Inteligência artificial na oncologia: do avanço científico à aplicação clínica
Entenda como a IA transforma a oncologia com evoluções na análise genética, descoberta de medicamentos e cirurgia robótica, além dos desafios de acesso e validação .clínica.
Entre no nosso Grupo Whatsapp — Receba as principais notícias do diaParticiparA sexta edição do Technology Trends Outlook 2026, relatório publicado em setembro pela consultoria McKinsey, identifica 14 tendências tecnológicas com potencial de transformar diferentes setores da sociedade. Quatro são diretamente relacionadas à inteligência artificial, mas sua influência se estende às demais, incluindo robótica, ciências da vida e bioengenharia.
Na saúde, essa convergência pode representar uma nova etapa na maneira como diagnosticamos, pesquisamos e tratamos doenças, especialmente o câncer.
A inteligência artificial já participa da análise de exames, da interpretação de informações genéticas e do desenvolvimento de medicamentos. Ao mesmo tempo, a cirurgia robótica permite realizar procedimentos complexos com precisão e por técnicas minimamente invasivas. O que começa a ganhar força é a integração dessas tecnologias, ampliando as possibilidades de planejamento e personalização dos tratamentos.
Uma das transformações destacadas pela McKinsey ocorre na robótica. O relatório descreve o avanço da chamada inteligência artificial física, que permite às máquinas interpretar informações do ambiente, tomar determinadas decisões e executar tarefas com níveis crescentes de autonomia. Embora muitas dessas aplicações estejam concentradas na indústria e na logística, os hospitais aparecem como uma das fronteiras de expansão.
A cirurgia robótica já é uma realidade em diferentes especialidades, incluindo a oncologia. Seus recursos oferecem visão tridimensional ampliada, instrumentos articulados e movimentos precisos, favorecendo procedimentos complexos por acessos minimamente invasivos. Em casos selecionados, essa abordagem pode contribuir para uma recuperação mais rápida e para um menor tempo de internação.
Vale ressaltar, porém, que os sistemas cirúrgicos utilizados atualmente não operam de maneira autônoma. O cirurgião permanece responsável pelo controle dos instrumentos e pelas decisões durante o procedimento.
A integração com inteligência artificial abre possibilidades para aprimorar o planejamento cirúrgico, interpretar imagens, reconhecer estruturas anatômicas e apoiar decisões durante as operações. Também considero promissora a associação entre robótica, realidade aumentada e imagens médicas. Visualizar informações anatômicas e características de um tumor durante uma intervenção pode contribuir para procedimentos mais individualizados.
Imagino, por exemplo, o potencial de reunir informações de exames de imagem, características moleculares do tumor e dados anatômicos em ferramentas que auxiliem o cirurgião a planejar uma operação. São possibilidades que ainda exigem desenvolvimento e validação, mas demonstram como diferentes tecnologias podem atuar de maneira complementar.
Isso não significa que a tecnologia, isoladamente, produza melhores resultados. A indicação adequada, a experiência da equipe e as evidências científicas continuam sendo determinantes.
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Da descoberta científica ao tratamento
Outro campo de grande interesse é o desenvolvimento de medicamentos. Segundo a McKinsey, levar um novo tratamento ao mercado frequentemente exige mais de dez anos de pesquisa e investimentos estimados entre US$ 1,3 bilhão e US$ 2,6 bilhões. Mesmo depois desse esforço, muitos candidatos não conseguem demonstrar segurança e eficácia suficientes para chegar aos pacientes.
A inteligência artificial começa a modificar as etapas iniciais desse processo. Sistemas computacionais conseguem analisar grandes quantidades de informações biológicas, investigar interações moleculares e propor milhares de candidatos a medicamentos em um intervalo de tempo que, anteriormente, permitiria identificar apenas alguns.
Na oncologia, esse potencial é particularmente relevante. O câncer não é uma doença única, mas um conjunto de enfermidades com características biológicas distintas. Mesmo tumores originados no mesmo órgão podem apresentar alterações moleculares diferentes, que influenciam seu comportamento e sua resposta aos tratamentos.
Quanto maior nossa capacidade de compreender essas diferenças, maiores são as possibilidades de desenvolver terapias direcionadas a características específicas das células tumorais.
