A Geriatria sempre foi uma escolha muito natural para mim. Eu cresci cercada por pessoas idosas e tive o privilégio de conviver de perto com minha avó, bisavó, tia-avó e tataravó, mulheres muito longevas da minha família. A maioria delas faleceu após os 95 anos. Então, desde muito cedo, o envelhecimento fez parte da minha vida e da minha forma de enxergar as pessoas.
Por isso, quando escolhi a Medicina e, posteriormente, a Geriatria, foi uma escolha muito consciente. Sempre foi uma área pela qual tive um interesse muito especial.
Durante minha prática como geriatra, porém, comecei a perceber uma necessidade muito frequente nos meus pacientes. Além das diversas condições de saúde, eles apresentavam muitas queixas dermatológicas, como manchas, ressecamento, alterações e fragilidade das unhas, queda de cabelo e, principalmente, algumas lesões de pele bastante suspeitas para câncer de pele.
Eu queria poder oferecer um cuidado mais completo, inclusive ter conhecimento e habilitação para avaliar essas lesões, fazer o diagnóstico adequado e tratar as manifestações relacionadas ao envelhecimento da pele.
Foi então que decidi me especializar em Dermatologia. Recentemente, finalizei essa especialização e hoje consigo unir as duas áreas que fazem parte da minha trajetória: a Geriatria e a Dermatologia.
É daí que surge o meu trabalho como Dermatogeriatra: uma geriatra com um olhar especialmente voltado para a pele madura e para as particularidades da pele do paciente idoso.
Eu costumo dizer que envelhecer bem é uma construção. A gente não chega aos 70 ou 80 anos e decide, naquele momento, começar a cuidar da saúde. O que fazemos aos 30, 40 e 50 anos vai determinar, em grande parte, como chegaremos às décadas seguintes.
Ainda vejo muitas pessoas que só procuram ajuda quando aparece uma doença ou quando começam as limitações físicas. O ideal é trabalhar com prevenção.
Isso envolve alimentação adequada, atividade física regular, sono de qualidade, controle de doenças como hipertensão, diabetes e alterações do colesterol, evitar o tabagismo, moderar o consumo de álcool e, na Dermatologia, ter uma rotina adequada de fotoproteção desde cedo.
A exposição solar acumulada é um excelente exemplo. Muitas vezes, a pessoa não percebe o dano que está acontecendo aos 20 ou 30 anos, mas ele vai se manifestar décadas depois através de manchas, rugas, alterações de textura e, principalmente, aumento do risco de câncer de pele.
Envelhecimento saudável não é tentar parecer jovem para sempre. É chegar às idades mais avançadas com autonomia, funcionalidade, saúde e qualidade de vida.
O envelhecimento da pele é resultado da combinação de fatores intrínsecos e extrínsecos.
Existe o envelhecimento cronológico, que faz parte naturalmente da nossa biologia, mas também temos fatores externos que podem acelerar muito esse processo. A exposição solar é um dos principais, mas também temos tabagismo, poluição, alimentação inadequada, estresse, sono insuficiente e alguns hábitos de vida.
Além disso, existe uma característica muito individual. Genética, características da pele, histórico de exposição solar e condições de saúde fazem com que duas pessoas da mesma idade possam apresentar peles biologicamente muito diferentes.
Clinicamente, observamos perda de elasticidade, redução da espessura e da hidratação, surgimento de rugas e manchas, alterações da textura e da capacidade de reparação da pele.
No idoso, também podemos observar uma pele mais fina, frágil e vulnerável a traumas.
Por isso, quando avaliamos uma pele madura, não devemos pensar apenas em estética. A pele é um órgão e, com o envelhecimento, sua função de barreira e proteção também sofre alterações.
O envelhecimento acontece em todo o organismo. A pele acaba sendo apenas uma das partes mais visíveis desse processo.
Com o passar dos anos, podemos observar redução da massa muscular, alterações na composição corporal, diminuição da densidade óssea, mudanças metabólicas, alterações cardiovasculares e redução progressiva de algumas reservas funcionais do organismo.
