Climatério e menopausa: terapia hormonal, sintomas e cuidados com a saúde da mulher
Dra. Cynthia Lins explica as diferenças entre climatério e menopausa, os principais sintomas dessa fase e quando a terapia hormonal pode ser considerada no cuidado com a saúde da mulher.
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Desde o início da minha formação médica, comecei a me aproximar do cuidado com a mulher. No segundo ano da faculdade, passei a fazer estágio na Maternidade a convite do meu tio, que na época era plantonista da Beneficente Portuguesa, e isso me levou a me sentir muito conectada a essa área.
A Ginecologia me encantou justamente por permitir acompanhar diferentes fases da vida feminina, da adolescência à maturidade, criando vínculos e participando de momentos importantes da história de cada paciente. A Mastologia surgiu como um caminho natural dentro dessa trajetória. Encontrei nela uma área que reúne conhecimento científico, precisão técnica e, sobretudo, uma dimensão humana muito intensa.
Cuidar de uma mulher diante de um diagnóstico de câncer de mama significa estar presente em um momento de grande vulnerabilidade, ajudando-a não apenas no tratamento da doença, mas também na preservação de sua autoestima, feminilidade e qualidade de vida.
Hoje, vejo que a Ginecologia e a Mastologia como especialidades que se completam e me permitem exercer aquilo em que acredito: cuidar da mulher de forma integral, respeitando sua história e suas escolhas em cada etapa de sua vida.
Climatério e menopausa não são a mesma coisaEssa é uma dúvida muito comum, porque climatério e menopausa frequentemente são usados como sinônimos, mas não significam a mesma coisa.
O climatério é uma fase de transição na vida da mulher, que marca a passagem do período reprodutivo para o não reprodutivo. Durante esse processo, que em média dura três anos, ocorre uma redução progressiva da função ovariana e importantes oscilações hormonais.
É nesse período que podem surgir alterações do ciclo menstrual, ondas de calor, mudanças de humor, redução da libido, insônia, ressecamento vaginal e alteração da composição corporal, entre tantos outros sintomas.
A menopausa é um marco dentro do climatério: corresponde à última menstruação da mulher e só pode ser confirmada retrospectivamente após 12 meses consecutivos sem menstruar, quando não existe outra causa para essa ausência, como uma doença endócrina associada.
Costumo dizer que o climatério é a jornada, enquanto a menopausa é um marco dentro dela. Compreender essa diferença é importante porque permite que a mulher reconheça mais cedo as transformações do seu corpo e procure orientação adequada, entendendo que essa fase pode ser vivida com saúde, informação e qualidade.
Os sintomas podem afetar diferentes áreas da vidaAs manifestações do climatério são muito individuais. Algumas mulheres atravessam essa fase com poucos sintomas, porém outras apresentam sinais e sintomas que podem comprometer significativamente a qualidade de vida.
Entre os sintomas que mais levam as mulheres ao consultório estão os fogachos e os suores noturnos, muitas vezes acompanhados de mudanças importantes do sono. O sono ruim tem um efeito em cascata: aumenta o cansaço, a irritabilidade, dificulta a concentração e pode interferir no desempenho profissional e nas relações pessoais.
Também são frequentes as mudanças de humor, ansiedade, alterações de memória e concentração, assim como alterações na composição corporal, como ganho de peso e acúmulo de gordura na região abdominal, que podem repercutir na autoestima.
Outro ponto muito importante, e que ainda é pouco verbalizado, é a saúde geniturinária e sexual. Ressecamento vaginal, ardor, dor nas relações, redução da libido e sintomas urinários podem afetar profundamente o bem-estar, a sexualidade e os relacionamentos.
Terapia hormonal deve ser individualizadaA terapia hormonal nessa fase, climatério e menopausa, ainda é cercada por mitos e receios, em grande parte relacionados a informações que foram generalizadas ao longo dos anos.
A indicação deve ser individualizada, considerando sintomas, tempo de menopausa, histórico pessoal e familiar e fatores de risco. Mas a grande maioria das mulheres é elegível para fazer uso de terapia hormonal.
De uma maneira geral, a terapia hormonal é o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores, como os fogachos, e também é indicada para os sintomas geniturinários, prevenção de perda óssea e controle metabólico.
Antes de prescrever, faço uma avaliação clínica cuidadosa, levando em consideração os benefícios e as contraindicações já bem determinadas por estudos clínicos.
O mais importante é deixar claro que a terapia hormonal não deve ser indicada por medo nem evitada por medo. Ela deve ser discutida com informação baseada em evidências, dentro de uma decisão compartilhada entre a mulher e seu médico.
Quando bem indicada, na dose, formulação e vias adequadas para cada paciente, pode proporcionar um ganho muito significativo na qualidade de vida.
Nem todas as mulheres podem utilizar terapia hormonal sistêmicaExistem situações em que a terapia hormonal sistêmica é contraindicada ou exige uma avaliação muito criteriosa e individualizada.
Entre elas estão mulheres com histórico de câncer de mama ou endométrio, sangramento genital sem causa esclarecida, doença hepática grave, antecedentes de trombose venosa ou embolia pulmonar e algumas condições cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral.
