Câncer de esôfago inicial: radioterapia pode ser curativa, explica especialista

A radio-oncologista Dra. Priscila Santos explica os sinais de alerta do câncer de esôfago, como a radioterapia atua no combate à doença e em quais situações o tratamento pode ter finalidade curativa.

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Ia

  A escolha pela Oncologia Radioterápica e a trajetória na Medicina

Desde que entrei na faculdade, desejava me especializar em Oncologia pela possibilidade de ajudar as pessoas a enfrentarem uma doença tão delicada e devastadora.

Ao longo do curso, tive a oportunidade de estagiar tanto na Cirurgia Oncológica quanto na Oncologia Clínica, e a proximidade com a doença me fez gostar cada dia mais da especialidade.

A residência em Radioterapia foi uma surpresa até mesmo para mim. Ao conhecer a rotina da especialidade, percebi sua proximidade com a física das radiações, área com a qual sempre tive muita afinidade.

Hoje, posso dizer que sou realizada fazendo o que faço e tendo a oportunidade de impactar tantas histórias.

Os desafios do diagnóstico precoce do câncer de esôfago

Os sintomas do câncer de esôfago são facilmente confundidos com problemas mais comuns, como gastrite, doença do refluxo gastroesofágico, hérnia de hiato e até mesmo indigestão.

Por esse motivo, o próprio paciente costuma não dar tanta importância aos sintomas no início. Alguns recorrem à automedicação, e há também profissionais que não valorizam suficientemente essas manifestações, tendendo a propor apenas medidas comportamentais e medicamentos para alívio dos sintomas.

Com isso, a doença pode progredir e os sintomas se tornarem mais intensos, apesar das medidas já adotadas.

Além disso, existe a dificuldade de acesso a exames especializados para grande parte da população, como a endoscopia digestiva e a biópsia, o que também contribui para o diagnóstico tardio.

Sinais e sintomas que merecem investigação

Entre os principais sinais e sintomas que merecem atenção e podem indicar um tumor no esôfago, destaco a dor retroesternal, os engasgos, a sensação de entalo, os vômitos, a perda de peso não intencional e abrupta e a plenitude gástrica.

Essas manifestações precisam ser investigadas, especialmente quando persistem ou apresentam piora progressiva.

Como a radioterapia atua no tratamento do câncer de esôfago

A radioterapia atua induzindo danos ao DNA das células tumorais, que podem levar tanto à morte celular quanto à inviabilidade reprodutiva dessas células.

A radiação também desencadeia efeitos imunomoduladores, que podem estimular uma resposta imune antitumoral. Quando associada a determinadas drogas quimioterápicas, seus efeitos podem ser otimizados.

Para que a radioterapia seja considerada curativa, é necessário conhecer algumas particularidades do tumor, como o subtipo histológico e as condições em que a doença se encontrava no momento do diagnóstico.

Dessa forma, a radioterapia pode apresentar efeito curativo quando associada à quimioterapia ou, em determinadas situações, necessitar de tratamento complementar com cirurgia.

Esses efeitos dependem não apenas da histologia e do estadiamento da doença, mas também de fatores individuais de cada paciente, como presença ou ausência de tabagismo, estado nutricional e características genéticas tumorais, entre outros.

A utilização da radioterapia isolada ou associada a outros tratamentos

A radioterapia pode ser utilizada isoladamente em tumores de esôfago quando possui caráter paliativo, com o objetivo de aliviar a disfagia maligna, ou seja, a dificuldade para engolir causada pelo tumor, ou até mesmo controlar sangramentos tumorais refratários às medidas clínicas.

Também pode ser utilizada isoladamente quando o paciente apresenta alguma contraindicação ao uso de quimioterápicos.

Em geral, a radioterapia é realizada em associação com quimioterapias radiossensibilizantes, que são medicamentos capazes de otimizar os efeitos terapêuticos da radiação.

O planejamento individualizado da radioterapia para o câncer de esôfago

O planejamento radioterápico do câncer de esôfago é um processo criterioso e individualizado, que começa com uma avaliação multidisciplinar e a análise detalhada dos exames do paciente.

A partir dessas informações, o paciente é submetido a um exame de imagem tomográfica para auxiliar no planejamento técnico, de forma que possamos identificar com precisão a região a ser tratada.

Nesse processo, consideramos também os movimentos respiratórios e a proximidade de órgãos vizinhos que podem receber doses menores de radiação, como coração, pulmões e medula espinhal.

A escolha da técnica, da dose de radiação e do número de sessões depende de fatores como a localização, o tipo e a extensão do tumor, as condições clínicas do paciente e, principalmente, o objetivo do tratamento.

A radioterapia pode ser utilizada antes da cirurgia, geralmente associada à quimioterapia, como tratamento definitivo ou com finalidade paliativa, para aliviar sintomas como a dificuldade de engolir.

Atualmente, contamos com técnicas modernas, como a radioterapia de intensidade modulada (IMRT/VMAT), que permitem direcionar a radiação com maior precisão, reduzindo a exposição dos tecidos saudáveis.

Nosso objetivo é oferecer um tratamento personalizado, que proporcione o melhor controle possível da doença, com segurança, menor toxicidade e preservação da qualidade de vida.

Os efeitos colaterais da radioterapia e os cuidados durante o tratamento

A esofagite actínica é o efeito colateral agudo mais comum e característico da radioterapia nessa região, seguida por toxicidade hematológica, náuseas, vômitos, anorexia, dermatite e pneumonite.

Já a fibrose pulmonar, a estenose esofágica e a toxicidade cardíaca tardia estão entre as principais complicações crônicas.

O manejo destas toxicidades pode ser realizado com medicamentos, laserterapia, suporte nutricional, entre outras medidas, dependendo da gravidade com que se apresentam em cada paciente.

A importância de investigar a dificuldade persistente para engolir

A dificuldade persistente para engolir não deve ser considerada normal, especialmente quando é progressiva ou acompanhada de perda de peso involuntária.

Embora esse sintoma possa estar relacionado a diferentes condições benignas, ele também pode ser um sinal de doenças mais graves, como o câncer de esôfago.

Por isso, considero fundamental procurar avaliação médica e investigar a causa, sem esperar que o problema se agrave.

O diagnóstico precoce amplia as possibilidades terapêuticas e pode fazer uma diferença significativa nos resultados do tratamento.

Meu recado é simples: não normalize os sinais que o seu corpo apresenta. Cuidar da saúde também é saber reconhecer quando é hora de buscar ajuda.