Reposição de testosterona: especialista explica quando é indicada e quais cuidados são necessários no tratamento

Dr. Ricardo Rocha, médico urologista e membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), explica quem pode se beneficiar da reposição hormonal, quais são os riscos, as formas de administração e a importância do acompanhamento médico.

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Quando ouvimos a palavra testosterona, a primeira imagem que vem à mente de muitas pessoas é a de músculos volumosos ou de uma virilidade exacerbada. No entanto, como médico urologista, preciso dizer que esse hormônio vai muito além da estética ou do desempenho sexual.

A testosterona é um combustível essencial para o funcionamento do organismo, influenciando desde a saúde dos ossos e do coração até o nosso humor e capacidade de raciocínio. E, ao contrário do que muitos pensam, ela não é exclusividade masculina; as mulheres também a produzem e dependem dela para o bem-estar geral.

Infelizmente, vivemos em uma era de desinformação, onde a reposição hormonal é ora tratada como uma "poção mágica" para a juventude eterna, ora como um vilão perigoso.

O objetivo deste artigo é trazer clareza. Quero conversar com você sobre o que a ciência realmente diz, baseando-me nas diretrizes da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e da Associação Americana de Urologia (AUA), para que possamos separar os mitos da realidade médica.

Quando indicar e para quem

É um fato biológico: nos homens, os níveis de testosterona tendem a cair naturalmente com o passar dos anos. Mas atenção: ter um exame com nível "baixo" não significa, necessariamente, que você precisa de tratamento.

Segundo a AUA, o diagnóstico de deficiência de testosterona exige que dois requisitos caminhem juntos. Primeiro, o paciente deve apresentar sintomas que afetam sua qualidade de vida, como cansaço constante, perda de desejo sexual, dificuldade de ereção, perda de massa muscular, aumento da gordura abdominal e irritabilidade.

Segundo, esses sintomas devem ser confirmados por exames de sangue que mostrem níveis abaixo de 300 ng/dL, medidos preferencialmente pela manhã e em pelo menos duas ocasiões diferentes.

No Brasil, um posicionamento conjunto de 2026 entre a SBEM, SBU e ABEMSS¹ refinou esses critérios para dar mais segurança ao paciente: valores abaixo de 264 ng/dL confirmam o diagnóstico, enquanto níveis acima de 350 ng/dL tornam a necessidade de reposição muito improvável, sugerindo que os sintomas podem ter outras causas, como estresse ou problemas de sono.

E quanto às mulheres? Sim, o corpo feminino produz testosterona, embora em doses muito menores. De acordo com o consenso internacional de 2019, a única indicação com sólido embasamento científico para a reposição em mulheres é o Transtorno de Desejo Sexual Hipoativo (HSDD) na pós-menopausa.

Isso ocorre quando a mulher sente uma perda persistente de desejo que lhe causa sofrimento emocional. É importante destacar: não há evidência científica que sustente o uso de testosterona em mulheres jovens ou para fins de emagrecimento e ganho de massa muscular. Nestes casos, os riscos superam qualquer benefício.

Benefícios e riscos

Quando bem indicada, a reposição hormonal transforma vidas. Nos homens, observamos uma melhora significativa na energia diária, no desejo sexual e na qualidade das ereções.

Além disso, há um ganho real de força muscular e redução da gordura corporal, o que ajuda a prevenir doenças metabólicas. Nas mulheres com HSDD, o principal ganho é o resgate da satisfação sexual e do bem-estar íntimo.

Por outro lado, como qualquer tratamento médico, existem riscos que não podem ser ignorados. O principal deles é o aumento do hematócrito, que é o "espessamento" do sangue. Se o sangue ficar muito denso (acima de 54%), o risco de eventos vasculares aumenta, exigindo ajuste imediato da dose ou pausa no tratamento.

Sobre o câncer de próstata, as evidências atuais são tranquilizadoras: a reposição não causa o câncer, mas se o paciente já possui a doença ou um risco muito elevado, a avaliação deve ser extremamente criteriosa.

Atenção: Homens que desejam ter filhos no curto ou médio prazo não devem iniciar a reposição de testosterona, pois o tratamento pode reduzir drasticamente a produção de espermatozóides, levando à infertilidade temporária.

O acompanhamento médico: segurança em primeiro lugar

A reposição hormonal não é um tratamento do tipo "toma e vai". O acompanhamento médico seriado é o que garante que os benefícios continuem sem que os riscos apareçam.

A AUA recomenda que, após o início, o paciente realize exames de sangue (testosterona total, PSA para monitorar a próstata e hematócrito) entre o terceiro e o sexto mês. Se tudo estiver bem, esse controle passa a ser semestral ou anual.

Para as mulheres, o rigor é o mesmo. Monitoramos não apenas os níveis hormonais para garantir que não ultrapassem a faixa feminina, mas também a função do fígado e os níveis de colesterol.

O objetivo é manter o corpo em equilíbrio, nunca em níveis artificiais ou exagerados.

Vias de administração

Existem várias formas de administrar a testosterona: géis que você passa na pele diariamente, comprimidos, implantes subcutâneos e injeções. Na minha prática clínica, após anos acompanhando pacientes, desenvolvi preferências baseadas na comodidade e na estabilidade dos níveis hormonais.

Para os homens, minha preferência recai sobre a injeção intramuscular de liberação lenta (undecilato de testosterona). Diferente das injeções quinzenais que causam aumento e queda bruscos de testosterona sanguínea, a liberação lenta mantém o nível estável por até 12 semanas.

Isso significa menos picadas, menos idas ao consultório e, o mais importante, menor risco de aromatização — que é quando o excesso de testosterona se transforma em estrogênio, podendo causar ginecomastia (aumento das mamas).

Para as mulheres, prefiro os implantes subcutâneos. Eles são pequenos pellets colocados sob a pele que liberam o hormônio de forma contínua por 3 a 6 meses.

Isso elimina a necessidade de passar gel todos os dias (evitando o risco de transferir o hormônio para crianças ou pets pelo contato da pele) e mantém os níveis muito estáveis, o que reduz drasticamente efeitos colaterais como acne ou crescimento indesejado de pelos.

Considerações finais

A reposição de testosterona não é um milagre, mas é uma ciência poderosa quando aplicada com ética e rigor. A chave do sucesso é a individualização: o que funciona para um paciente pode não ser o ideal para outro.

Se você sente que sua energia e vitalidade não são mais as mesmas, procure um especialista. Com o diagnóstico correto e a via de administração adequada, é possível envelhecer com muito mais saúde, disposição e qualidade de vida.

Referência

  1. Hohl A, Lopes L, Ronsoni M, Miranda E, Fighera T, Facio F, Marchesan L, Torres L. Care of Patients with Male Hypogonadism: A Joint Position Statement from the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM), the Brazilian Society of Urology (SBU), and the Brazilian Association for Sexual Medicine and Health (ABEMSS). Int Braz J Urol. 2026 May-Jun;52(3):e20250610.

Link: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41678706/


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