Entretanto, é fundamental distinguir uma descoberta promissora de um tratamento disponível. A McKinsey ressalta que a inteligência artificial pode acelerar a identificação de moléculas, mas não elimina a necessidade de estudos laboratoriais, ensaios clínicos e avaliação regulatória. A velocidade dos computadores não substitui o tempo necessário para demonstrar segurança e benefício aos pacientes.
Uma das maiores contribuições da tecnologia para a oncologia está na capacidade de compreender melhor a biologia de cada tumor. O sequenciamento genético e as ferramentas de análise molecular permitem identificar alterações que ajudam a orientar decisões terapêuticas. Em determinados tipos de câncer, essas informações já influenciam a escolha de medicamentos e o acompanhamento dos pacientes.
A inteligência artificial pode ampliar essa capacidade ao integrar dados genômicos, exames de imagem, informações clínicas e resultados de pesquisas científicas. Trata-se de um volume de conhecimento que cresce rapidamente e exige ferramentas sofisticadas.
O relatório também destaca a biópsia líquida, técnica que permite investigar sinais do câncer em amostras de sangue, incluindo fragmentos de DNA tumoral circulante. Suas aplicações variam conforme o tipo de tumor e o contexto clínico, mas já existem situações em que essas análises contribuem para decisões sobre tratamento e acompanhamento.
Vejo nessas tecnologias uma oportunidade de melhor compreender as características biológicas do câncer e selecionar intervenções com maior probabilidade de benefício — evolução esta que também interessa diretamente à cirurgia oncológica. Conhecer melhor o comportamento de um tumor pode ajudar a definir a sequência dos tratamentos, avaliar a resposta às terapias realizadas antes da operação e contribuir para estratégias de acompanhamento após o procedimento.
Ainda assim, nem toda alteração genética identificada corresponde a uma opção terapêutica disponível. Transformar informações moleculares em decisões clínicas exige interpretação especializada, evidências consistentes e acesso aos tratamentos.
A inovação precisa chegar aos pacientes
Um dos aspectos mais importantes do relatório é a distância entre a velocidade das descobertas e a capacidade de incorporá-las à prática. A McKinsey observa que a inteligência artificial está produzindo possibilidades científicas mais rapidamente do que os sistemas conseguem absorvê-las. Na saúde, essa dificuldade envolve infraestrutura, custos, regulamentação, formação profissional e integração entre serviços.
No Brasil, temos instituições de excelência, pesquisadores reconhecidos internacionalmente e profissionais que utilizam tecnologias avançadas. Entretanto, convivemos com desigualdades no acesso a exames moleculares, procedimentos especializados e tratamentos inovadores.
Não basta desenvolver ferramentas capazes de identificar alterações genéticas se o paciente não consegue realizar o exame necessário. Da mesma forma, ampliar a disponibilidade de equipamentos robóticos exige treinamento, estrutura hospitalar e avaliação dos resultados clínicos.
A incorporação responsável da inteligência artificial também demanda atenção à segurança dos dados. Informações genéticas e prontuários médicos são sensíveis. Quanto maior a integração entre sistemas, maior deve ser o compromisso com privacidade, transparência e supervisão humana.
Como médico, considero que o principal indicador de sucesso de qualquer inovação não deve ser sua sofisticação tecnológica, mas sua capacidade de melhorar a vida das pessoas. Isso exige que hospitais, universidades, profissionais de saúde e gestores participem da discussão sobre quais tecnologias realmente oferecem benefícios e como incorporá-las de maneira sustentável.
A inteligência artificial não substitui o conhecimento clínico, a experiência cirúrgica ou a relação de confiança entre médico e paciente. Seu potencial está em ampliar nossas capacidades, apoiar decisões e permitir que o conhecimento científico seja aplicado de maneira mais eficiente.
A nova fronteira da inteligência artificial está na saúde porque é nesse campo que muitos de seus avanços poderão adquirir um significado profundamente humano. O desafio é transformar possibilidades tecnológicas em diagnósticos mais precisos e tratamentos mais eficazes, além de otimizar os resultados para os pacientes.
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