Envelhecimento saudável: especialista alerta que os cuidados devem começar antes da velhice

Dra. Nádia Vinagre, geriatra, explica por que a prevenção deve começar ainda na vida adulta e destaca os cuidados essenciais para preservar força, cognição, autonomia e qualidade de vida ao longo dos anos.

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Envelhecimento saudável: especialista alerta que os cuidados devem começar antes da velhice
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Minha trajetória até a Geriatria

Eu me formei em Medicina pelo CESUPA em 2013. Trabalhei em diversos interiores e em serviços de urgência em Belém. Depois, fiz residência na Clínica Médica pela UEPA, em Santarém, e retornei para Belém para fazer Geriatria pela UFPA. Também estagiei na UNIFESP durante a residência de Geriatria e concluí minha formação no Hospital Universitário João de Barros Barreto, o HUJBB.

O momento da decisão pela Geriatria aconteceu quando eu estagiei em uma instituição de longa permanência para idosos. Ali, convivia com casos complexos de demência, depressão, fragilidade e limitações que eu tinha muita ansiedade para resolver. A forma humana como eu conseguia cuidar desses idosos foi o que me cativou na especialidade.

O envelhecimento saudável começa muito antes da velhice

Envelhecer começa a partir do dia em que nascemos e se acentua principalmente após os 40 anos. O que observo é que a reserva funcional das pessoas, especialmente a reserva muscular necessária para enfrentar momentos de vulnerabilidade, muitas vezes não é planejada desde cedo.

Nunca é tarde para começar, mas, antes dos 40 anos, devemos trabalhar esse recrutamento muscular para termos mais vitalidade e melhores condições para enfrentar doenças e limitações ao longo da vida.

A perda de força e massa muscular merece atenção

De forma geral, todos os sistemas orgânicos se modificam com o envelhecimento. A pessoa idosa não é simplesmente um adulto mais velho, porque possui particularidades próprias.

Entre as mudanças que podem interferir significativamente na qualidade de vida está a sarcopenia, caracterizada pela perda progressiva da força e da massa muscular. Hoje, grandes estudos com bom nível de evidência confirmam inclusive a relação entre força muscular, melhora cognitiva e proteção neurológica, com destaque para a força do quadríceps.

Além disso, quem tem mais de 60 anos não pode deixar de estimular a mente, a memória e a funcionalidade. A funcionalidade representa a autonomia e a independência que temos para decidir e executar o que desejamos, mantendo qualidade de vida sem depender de outras pessoas para atividades básicas, como tomar banho, vestir-se ou administrar medicamentos, finanças e outras tarefas da rotina.

A avaliação geriátrica observa o paciente de forma integral

Eu costumo dizer que o geriatra é o médico da complexidade. Realizamos a chamada Avaliação Geriátrica Ampla, que representa uma visão completa dos aspectos biopsicossociais do paciente.

Não observamos somente comorbidades e condições de saúde. Avaliamos também a autopercepção de saúde, como aquela pessoa se enxerga como indivíduo e quais questões sociais, culturais e até espirituais podem afetá-la.

Existem diversas síndromes e testes específicos que nos ajudam a identificar as principais fragilidades da pessoa idosa para que possamos tomar uma decisão de conduta médica mais adequada. É uma avaliação longitudinal e, por isso, não conseguimos realizar tudo em um único encontro.

Hábitos cotidianos influenciam diretamente o envelhecimento

Além da prática regular de atividade física, com pelo menos 150 minutos por semana, considero importante estimular a mente, aprender algo novo e desafiar a memória.

Também é fundamental manter uma hidratação adequada, em torno de 35 mL por quilo de peso ao dia, ter uma alimentação o mais saudável possível, livre de ultraprocessados, e consumir diariamente proteínas de qualidade.

Outros hábitos importantes são cessar o tabagismo e o consumo de álcool, ter uma noite de sono de qualidade, encontrar um senso de propósito na vida, socializar, interagir e aproveitar cada momento ao lado de pessoas que nos fazem bem e que amamos. Ter gratidão pela vida também faz parte desse cuidado.

O acompanhamento com o geriatra pode começar antes da terceira idade

Segundo a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, o acompanhamento com um geriatra pode ser iniciado a partir dos 40 anos de idade de forma preventiva, visando um envelhecimento bem-sucedido, robusto e programável.

É a partir dessa idade que os nossos sistemas orgânicos começam a apresentar um declínio fisiológico. Por isso, devemos aproveitar esse momento para construir um envelhecimento mais leve e saudável.

Saúde mental e cognição também fazem parte do cuidado

Durante a Avaliação Geriátrica Ampla, a cognição é avaliada de acordo com a escolaridade do paciente, profissão, ambiente, cultura e hábitos de vida.

Podemos realizar um rastreio cognitivo utilizando testes específicos, como o Mini-Mental, o teste do relógio, o MoCA-B, testes de fluência verbal e escalas de funcionalidade como Katz e Lawton, entre outros.

Ao avaliarmos a cognição, consideramos diferentes domínios cognitivos, como memória, função executiva, linguagem, atenção, noção visuoespacial, percepção e aspectos sociais.

Cada alteração encontrada pode indicar qual é a principal fragilidade cognitiva. Em conjunto com o exame físico, exames laboratoriais e exames de imagem, consigo identificar uma possível alteração cognitiva e conduzir a investigação de forma adequada.

Cuidar do envelhecimento é cuidar da vida que estamos construindo

Meu recado para quem ainda acredita que cuidar do envelhecimento é algo para pensar somente mais à frente é: não se atrase.

A vida passa muito rápido e perder oportunidades pode nos tornar mais pesados e cheios de arrependimentos. Entregue-se a você verdadeiramente, com inteireza e amor próprio. Sem medo da validação de outras pessoas, faça por você e para você.

Nunca é tarde para começar, mas, quanto mais cedo aprendermos a desfrutar da vida, mais a vida vibra na mesma frequência que nós.


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