Hospitais entram em uma nova era de inteligência humana e artificial

Da telecirurgia às UTIs inteligentes, a convergência entre conectividade, inteligência artificial e assistência em saúde já começa a redefinir o papel dos hospitais.

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A inauguração de salas cirúrgicas conectadas, as primeiras telecirurgias assistenciais, a expansão da cirurgia robótica, a criação de redes de UTIs inteligentes e os investimentos em hospitais digitais mostram que a transformação tecnológica da saúde brasileira entrou em uma nova fase. Mais do que incorporar equipamentos ou informatizar processos, os hospitais mais modernos estão integrando dados, conectividade, inteligência artificial e conhecimento clínico. Nos últimos anos, muito se falou sobre inteligência artificial na saúde. Em muitos casos, o debate ficou restrito às possibilidades futuras. Agora, vemos aplicações concretas dentro da assistência. A inteligência artificial passa a auxiliar diagnósticos, apoiar decisões clínicas, otimizar fluxos hospitalares e ampliar a capacidade de monitoramento de pacientes. Paralelamente, a conectividade permite que especialistas atuem remotamente, compartilhem conhecimento e apoiem equipes localizadas a milhares de quilômetros de distância. A tecnologia deixa de ser uma ferramenta isolada e passa a fazer parte da infraestrutura dos hospitais. Um exemplo importante dessa transformação é a decisão do governo federal de investir na construção do primeiro hospital inteligente público do país, além da implantação de uma rede nacional de UTIs inteligentes e serviços digitais conectados. O projeto prevê a utilização de inteligência artificial, telemedicina, conectividade avançada e análise de dados. Independentemente das discussões sobre modelos de gestão ou financiamento, a iniciativa tem o mérito de reconhecer que o futuro da assistência passa necessariamente pela integração entre tecnologia e cuidado. Não é apenas adquirir equipamentos mais sofisticados, mas sim utilizar informação de maneira inteligente para apoiar profissionais e beneficiar pacientes. Da inovação à prática clínica Na sala de cirurgia, depois de anos de pesquisa e desenvolvimento, a telecirurgia começa a sair do ambiente experimental e alcançar aplicações assistenciais reais. Os casos ainda são poucos, mas já contam com redes estáveis, baixa latência e equipes adequadamente treinadas. Um cirurgião pode operar hoje um paciente localizado em qualquer parte do mundo. O exemplo mais emblemático aconteceu quando um procedimento realizado entre o Kuwait e o Brasil estabeleceu um recorde mundial de distância em uma telecirurgia robótica. Pouco tempo depois, ocorreu a primeira telecirurgia robótica assistencial da América Latina, conectando São Paulo e Porto Alegre em um procedimento aprovado pelos órgãos regulatórios. O significado desses marcos vai além do aspecto tecnológico. Eles mostram que a distância geográfica deixa de ser, progressivamente, uma barreira absoluta para o acesso ao conhecimento especializado. A telecirurgia é apenas uma das faces dessa mudança. A possibilidade de especialistas acompanharem procedimentos remotamente, orientarem equipes locais ou participarem de treinamentos em tempo real cria oportunidades para ampliar acesso e qualificar a assistência. Na BP, temos acompanhado de perto esse processo. Em parceria com o InovaHC, a Samsung Brasil e o CPQD, participamos do projeto OpenCare 5G, que utiliza conectividade avançada para aproximar especialistas de localidades com menor oferta de serviços especializados. Os resultados mostram o potencial dessa estratégia. Em Miguel Alves, no interior do Piauí, exames de ecocardiograma passaram a ser realizados localmente e avaliados remotamente por especialistas. O tempo de espera caiu de 180 para 19 dias. Mais do que acelerar diagnósticos, a iniciativa permitiu que equipes locais contassem com orientação especializada em tempo real. Como costumo destacar, a tecnologia tem um enorme potencial para qualificar a assistência quando é utilizada para conectar pessoas e conhecimento. A orientação de especialistas à