Eu sempre soube que queria seguir uma especialidade cirúrgica. Quando ingressei na Cirurgia Geral, meu grande objetivo era, inicialmente, fazer Cirurgia Plástica. Porém, durante o R2, especialmente no período do meu eletivo em Cirurgia Plástica em São Paulo, comecei a me questionar se aquela era realmente a especialidade que eu desejava seguir para o resto da vida.
Foi então que comecei a olhar com mais atenção para outras possibilidades. No serviço onde fiz Cirurgia Geral, tive bastante contato com cirurgias benignas de Cabeça e Pescoço e, aos poucos, comecei a perceber o quanto aquela área despertava meu interesse. Mas acredito que o grande ponto de virada foram dois mutirões dos quais participei no Ophir Loyola. Ali, consegui enxergar de perto uma especialidade à qual, até então, eu não tinha dado tanta atenção.
Foi quando meus olhos realmente brilharam. Percebi o quanto a Cirurgia de Cabeça e Pescoço é ampla e completa. Dentro da especialidade, temos contato com diversas áreas e possibilidades: a parte vascular, a interface com a otorrinolaringologia, as estruturas ósseas e faciais, a pele, além de toda a área oncológica e das doenças benignas. É uma especialidade extremamente rica, com um leque enorme de atuações e possibilidades.
Foi justamente nesse momento que percebi que havia encontrado algo diferente: uma especialidade que me desafiava, despertava minha curiosidade e, principalmente, fazia sentido para mim.
A decisão de mudar de caminho não foi simples. Deixar para trás uma ideia que eu tinha carregado durante tantos anos exigiu coragem. Mas hoje, olhando para trás, tenho a certeza de que aquela dúvida foi, na verdade, o começo de uma descoberta.
Escolher a Cirurgia de Cabeça e Pescoço foi escolher continuar sendo cirurgiã, mas encontrar, dentro da cirurgia, uma área que reunia tudo aquilo que eu buscava.
O nódulo tireoidiano é uma lesão dentro do tecido tireoidiano com configuração diferente das células ao seu redor.
Ele pode ter origem em uma hiperplasia nodular, decorrente do crescimento focal do tecido tireoidiano; em um adenoma folicular, originado das células foliculares; em um cisto tireoidiano, que é uma lesão preenchida por líquido; em tireoidites, relacionadas a processos inflamatórios; ou em um carcinoma de tireoide.
A maioria dos nódulos de tireoide é benigna, mas algumas características clínicas ajudam a orientar a avaliação do risco de malignidade.
Entre elas estão o crescimento rápido do nódulo, consistência endurecida, fixação aos planos profundos, rouquidão ou disfonia, disfagia, dispneia, paralisia de corda vocal, linfonodomegalias cervicais suspeitas e histórico de irradiação cervical ou de câncer de tireoide na família.
Na ultrassonografia, são particularmente suspeitos os nódulos sólidos e hipoecogênicos, com margens irregulares ou infiltrativas, formato mais alto que largo, microcalcificações ou pontos ecogênicos puntiformes, extensão extratireoidiana e alterações suspeitas nos linfonodos cervicais.
A classificação TI-RADS
| Categoria | Pontuação | Risco aproximado | Conduta |
|---|---|---|---|
| TR1 | 0 | Benigno | Sem PAAF |
| TR2 | 2 | Não suspeito | Sem PAAF |
| TR3 | 3 | Levemente suspeito | PAAF ≥ 2,5 cm; seguimento ≥ 1,5 cm |
| TR4 | 4–6 | Moderadamente suspeito | PAAF ≥ 1,5 cm; seguimento ≥ 1,0 cm |
A investigação de um nódulo tireoidiano começa pela anamnese e pelo exame físico. Avalio o crescimento do nódulo, a presença de sintomas compressivos associados, o histórico familiar de câncer de tireoide, o histórico de exposição à radiação e a presença de linfonodomegalias.
Entre os exames laboratoriais, a dosagem do TSH é fundamental. A ultrassonografia da tireoide também faz parte da investigação.