Mas é importante ressaltar que não poder utilizar terapia hormonal não significa que a mulher precise conviver com os sintomas.
Hoje, dispomos de diversas estratégias não hormonais, que devem ser escolhidas de acordo com o sintoma predominante e o perfil de cada paciente. O conceito mais importante é que o tratamento do climatério não se resume à terapia hormonal.
Várias estratégias, como alimentação adequada, exercício físico, suplementos, dentre outras, podem ser muito importantes para melhorar os sintomas.
A Mastologia também participa da decisão sobre a terapia hormonalA Mastologia tem um papel muito importante nessa discussão porque a decisão sobre terapia hormonal deve considerar não apenas os sintomas do climatério, mas também a saúde mamária e o risco individual de câncer de mama.
Antes de indicar o tratamento, avalio a história pessoal e familiar da mulher, seus exames de imagem, eventuais biópsias mamárias anteriores e a presença de fatores que possam aumentar seu risco.
Mulheres com história familiar importante, mutações genéticas ou determinadas lesões mamárias de alto risco precisam de uma avaliação ainda mais individualizada.
É importante esclarecer também que risco aumentado para câncer de mama não significa, automaticamente, contraindicação à terapia hormonal. Cada situação precisa ser analisada separadamente, considerando o risco basal daquela mulher, a intensidade dos sintomas, o tipo de terapia a ser empregada, a dose, a duração do tratamento e os benefícios esperados.
Por outro lado, nas mulheres com antecedente pessoal de câncer de mama, especialmente nos tumores hormônio-dependentes, a terapia hormonal sistêmica não é recomendada, e busco alternativas para o controle dos sintomas.
Existem diferentes opções de terapia hormonalAtualmente, temos diferentes opções de terapia hormonal, e essa variedade permite individualizar bastante o tratamento.
Não existe uma reposição hormonal ideal para todas as mulheres: a escolha depende dos sintomas, da idade, do tempo de menopausa, da presença ou não do útero, das comorbidades e dos fatores de risco de cada paciente.
O estrogênio é o principal componente para o controle dos sintomas do climatério e pode ser administrado por via oral ou transdérmica, por meio de adesivos ou gel.
Na prática clínica, a via transdérmica tem algumas vantagens em determinados perfis, especialmente por apresentar menor impacto sobre coagulação e metabolismo hepático, sendo frequentemente considerada quando há fatores de risco metabólicos ou tromboembólicos.
Nas mulheres que possuem útero, é necessário associar um progestagênio ao estrogênio para proteger o endométrio. Hoje, dispomos de diferentes progestagênios e esquemas terapêuticos, incluindo a progesterona micronizada. Já mulheres que realizaram histerectomia, em geral, podem utilizar apenas estrogênio.
Também temos opções específicas para determinadas necessidades, como a tibolona, que apresenta características estrogênicas, progestagênicas e androgênicas, e terapias hormonais tópicas, vaginais, para a síndrome geniturinária da menopausa, especialmente o estrogênio vaginal e, em situações selecionadas, a prasterona vaginal.
Mais importante do que escolher simplesmente “qual hormônio usar” é definir qual molécula, qual dose, qual via e qual esquema são mais adequados para aquela mulher.
A terapia hormonal atual é cada vez mais personalizada: busco utilizar a menor dose eficaz, com acompanhamento periódico, reavaliando benefícios e riscos ao longo do tempo. É essa individualização que torna o tratamento mais seguro e efetivo.
A mulher não precisa normalizar o desconfortoMuitas mulheres passam anos convivendo com os sintomas do climatério acreditando que precisam simplesmente aceitá-los como parte natural do envelhecimento. E é importante dizer: o climatério é uma fase natural da vida, mas conviver com seus sintomas não precisa ser natural.
Quando esses sintomas não são adequadamente avaliados e tratados, a mulher pode estar abrindo mão de aspectos muito importantes da sua qualidade de vida: dormir melhor, ter mais disposição e capacidade de concentração, preservar sua vida sexual, reduzir o desconforto geniturinário e recuperar bem-estar físico e emocional.
Fogachos intensos e sono fragmentado, por exemplo, podem repercutir no trabalho, nos relacionamentos e na forma como essa mulher vivencia sua rotina. A falta da terapia hormonal também compromete a saúde óssea e muscular, a cognição e aumenta os riscos cardiovasculares.
Além disso, a consulta do climatério é uma oportunidade para olhar além dos sintomas. É o momento de avaliar saúde óssea, cardiovascular e metabólica, composição corporal, sexualidade, hábitos de vida e fatores de risco que se tornam especialmente relevantes nessa etapa.
E tratamento não significa necessariamente terapia hormonal. Existem diferentes possibilidades, hormonais e não hormonais, que devem ser individualizadas.
A principal mensagem é que a mulher não precisa normalizar o desconforto nem esperar que ele simplesmente passe. Procurar acompanhamento adequado pode significar recuperar anos de bem-estar, funcionalidade e qualidade de vida e, ao mesmo tempo, construir um envelhecimento mais saudável.