Psicose política: o que o termo diz (e não diz) sobre saúde mental

Medo, raiva e cansaço nas eleições podem fazer sofrer, mas não são psicose. Um olhar psicanalítico sobre o engajamento político

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“Psicose política” se tornou um termo popular durante o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, mas será mesmo que ele refere a um novo tipo de adoecimento que ameaça a nossa saúde mental? Para começar essa conversa, é importante esclarecer que não existe na literatura ou nos grandes manuais diagnósticos de saúde mental qualquer condição que receba essa nomenclatura. O termo é utilizado popularmente e costuma se referir a um estado de excitação emocional e interesse exacerbado por temas relacionados à política, o que pode ser entendido como algo diametralmente oposto a uma psicose. Nas dinâmicas da linguagem e da popularização de temas da saúde mental que vêm acontecendo nos últimos anos, é natural a apropriação de termos técnicos para designar estados emocionais. Assim, muitas pessoas sentem urgência em postar sobre política nas redes com muito mais frequência do que normalmente fazem, por exemplo. Também buscam interagir mais, comentar mais e militar mais, tanto nas redes como fora delas. Continua após a publicidade A preocupação se volta para as questões ideológicas, mas também para a materialidade da vida e para a urgência diante da ameaça de rompimento democrático que um lado da disputa representa e anuncia em declarações públicas. Isso faz com que muitos abandonem um estado de maior distanciamento das discussões políticas e busquem o contato com a realidade que se apresenta, por mais desafiadora que seja. +Leia também: Eleição e coração: como o estresse da política ameaça o peito Continua após a publicidade O que é, de fato, uma psicose Neste sentido, o engajamento político que vem sendo popularmente chamado de psicose política pode ser tudo, menos uma psicose. Pode ser medo, raiva, apreensão, luta, desejo, união, entre tantas outras coisas. A psicose, ao contrário, segundo a psicanálise, é marcada por um rompimento ou rechaço na relação do sujeito com a realidade e com a linguagem. A psicose envolve a recusa ou foraclusão de um marco simbólico essencial, resultando em delírios e alucinações que tentam reorganizar o mundo do sujeito segundo um conjunto de fantasias muito características. Continua após a publicidade Encontramos sinais de uma possível psicose quando um homem franzino tenta parar um veículo de carga pesada com o próprio corpo, ou quando as pessoas defendem a ideia de que alienígenas trocaram o corpo do presidente e deixaram um clone em seu lugar. Mesmo assim, não devemos jamais fechar diagnósticos a partir apenas de imagens que circulam na internet e afirmar que essas pessoas estão psicóticas. Fosse assim, muitos ganhariam rótulos fáceis de mitômanos, perversos e psicopatas, mas é uma questão ética não bater o martelo sobre estados mentais sem que tais pessoas busquem um tratamento de saúde mental com profissionais qualificados. Continua após a publicidade O sofrimento nas eleições é real, mas não é doença O que podemos afirmar é que existe algo que nos faz sofrer nessas eleições. Muita gente perde o sono, engaja em discussões acaloradas e relata preocupações diversas, assim como experimenta queda na capacidade de concentração, irritabilidade, medo e raiva. Nada disso, contudo, pode ser diagnosticado como um transtorno mental ou uma patologia. Se houvesse uma psicose política, esta seria marcada pela alienação, em maior ou menor grau, mesmo nos casos mais sutis, como aquele individualismo que leva alguns a pensar que a vida particular e a vida política são campos que não se misturam. Continua após a publicidade Se a psicose política existisse, como seria? Não existe apenas uma psicose, mas várias. E muitas psicoses levam as pessoas a esquecerem da velha máxima aristotélica que afirma sermos, inexoravelmente, seres políticos. Psicose política, se houvesse, seria o equivalente a nunca pensar politicamente, como se a política não tivesse um impacto profundo em nossas vidas. Em tempos de polarização intensa, notícias falsas e ameaças de rompimento democrático, um pouco de apreensão e um tanto de prontidão podem ser sinais de muita sanidade, mesmo que isso venha com algum medo, sofrimento e muito cansaço.   Publicidade

As notícias oriundas assim como as imagens tem como fonte de referência: https://saude.abril.com.br/ultimas-noticias

FONTE: https://saude.abril.com.br/coluna/relacoes-simplificadas/psicose-politica-o-que-o-termo-diz-e-nao-diz-sobre-saude-mental/
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