distância ajuda a evitar transferências desnecessárias, fortalece equipes locais e amplia o acesso da população a cuidados mais resolutivos. Essa lógica se repete em diferentes áreas da assistência. Nas unidades de terapia intensiva, a criação de UTIs inteligentes permite integrar equipamentos, sistemas de informação e ferramentas de análise de dados. A proposta é utilizar inteligência artificial para identificar precocemente sinais de agravamento clínico, apoiar decisões médicas e compartilhar expertise entre centros de diferentes regiões do país. A relevância desse modelo é particularmente grande em um país marcado por desigualdades na distribuição de especialistas e recursos hospitalares. Quando hospitais passam a operar em rede, o conhecimento deixa de ficar restrito a uma única instituição e pode beneficiar profissionais e pacientes localizados em diferentes estados. A cirurgia robótica também faz parte desse processo. Nos últimos anos, ela deixou de ser uma tecnologia restrita a poucos centros e passou a integrar a rotina de um número crescente de hospitais brasileiros. A recente aprovação da prostatectomia robótica para incorporação ao SUS representa mais um passo nessa direção. Mas é importante compreender que a verdadeira transformação não está apenas no robô. Ela está na integração entre robótica, inteligência artificial, conectividade e análise de dados. Hoje, já existem sistemas capazes de reconhecer padrões anatômicos, emitir alertas durante procedimentos e fornecer informações adicionais ao cirurgião em tempo real. Essas ferramentas não substituem a tomada de decisão humana, mas acrescentam novas camadas de informação e segurança. Isso vale também para a inteligência artificial aplicada à assistência hospitalar. Existe uma expectativa, muitas vezes exagerada, de que algoritmos assumirão funções atualmente desempenhadas por profissionais de saúde. Na prática, o que observamos é diferente. As melhores aplicações são aquelas que potencializam a capacidade humana de analisar informações, identificar riscos e tomar decisões mais qualificadas. A medicina continuará sendo uma atividade essencialmente humana. Nenhum algoritmo substitui aspectos como experiência clínica, julgamento profissional, comunicação ou empatia. O que muda é que passamos a contar com ferramentas capazes de ampliar nossa capacidade de enxergar padrões, processar informações e conectar conhecimento. Os desafios da nova arquitetura hospitalar Naturalmente, essa transformação traz desafios importantes. A expansão da telecirurgia, da inteligência artificial e dos hospitais digitais exige infraestrutura robusta, conectividade confiável, treinamento profissional e marcos regulatórios adequados. Também exige atenção crescente à segurança cibernética, à proteção de dados e à rastreabilidade das informações. Quanto mais conectados se tornam os sistemas de saúde, maior é a responsabilidade de garantir ambientes seguros e resilientes. Outro desafio será construir modelos sustentáveis de financiamento e remuneração. Embora a tecnologia avance rapidamente, ainda existem barreiras relacionadas a custos, padronização técnica e escalabilidade. Em muitas áreas, os marcos regulatórios avançaram mais rapidamente do que os mecanismos de incorporação e remuneração. Os hospitais estão deixando de tratar inovação como projetos isolados para incorporá-la ao centro de suas estratégias assistenciais. Tecnologia, assistência, gestão e pesquisa passam a funcionar de forma cada vez mais integrada. Estamos, portanto, testemunhando o nascimento de uma nova arquitetura hospitalar, em que inteligência humana e inteligência artificial deixam de competir e passam a colaborar. O hospital do futuro não será definido apenas pelo número de leitos, quantidade de equipamentos ou dimensão de suas instalações. Será definido pela sua capacidade de conectar pessoas, dados, conhecimento e tecnologia para oferecer um cuidado mais eficiente, mais seguro e mais acessível. The post Hospitais entram em uma nova era de inteligência humana e artificial appeared first on Saúde Business.

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