo visual existente.”
A primeira linha terapêutica costuma ser feita com colírios hipotensores oculares. Quando não há resposta suficiente, outras alternativas incluem:
As técnicas mais modernas, especialmente os procedimentos MIGS, apresentam menor risco e frequentemente podem ser associados à cirurgia de catarata.
No entanto, o maior desafio continua sendo a adesão do paciente ao tratamento.
“O paciente aplica o colírio, não sente melhora e para de usar porque não estava sentindo nada.”
Por isso, reforço:
“A educação do paciente é parte do tratamento.”
Quero deixar um alerta direto à população:
“Check-up ocular não é luxo.”
Ampliar o acesso à triagem, diagnóstico e tratamento é uma responsabilidade coletiva que envolve saúde pública, educação e conscientização social.
Encerrando, deixo uma frase de George Bernard Shaw que considero muito atual:
“Aqueles que não conseguem mudar seus olhos, não conseguem mudar nada.”