Eu me formei em Medicina pelo CESUPA em 2013. Trabalhei em diversos interiores e em serviços de urgência em Belém. Depois, fiz residência na Clínica Médica pela UEPA, em Santarém, e retornei para Belém para fazer Geriatria pela UFPA. Também estagiei na UNIFESP durante a residência de Geriatria e concluí minha formação no Hospital Universitário João de Barros Barreto, o HUJBB.
O momento da decisão pela Geriatria aconteceu quando eu estagiei em uma instituição de longa permanência para idosos. Ali, convivia com casos complexos de demência, depressão, fragilidade e limitações que eu tinha muita ansiedade para resolver. A forma humana como eu conseguia cuidar desses idosos foi o que me cativou na especialidade.
Envelhecer começa a partir do dia em que nascemos e se acentua principalmente após os 40 anos. O que observo é que a reserva funcional das pessoas, especialmente a reserva muscular necessária para enfrentar momentos de vulnerabilidade, muitas vezes não é planejada desde cedo.
Nunca é tarde para começar, mas, antes dos 40 anos, devemos trabalhar esse recrutamento muscular para termos mais vitalidade e melhores condições para enfrentar doenças e limitações ao longo da vida.
De forma geral, todos os sistemas orgânicos se modificam com o envelhecimento. A pessoa idosa não é simplesmente um adulto mais velho, porque possui particularidades próprias.
Entre as mudanças que podem interferir significativamente na qualidade de vida está a sarcopenia, caracterizada pela perda progressiva da força e da massa muscular. Hoje, grandes estudos com bom nível de evidência confirmam inclusive a relação entre força muscular, melhora cognitiva e proteção neurológica, com destaque para a força do quadríceps.
Além disso, quem tem mais de 60 anos não pode deixar de estimular a mente, a memória e a funcionalidade. A funcionalidade representa a autonomia e a independência que temos para decidir e executar o que desejamos, mantendo qualidade de vida sem depender de outras pessoas para atividades básicas, como tomar banho, vestir-se ou administrar medicamentos, finanças e outras tarefas da rotina.
Eu costumo dizer que o geriatra é o médico da complexidade. Realizamos a chamada Avaliação Geriátrica Ampla, que representa uma visão completa dos aspectos biopsicossociais do paciente.
Não observamos somente comorbidades e condições de saúde. Avaliamos também a autopercepção de saúde, como aquela pessoa se enxerga como indivíduo e quais questões sociais, culturais e até espirituais podem afetá-la.
Existem diversas síndromes e testes específicos que nos ajudam a identificar as principais fragilidades da pessoa idosa para que possamos tomar uma decisão de conduta médica mais adequada. É uma avaliação longitudinal e, por isso, não conseguimos realizar tudo em um único encontro.
Além da prática regular de atividade física, com pelo menos 150 minutos por semana, considero importante estimular a mente, aprender algo novo e desafiar a memória.
Também é fundamental manter uma hidratação adequada, em torno de 35 mL por quilo de peso ao dia, ter uma alimentação o mais saudável possível, livre de ultraprocessados, e consumir diariamente proteínas de qualidade.
Outros hábitos importantes são cessar o tabagismo e o consumo de álcool, ter uma noite de sono de qualidade, encontrar um senso de propósito na vida, socializar, interagir e aproveitar cada momento ao lado de pessoas que nos fazem bem e que amamos. Ter gratidão pela vida também faz parte desse cuidado.
Segundo a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, o acompanhamento com um geriatra pode ser iniciado a partir dos 40 anos de idade de forma preventiva, visando um envelhecimento bem-sucedido, robusto e programável.
É a partir dessa idade que os nossos sistemas orgânicos começam a apresentar um declínio fisiológico. Por isso, devemos aproveitar esse momento para construir um envelhecimento mais leve e saudável.
Durante a Avaliação Geriátrica Ampla, a cognição é avaliada de acordo com a escolaridade do paciente, profissão, ambiente, cultura e hábitos de vida.
Podemos realizar um rastreio cognitivo utilizando testes específicos, como o Mini-Mental, o teste do relógio, o MoCA-B, testes de fluência verbal e escalas de funcionalidade como Katz e Lawton, entre outros.
Ao avaliarmos a cognição, consideramos diferentes domínios cognitivos, como memória, função executiva, linguagem, atenção, noção visuoespacial, percepção e aspectos sociais.
Cada alteração encontrada pode indicar qual é a principal fragilidade cognitiva. Em conjunto com o exame físico, exames laboratoriais e exames de imagem, consigo identificar uma possível alteração cognitiva e conduzir a investigação de forma adequada.
Meu recado para quem ainda acredita que cuidar do envelhecimento é algo para pensar somente mais à frente é: não se atrase.
A vida passa muito rápido e perder oportunidades pode nos tornar mais pesados e cheios de arrependimentos. Entregue-se a você verdadeiramente, com inteireza e amor próprio. Sem medo da validação de outras pessoas, faça por você e para você.
Nunca é tarde para começar, mas, quanto mais cedo aprendermos a desfrutar da vida, mais a vida vibra na mesma frequência que nós.