Pessoas negras de baixa renda recebem cuidado menos adequado para diabetes no Brasil, mostra estudo
Análise com quase 7 mil pessoas aponta desigualdades no acompanhamento da doença e mostra falhas em exames, orientações e prevenção de complicações.
Pessoas negras de baixa renda com diabetes são as que apresentam maior frequência de cuidados inadequados para a doença no Brasil. Esse é o achado de um estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), publicado em agosto deste ano na revista científica PLOS One. Para chegar ao resultado, eles analisaram dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019. O levantamento considerou 6.967 pessoas com 18 anos ou mais que relataram ter recebido diagnóstico médico de diabetes. Foram avaliadas 15 perguntas da própria PNS relacionadas ao cuidado da doença, como orientações sobre alimentação, controle do peso, atividade física e tabagismo; realização de exames, como hemoglobina glicada e colesterol; encaminhamento para especialistas; e exames oftalmológicos e dos pés. Cada resposta positiva recebida pelo paciente somava um ponto. Os pesquisadores classificaram como baixa adequação do cuidado os casos em que a pessoa acumulou até 12 dos 15 pontos. No total, 72% dos participantes tiveram 12 pontos ou menos no indicador de cuidado. Quando os pesquisadores cruzaram sexo, raça e renda, homens e mulheres negros de baixa renda apresentaram as maiores prevalências de baixa adequação do cuidado: 79,6% e 79,1%, respectivamente. “É um valor bastante alto, o que acende um alerta principalmente para o Sistema Único de Saúde, porque a maior parte dessas pessoas que participaram da nossa pesquisa é totalmente dependente do SUS. São poucas pessoas que têm plano de saúde privado”, afirma Isabelle Ribeiro Barbosa, professora da pós-graduação em Saúde Coletiva da UFRN e uma das autoras do estudo. O que explica os resultados? Segundo a pesquisadora, pessoas de baixa renda podem ter menos acesso a informações e recursos necessários para manejar o diabetes e buscar atendimento, o que pode dificultar o autocuidado e o acompanhamento da doença. No caso da população negra, ela relaciona esse cenário a desigualdades raciais e socioeconômicas. Barbosa afirma que pessoas de maior renda têm mais possibilidades de recorrer ao setor privado quando encontram dificuldades no sistema público, enquanto pessoas mais pobres têm menos alternativas. Quando essas condições se sobrepõem — como no caso de pessoas negras de baixa renda —, as barreiras ao cuidado podem se acumular. “Se a gente olhar uma pessoa, um homem ou uma mulher branca de melhor condição, ela vai ter melhor acesso aos medicamentos, ela vai ter melhor acesso ao tratamento. Inclusive, se ela não consegue no setor público uma consulta, ela vai pagar no privado”, explica. Hospitalizações e desigualdade Para a pesquisadora, a falta de acompanhamento e de medidas preventivas pode contribuir para que o diabetes evolua para complicações mais graves, como problemas nos pés, perda de visão e doenças cardiovasculares. Essas complicações, por sua vez, podem provocar limitações para o trabalho e perda de renda, contribuindo para a manutenção da vulnerabilidade social. Um estudo publicado na revista Scientific Reports neste ano mostrou que a composição das hospitalizações por diabetes no Brasil mudou entre 2010 e 2024, com aumento da participação proporcional de pessoas negras entre os pacientes hospitalizados. A pesquisa analisou internações de pessoas com 40 anos ou mais, com dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS. “Como não se cuida, como não se trata o problema na base, não se dão as ações, as orientações, não se faz a promoção da saúde, esses casos complicam. Vão para a hospitalização, vão para amputação, para a perda de visão. Isso faz com que haja um ciclo, uma perpetuação dessa exclusão, dessa desvantagem”, afirma Barbosa. Gabriela Wünsch Lopes, médica epidemiologista e pesquisadora em saúde pública que viu o estudo a pedido da reportagem, diz que a contribuição dessa abordagem de pesquisa está justamente no reconhecimento de que esses fatores não são isolados nem dissociáveis uns dos outros, mas se complementam e se sobrepõem na vida real das pessoas. “Olhar para elas de forma combinada permite mostrar de maneira mais apropriada como essas condições se somam para reduzir o acesso das pessoas às formas de promoção e de cuidado em saúde”, opina. Quais os possíveis caminhos? Para Barbosa, reduzir essas desigualdades exige que as políticas de saúde mantenham o caráter universal do SUS, mas também considerem que determinados grupos enfrentam mais barreiras para receber um cuidado adequado. Isso significa direcionar maior atenção às pessoas mais vulneráveis, especialmente pessoas negras e de baixa renda. “As políticas são universais, elas são desenhadas de uma maneira universal, mas elas precisam ter uma visão com mais atenção. É preciso, dentro dessa política do cuidado da pessoa com diabetes, olhar de maneira diferenciada para as pessoas que são mais afetadas. É assim que a gente reduz as desigualdades, é assim que a gente reduz as iniquidades”, afirma. A pesquisadora também defende que as estratégias previstas nas políticas brasileiras de enfrentamento às doenças crônicas não transmissíveis considerem de forma mais específica os grupos que apresentam maior vulnerabilidade. Limitações do estudo O estudo tem algumas limitações, segundo a pesquisadora Barbosa. Por usar dados da Pesquisa Nacional de Saúde, as informações sobre o cuidado dependem da lembrança e da interpretação de cada entrevistado. Lopes também diz que a limitação mais evidente é o entendimento subjetivo das perguntas, pois o questionário capta o relato do cuidado recebido, e não o cuidado efetivamente prestado. “Não invalida os achados, mas pede cautela na interpretação, sobretudo acerca de indicadores que podem não ser tão bem compreendidos pelos pacientes (como o termo ‘hemoglobina glicada’)”, explica. Indígenas e pessoas classificadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como amarelas também foram excluídas da análise devido ao pequeno número de participantes, o que impediu comparações estatísticas mais robustas com esses grupos. Outro ponto é que não existe um ponto de corte nacional ou internacional validado que determine quantas respostas “sim” são necessárias, entre as 15 perguntas utilizadas na pesquisa, para caracterizar um cuidado adequado do diabetes. Por isso, os pesquisadores estabeleceram o ponto de corte de 12 pontos. 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Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL
FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-cronicas/diabetes/pessoas-negras-de-baixa-renda-recebem-cuidado-menos-adequado-para-diabetes-no-brasil-mostra-estudo/