A PAAF, punção aspirativa por agulha fina, é indicada de acordo com o risco descrito na ultrassonografia.
Em situações específicas, também podem ser solicitados exames complementares, como T4 livre, anticorpos tireoidianos e calcitonina, quando houver suspeita de carcinoma medular ou contexto clínico apropriado. A tomografia computadorizada ou a ressonância magnética podem ser utilizadas em casos selecionados, principalmente diante de doença localmente avançada ou sintomas compressivos.
De maneira geral, a investigação segue uma sequência: identificação do nódulo, dosagem do TSH, ultrassonografia com classificação TI-RADS, realização de PAAF quando indicada, análise citológica pela classificação Bethesda e, a partir desses resultados, definição da conduta.
A cirurgia é indicada principalmente diante de malignidade ou suspeita de malignidade, sintomas compressivos, crescimento significativo, invasão local ou presença de metástases.
Por outro lado, nódulos benignos, assintomáticos e de baixo risco podem ser acompanhados com avaliação clínica e ultrassonográfica periódica.
A cirurgia da tireoide, chamada tireoidectomia, é realizada sob anestesia geral e pode ser uma lobectomia, com retirada de um dos lobos da tireoide, ou uma tireoidectomia total. A escolha depende da doença, do tamanho e das características do nódulo.
O procedimento é feito por uma incisão na região anterior do pescoço, com identificação e preservação dos nervos laríngeos e das glândulas paratireoides. Em casos selecionados, técnicas menos invasivas também podem ser consideradas.
Após a cirurgia, a maioria dos pacientes apresenta recuperação rápida e pode retornar às atividades laborais assim que houver liberação médica. Nos primeiros dias, é comum haver dor ou desconforto cervical e uma sensação de tensão na região.
Em relação à função tireoidiana, após uma lobectomia, o lobo remanescente pode ser suficiente para manter a produção hormonal adequada. No entanto, alguns pacientes podem desenvolver hipotireoidismo e necessitar de reposição hormonal.
Após uma tireoidectomia total, é necessária a reposição hormonal com levotiroxina por toda a vida. Até que a dosagem do hormônio seja adequadamente ajustada, podem ocorrer sintomas de hipotireoidismo, como cansaço, sonolência, intolerância ao frio, ganho de peso ou dificuldade para perder peso, pele seca, queda ou ressecamento dos cabelos, constipação intestinal, inchaço, especialmente na face e nas extremidades, lentificação do pensamento, dificuldade de concentração, alterações do humor, desânimo ou depressão, fraqueza e dores musculares, bradicardia, rouquidão, alterações menstruais e diminuição da libido.
Entre os riscos da cirurgia estão a lesão do nervo laríngeo recorrente, que pode causar alteração da voz e, em casos bilaterais, comprometimento da respiração; a hipocalcemia, principalmente após a tireoidectomia total, por lesão ou comprometimento das paratireoides; e o hematoma cervical, uma complicação rara, porém potencialmente grave pelo risco de compressão das vias aéreas.
Também podem ocorrer sangramento, infecção e complicações anestésicas, embora sejam menos frequentes.
A redução das complicações depende de um planejamento cirúrgico individualizado, da identificação e preservação dos nervos laríngeos e das paratireoides, de uma técnica cirúrgica cuidadosa e do acompanhamento pós-operatório adequado, incluindo o controle da pressão arterial.
Em casos selecionados, a monitorização intraoperatória do nervo também pode ser utilizada como ferramenta auxiliar.
Para quem descobriu um nódulo na tireoide e ainda está em dúvida sobre os próximos passos, reforço que a avaliação deve ser individualizada.
Ela começa pela consulta médica, pela dosagem do TSH e pela ultrassonografia. A partir desses dados, é possível definir o risco do nódulo e identificar se há necessidade de realização de PAAF ou apenas de acompanhamento.
E, principalmente: não deixe de investigar, mas também não antecipe o diagnóstico. Com uma avaliação adequada, é possível diferenciar com segurança os nódulos que precisam de tratamento daqueles que podem simplesmente ser acompanhados.