Na década de 80 era comum vendedores de livros e enciclopédias irem de porta em porta oferecer seus produtos. E uma vez me encantei com uma coleção chamada “Sobre Vida”, eram 3 volumes maravilhosos em texto e fotos de casos reais. Junto, veio um suplemento que falava sobre “AIDS”, na época a doença era recém-descoberta, e fiquei encantada. Dali em diante, o fascínio pelas doenças infecciosas era crescente.
Também sempre amei crianças, adorava ir para casa das minhas tias cuidar dos meus priminhos. Na Medicina, unir as duas paixões foi muito natural.
Ao terminar a residência de pediatria atuava em hospitais e depois veio o convite para trabalhar no Instituto Evandro Chagas (IEC), justamente como pediatra na pesquisa de ensaio clínico da atual vacina contra rotavírus. Daí veio o mestrado, o doutorado na Fiocruz/RJ, a docência na UFPa (minha amada faculdade) e a efetivação como pesquisadora no IEC.
Após quase 30 anos de formada, posso dizer que conheço muito bem as 3 esferas: assistência, pesquisa e ensino. A complexidade dos casos e nossa epidemiologia, especialmente na Amazônia, nos confere um cenário ímpar, desafiador, porém sempre apaixonante.
A maioria das famílias não é contra vacinas. O que observamos é um fenômeno chamado hesitação vacinal, que envolve dúvidas, medos ou adiamentos, mesmo quando as vacinas estão disponíveis.
Os principais fatores são a desinformação nas redes sociais, o medo de eventos adversos, a falsa percepção de que algumas doenças deixaram de existir e, em alguns casos, a dificuldade de acesso aos serviços de vacinação. Muitas famílias nunca viram casos graves de sarampo, meningite ou coqueluche e acabam subestimando os riscos dessas doenças.
Primeiro procuro entender quais são as preocupações daquela família. Depois explico que as vacinas estão entre as intervenções médicas mais estudadas e monitoradas do mundo.
Mostro que os riscos das doenças preveníveis são muito maiores do que os riscos associados à vacinação. Também costumo lembrar que a vacinação protege não apenas a criança, mas pessoas vulneráveis ao seu redor, como bebês, idosos e indivíduos imunossuprimidos.
Quando a conversa acontece com respeito, acolhimento e informação baseada em evidências, muitas famílias conseguem se sentir mais seguras para vacinar.
O médico tem o dever ético de orientar, esclarecer dúvidas e apresentar as evidências científicas disponíveis. Mas isso não pode substituir a decisão dos responsáveis.
Quando a recusa persiste, é fundamental registrar em prontuário as orientações fornecidas e manter o diálogo aberto. O objetivo não é romper o vínculo, mas preservá-lo, porque essa família ainda pode reconsiderar sua decisão no futuro.
Chega diariamente. Os pais comentam, trazem vídeos ou publicações que associam vacinas a doenças sem qualquer base científica.
Minha postura não é ridicularizar nem confrontar a família. Procuro analisar junto com ela a qualidade da informação, explicar como funcionam os estudos científicos e apresentar fontes confiáveis, como a Sociedade Brasileira de Imunizações, a Sociedade Brasileira de Pediatria, o Ministério da Saúde e organismos internacionais.
Por outro lado, é importante deixar claro que a vacinação infantil não é apenas uma escolha individual. Ela tem impacto coletivo e está relacionada à proteção da saúde pública e ao direito da criança de receber medidas comprovadamente eficazes para a prevenção de doenças. Construir confiança e respeito, de ambas as partes, sempre fará a diferença na relação médico-paciente.
Quando a cobertura vacinal diminui, o primeiro risco é o aumento do número de crianças suscetíveis a doenças potencialmente graves, como sarampo, coqueluche, meningites bacterianas e poliomielite.
Muitas dessas doenças estavam controladas ou praticamente eliminadas no Brasil graças às altas coberturas vacinais. As vacinas não protegem apenas quem as recebe, mas ajudam a criar uma barreira de proteção comunitária, conhecida como imunidade coletiva.
Quando essa barreira é enfraquecida, aumenta a circulação dos agentes infecciosos e ficam mais vulneráveis aqueles que não podem ser vacinados, como recém-nascidos, imunossuprimidos e pacientes em tratamento oncológico.
É fundamental investir em comunicação clara, transparente e baseada em evidências, sem julgamentos ou confrontos.
As famílias precisam sentir que suas dúvidas estão sendo ouvidas e respeitadas. Os profissionais de saúde têm papel central nesse processo. Estudos mostram que a recomendação do pediatra continua sendo um dos fatores que mais influenciam a decisão de vacinar.
Por isso, precisamos estar preparados para dialogar, esclarecer informações falsas e apresentar os benefícios e riscos de forma equilibrada.
Ter dúvidas é compreensível. O que eu recomendo aos pais é que busquem informações em fontes confiáveis e conversem com profissionais capacitados antes de tomar decisões que podem impactar a saúde dos seus filhos.
As vacinas estão entre as intervenções médicas que mais salvaram vidas na história da humanidade. Elas passam por rigorosos processos de avaliação de segurança e eficácia e continuam sendo monitoradas mesmo após sua aprovação, como ocorreu recentemente com a vacina contra Dengue (Butantan).
Vacinar é um ato de proteção individual, mas também de responsabilidade coletiva. É uma forma de cuidar dos nossos filhos e contribuir para uma comunidade mais segura para todos.