Trombose venosa profunda: especialista explica o que é e como diferenciá-la de uma simples dor muscular na perna

Dra. Elisa Novaes Barros Sauaia, cirurgiã vascular, explica os principais sinais da TVP, fatores de risco, diagnóstico, tratamento e alerta para sintomas que exigem avaliação médica imediata.

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Trajetória na Cirurgia Vascular

Tive meu primeiro contato com a Cirurgia Vascular durante a residência de Cirurgia Geral, no ano de 2020. Esse período também foi marcado pela primeira onda da pandemia do coronavírus.

Hoje, já está bem estabelecida a relação intrínseca entre a infecção por COVID e fenômenos tromboembólicos. Por isso, a demanda da especialidade, ainda mais em um hospital de referência como o Hospital de Clínicas Gaspar Viana, aumentou bastante.

Nessa época, tive a oportunidade de ver meus professores atuarem com excelência e rapidez no diagnóstico e tratamento de complicações relacionadas à infecção, como oclusões arteriais agudas, trombose venosa e tromboembolismo pulmonar, fazendo a diferença no prognóstico de vários pacientes.

O que é a trombose venosa profunda?

A TVP consiste na formação de um trombo no interior de uma veia do sistema venoso profundo, abaixo do plano muscular.

É uma doença multifatorial cuja fisiopatologia foi descrita pelo patologista alemão Rudolf Virchow (1821–1902), que identificou a tríade dos principais fatores que favorecem a formação do trombo:

1. Estase sanguínea: redução ou alteração do fluxo sanguíneo.

Exemplos: imobilização prolongada, repouso no leito, viagens longas e insuficiência cardíaca.

2. Lesão do endotélio vascular: dano à parede vascular que pode ocorrer por trauma, cirurgia, cateter vascular, aterosclerose, entre outras situações.

3. Hipercoagulabilidade: aumento da tendência do sangue a coagular.

Pode ser hereditária, como no fator V Leiden, ou adquirida, como em casos de câncer, gestação e uso de estrogênio.

Como diferenciar a TVP de uma dor muscular?

Na prática clínica, observo que a TVP, além da dor na panturrilha, também pode se apresentar com edema, assimetria do membro e, em alguns casos, frialdade.

Esse quadro clínico, associado à identificação de fatores de risco, pode sugerir o diagnóstico.

Principais fatores de risco

Entre os fatores de risco mais comuns para o desenvolvimento da TVP estão:

Imobilização prolongada, como repouso no leito, internação, viagens longas e paralisia;

Cirurgia recente, especialmente cirurgias ortopédicas de quadril ou joelho;

Trauma ou fratura, principalmente de membros inferiores;

Câncer ativo ou tratamento oncológico;

TVP ou embolia pulmonar prévia, um dos fatores de maior importância;

Gestação e período pós-parto;

Uso de estrogênio, incluindo anticoncepcionais combinados ou terapia hormonal;

Trombofilias hereditárias, como fator V Leiden, mutação da protrombina, deficiência de antitrombina, proteína C ou proteína S;

Entre outros fatores.

Como é feito o diagnóstico?

Mediante suspeita clínica, aplicamos um escore que pontua a probabilidade do diagnóstico de TVP, chamado escore de Wells.

Se a probabilidade for alta, o ideal é solicitar logo um ultrassom Doppler venoso do membro. Porém, se o escore indicar baixa probabilidade, podemos solicitar inicialmente um exame de sangue chamado D-dímero, que é um exame de triagem.

Caso o resultado seja negativo, o diagnóstico de TVP pode ser afastado.

Contudo, é importante ressaltar que, caso o D-dímero seja positivo, isso não confirma a trombose, sendo obrigatória a realização de um ultrassom Doppler venoso para fechar o diagnóstico.

Quais são as complicações da TVP?

A complicação mais conhecida e temida é o tromboembolismo pulmonar, ou TEP, que ocorre quando o trombo se desprende do membro e caminha pela circulação até obstruir uma ou mais artérias pulmonares.

Os sintomas variam desde dor torácica e falta de ar até morte súbita, a depender do grau de obstrução da circulação pulmonar.

Outra complicação menos comentada, mas que também causa importante morbidade, é a síndrome pós-trombótica, que tende a ser mais grave nos pacientes com tratamento tardio ou inadequado.

Os sinais e sintomas podem variar desde dor, cansaço, câimbras, varizes e alterações na pele até úlceras venosas de difícil cicatrização.

Como é realizado o tratamento?

O tratamento consiste no uso de medicamentos anticoagulantes por período prolongado.

Atualmente, temos a opção dos anticoagulantes de nova geração, que permitem tratamento por via oral em domicílio. Contudo, é necessária uma avaliação médica cuidadosa para identificar possíveis fatores de gravidade que indiquem tratamento em regime hospitalar.

Além disso, em conjunto com o anticoagulante, o uso de meia elástica compressiva adequada ajuda a controlar o edema e reduz o risco de síndrome pós-trombótica.

Dor persistente na perna exige atenção

Não é seguro assumir que uma dor persistente na perna seja apenas cansaço ou consequência de esforço físico, especialmente quando ela é unilateral e vem acompanhada de inchaço.

Esses sinais podem ocorrer em uma trombose venosa profunda e precisam de avaliação médica e, quando indicado, investigação com exames.

Oriento procurar atendimento o quanto antes se a dor for persistente ou inexplicada, principalmente na presença de fatores de risco como cirurgia recente, imobilização prolongada, câncer, uso de estrogênio ou histórico de TVP.

Se, junto com a dor, aparecerem falta de ar súbita, dor no peito, desmaio ou tosse com sangue, é necessário procurar atendimento de emergência imediatamente, pois esses sintomas podem indicar um tromboembolismo pulmonar.


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