Também precisamos prestar atenção à memória, ao humor, ao sono, à visão, à audição, ao equilíbrio e à capacidade de realizar as atividades do cotidiano.
Na Geriatria, uma das coisas que considero mais importantes é justamente não olhar somente para a presença ou ausência de doenças. Precisamos avaliar a funcionalidade. Uma pessoa pode ter várias doenças controladas e, ainda assim, estar perdendo autonomia.
Por isso, quanto mais cedo identificamos fatores de risco e começamos a intervir, maior a possibilidade de preservar funcionalidade e independência ao longo do envelhecimento.
Sem dúvida, a fotoproteção é um deles. Muitas pessoas associam o protetor solar apenas ao verão ou à praia, quando, na verdade, a exposição solar acumulada ao longo da vida tem um impacto enorme no envelhecimento da pele e também está relacionada ao câncer de pele.
Outro ponto é a atividade física. Ainda existe uma visão de que exercício serve apenas para emagrecer, mas ele é fundamental para preservar massa muscular, força, equilíbrio, mobilidade e autonomia.
A alimentação também tem um papel importante, assim como o sono e o controle do estresse.
E eu acrescentaria algo que muitas vezes é esquecido: fazer acompanhamento médico regularmente, mesmo quando a pessoa está se sentindo bem. Prevenção não é esperar aparecer um sintoma. É identificar riscos antes que eles se transformem em problemas maiores.
Na pele, especificamente, também é importante ter uma rotina de cuidados adequada à idade e às características individuais, sem a necessidade de seguir modismos ou utilizar uma quantidade enorme de produtos.
Acredito que um dos principais pontos negligenciados seja justamente a funcionalidade.
Muitas vezes, a consulta fica concentrada nas doenças e nos resultados dos exames, mas precisamos perguntar: essa pessoa está conseguindo andar bem? Está realizando suas atividades sozinha? Está se alimentando adequadamente? Está dormindo? Está enxergando e ouvindo bem? Como está a memória? O humor? Existe risco de queda?
Outro aspecto muito importante é a revisão das medicações. O idoso frequentemente utiliza vários medicamentos e é fundamental avaliar periodicamente se todos continuam sendo necessários, se existem interações e se algum deles pode estar contribuindo para tonturas, quedas, sonolência ou outras alterações.
Também devemos prestar atenção à pele, porque lesões podem passar despercebidas, especialmente em regiões de difícil visualização. Feridas que não cicatrizam, mudanças em pintas ou lesões novas precisam ser avaliadas.
O cuidado do idoso precisa ser realmente integral. Não podemos tratar apenas o exame alterado; precisamos cuidar da pessoa como um todo.
Eu não acredito que exista uma idade única em que todo mundo precise começar a procurar um geriatra. O momento ideal depende muito da história e das necessidades de cada pessoa.
Mas, de maneira geral, a partir da meia-idade já podemos começar a pensar de forma mais estruturada na prevenção do envelhecimento patológico.
E, principalmente quando surgem múltiplas doenças, uso de vários medicamentos, alterações de memória, quedas, perda de peso, redução da mobilidade ou alguma dificuldade para realizar atividades que antes eram simples, a avaliação geriátrica se torna muito importante.
O objetivo não é simplesmente tratar doenças. É prevenir a perda de autonomia, preservar capacidade funcional e manter qualidade de vida.
Eu gosto muito dessa ideia porque muda completamente a nossa visão sobre o envelhecimento. Não estamos falando apenas de viver mais anos, mas de viver esses anos com independência e dignidade.
Eu diria: não espere envelhecer para começar a cuidar de quem você quer ser quando envelhecer. O envelhecimento é um processo que começa muito antes da velhice, e nossas escolhas ao longo da vida fazem diferença na forma como vamos chegar às idades mais avançadas.
É como eu sempre digo aos meus pacientes: “Nascer é uma probabilidade, viver é um risco, envelhecer é um privilégio, mas envelhecer de forma saudável é uma opção.”