Cansaço excessivo na menopausa: por que a energia pode diminuir nessa fase?
Dra. Aurilene Sidrim explica como alterações hormonais, qualidade do sono, saúde emocional e outras condições podem influenciar a disposição durante o climatério e a menopausa.
Ia
A menopausa é uma fase natural da vida da mulher, marcada pelo fim definitivo da menstruação e por uma série de mudanças hormonais que podem afetar o corpo, as emoções e a qualidade de vida. Embora seja frequentemente associada aos fogachos, à sudorese noturna e às alterações menstruais, existe um sintoma que merece tanta atenção quanto os demais: o cansaço excessivo.
Muitas mulheres relatam que, durante o climatério e a menopausa, passam a sentir menos disposição para realizar atividades cotidianas, acordam cansadas mesmo após uma noite de sono ou percebem que tarefas que antes eram simples se tornam mais difíceis. Essa sensação pode vir acompanhada de falta de energia, dificuldade de concentração, desânimo e até a impressão de que o corpo já não responde da mesma maneira. Isso acontece devido uma combinação de situações como alterações hormonais, mudanças no sono, fatores emocionais e condições de saúde que podem se tornar mais frequentes nessa etapa da vida.
Nesse contexto, é necessário entender o papel dos hormônios na disposição feminina. O estrogênio é um dos principais hormônios envolvidos nas mudanças que ocorrem durante o climatério e a menopausa. Além de sua função no sistema reprodutivo, ele participa de diversos processos do organismo, incluindo a regulação da temperatura corporal, o funcionamento do cérebro, a saúde dos ossos e a manutenção dos tecidos da região íntima.
A progesterona também altera nessa fase e pode impactar no cansaço, não por ser um hormônio diretamente ligado a energia, mas porque sua queda que inicia na fase de transição menopausal, pode levar a piora da qualidade do sono em algumas mulheres. Todas essas mudanças podem influenciar a maneira como a mulher dorme, percebe seu bem-estar e enfrenta as atividades do dia a dia.
O cansaço acontece porque os hormônios mudam, além de ter a influência de outros fatores que podem se somar e comprometer a disposição física e mental. Um dos principais fatores associados ao cansaço é a alteração do sono. Os episódios de suor noturno podem provocar despertares frequentes, interrompendo o descanso e impedindo que a mulher tenha uma noite verdadeiramente reparadora. Mesmo quando consegue dormir por um número aparentemente adequado de horas, ela pode acordar com a sensação de que não descansou o suficiente. Com o passar do tempo, a privação de sono pode contribuir para irritabilidade, sonolência durante o dia, dificuldade de concentração e redução da disposição.
Outro aspecto importante é a saúde emocional. A menopausa pode coincidir com uma fase de muitas responsabilidades pessoais e profissionais, além de mudanças familiares e preocupações com o envelhecimento. As oscilações hormonais também podem contribuir para alterações do humor, ansiedade e maior vulnerabilidade a sintomas depressivos em algumas mulheres. Quando o sono é ruim e o estado emocional está comprometido, o cansaço tende a se intensificar, criando um ciclo que afeta a qualidade de vida.
A queda do estrogênio também provoca a síndrome geniturinária da menopausa, que inclui ressecamento vaginal, ardência, desconforto durante as relações sexuais e sintomas urinários, como urgência para urinar e infecções urinárias recorrentes. Embora essas alterações não provoquem necessariamente cansaço diretamente, o desconforto íntimo, a dor durante as relações e a piora da qualidade do relacionamento com o parceiro e na qualidade do sono podem comprometer o bem-estar físico e emocional da mulher.
Além disso, durante a transição para a menopausa pode acontecer sangramento menstrual intenso ou irregular favorecendo o desenvolvimento de anemia por deficiência de ferro. A anemia é uma causa importante de cansaço, fraqueza, tontura, palpitações e falta de ar aos esforços. Por isso, quando uma mulher apresenta cansaço persistente, especialmente se houver histórico de sangramento aumentado, é importante investigar possíveis alterações ginecológicas e hematológicas.
É essencial lembrar que a menopausa não deve ser considerada a única explicação para a falta de energia. Problemas como hipotireoidismo, anemia por causas não ginecológicas, diabetes, deficiência de determinados nutrientes, apneia do sono e doenças cardiovasculares também podem provocar cansaço excessivo. Ademais, o uso de alguns medicamentos, o sedentarismo, a alimentação inadequada e o estresse crônico como fatores para contribuir para a redução da disposição.
Quando o cansaço é persistente, intenso ou interfere nas atividades cotidianas, a avaliação médica é fundamental. A investigação pode incluir uma conversa detalhada sobre os sintomas, o padrão de sono, o histórico menstrual, os medicamentos utilizados e exames laboratoriais, conforme a necessidade de cada mulher.
O importante é que existem medidas capazes de melhorar a disposição e a qualidade de vida durante a menopausa. A prática regular de atividade física, especialmente a combinação de exercícios aeróbicos e de fortalecimento muscular, contribui para a saúde cardiovascular, a preservação da massa muscular, a qualidade do sono e o bem-estar emocional. Uma alimentação equilibrada, com proteínas, fibras, vitaminas e minerais em quantidades adequadas, também é importante. Manter uma rotina de sono, reduzir o consumo excessivo de cafeína e evitar bebidas alcoólicas próximas ao horário de dormir podem ajudar a melhorar o descanso.
Quando os sintomas da menopausa, como fogachos e sudorese noturna, comprometem o sono e a qualidade de vida, a terapia hormonal será uma opção para mulheres com indicação e sem contraindicações, após avaliação individualizada. O tratamento deve considerar os sintomas, a idade, o tempo desde a menopausa, o histórico de saúde e as preferências da mulher. A terapia hormonal não é indicada exclusivamente para tratar o cansaço, mas pode contribuir para a melhora da disposição quando esse sintoma está relacionado a manifestações da menopausa que respondem ao tratamento. Nos casos de queixas de síndrome geniturinária, existem opções específicas, incluindo hormônios locais, radiofrequência ou laser íntimo, hidratantes e lubrificantes vaginais conforme a avaliação ginecológica.
O cansaço excessivo na menopausa é real e merece ser acolhido, investigado e tratado. Não deve ser encarado como algo inevitável ou simplesmente atribuído à idade. Cada mulher vivencia essa fase de maneira diferente. Enquanto algumas apresentam poucos sintomas, outras enfrentam mudanças importantes que afetam o sono, a disposição, a vida sexual e o bem-estar emocional. Cuidar da saúde da mulher na menopausa significa olhar para ela como um todo, considerando seus hormônios, sua saúde ginecológica, seu sono, sua alimentação, sua saúde emocional e suas condições clínicas.