Excesso de telas na adolescência: como o uso do celular afeta o sono dos jovens
Uso noturno de telas pode afetar sono, atenção e aprendizado. Neurologista explica sinais de alerta e como reduzir os impactos.
Para muitos adolescentes, o dia não termina quando as luzes se apagam. O celular fica ao lado da cama, novas notificações continuam chegando, vídeos são reproduzidos em sequência e as redes sociais permanecem disponíveis por toda a madrugada. Esse hábito pode ter um preço: menos horas de sono e mais dificuldade para desligar o cérebro. O impacto das telas sobre o descanso foi um dos temas discutidos durante o Congress on Brain, Behavior and Emotions 2026, realizado em Porto Alegre (RS). Segundo Diogo Haddad, neurologista e chefe do Centro Especializado em Neurologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo (SP), o sono é provavelmente uma das áreas em que os efeitos do uso excessivo de telas aparecem de forma mais consistente.
Os impactos vão além da luz da tela A exposição à luz durante a noite, principalmente próxima ao horário de dormir, pode atrasar a liberação de melatonina e interferir no ritmo circadiano. Mas reduzir o problema à chamada luz azul é insuficiente. Redes sociais, vídeos curtos, jogos e mensagens também mantêm o cérebro estimulado quando ele deveria começar a desacelerar. “Muitas vezes, o mais importante é que a tela prolonga o estado de alerta e simplesmente ocupa o tempo que deveria ser destinado ao sono”, explica Haddad. O celular ao lado da cama pode ainda interromper o descanso por causa de notificações e da expectativa de receber uma nova mensagem. Nas redes sociais, soma-se a sensação de que é preciso permanecer conectado para não perder uma conversa, publicação ou interação nova. Na adolescência, esse comportamento encontra ainda uma característica fisiológica dessa fase da vida. Há uma tendência natural a dormir e acordar mais tarde, enquanto a rotina escolar frequentemente exige que o jovem desperte cedo. Segundo o médico, quando o uso das telas avança pela noite, essa combinação pode resultar em privação crônica de sono. O que acontece quando o adolescente dorme menos? A falta de sono pode aparecer no dia seguinte em forma de sonolência, irritabilidade, dificuldade de concentração e queda no desempenho escolar. Em situações de privação de sono, a dificuldade para acordar também pode interferir na rotina e nas primeiras atividades do dia. O aprendizado é outro ponto de atenção. Além da importância do sono para processos relacionados à memória e à consolidação de informações, o próprio modo como as telas são utilizadas pode interferir na capacidade de concentração. O neurologista chama a atenção especialmente para a fragmentação da atenção quando o adolescente tenta estudar enquanto alterna constantemente entre mensagens, vídeos, redes sociais e outras tarefas. “O cérebro não realiza várias tarefas complexas simultaneamente tão bem quanto imaginamos; na maior parte do tempo, ele está alternando rapidamente a atenção entre elas”, afirma. O horário escolar também pode agravar a privação de sono. Um estudo realizado em duas escolas públicas de Seattle, nos Estados Unidos, ajuda a dimensionar esse impacto. Após o início das aulas ser adiado de 7h50 para 8h45, os adolescentes passaram a dormir, em média, 34 minutos a mais por noite. Publicada na revista Science Advances, a pesquisa também identificou aumento de 4,5% nas notas e, em uma das escolas avaliadas, melhora na frequência e na pontualidade dos alunos. O estudo foi uma das evidências apresentadas durante o Brain Congress por Dalva Poyares, neurologista, doutora e livre-docente em neurociências pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), durante a palestra “Hiperconectados e hiperativados: o sono perdido de uma geração”, que abordou a relação entre horários escolares e o relógio biológico dos adolescentes. Telas afetam a saúde mental? A relação entre uso de telas e saúde mental é mais complexa do que uma simples relação de causa e efeito. Nem todo adolescente que passa muitas horas conectado desenvolverá ansiedade ou depressão. Por outro lado, determinados padrões de uso de redes sociais estão associados a maior ansiedade, sintomas depressivos, dificuldades de autoestima e insatisfação com a própria imagem. A comparação social, o cyberbullying e a exposição frequente a conteúdos inadequados também podem contribuir para esse cenário. Haddad ainda ressaltou que associação não significa necessariamente causalidade, e há também uma relação inversa: adolescentes que já enfrentam sofrimento psíquico podem passar mais tempo conectados. Por isso, mais importante do que atribuir às telas isoladamente uma mudança de comportamento é observar como o uso digital se relaciona com a rotina do adolescente. Queda importante no rendimento escolar, abandono de atividades que antes despertavam interesse, irritabilidade intensa quando é preciso interromper o uso e dificuldade para controlar o tempo conectado estão entre os sinais que merecem atenção. Veja também: Como a internet pode impactar a saúde mental dos adolescentes? E o cérebro do adolescente? A adolescência é marcada por intensa maturação cerebral. Redes relacionadas ao controle executivo, planejamento, tomada de decisões e regulação emocional continuam em desenvolvimento, enquanto sistemas envolvidos em recompensa, novidade e reconhecimento social têm particular relevância nessa fase. As plataformas digitais oferecem justamente estímulos capazes de mobilizar esses sistemas: novidades constantes, recompensas rápidas, aprovação social e uma quantidade praticamente infinita de conteúdo. Segundo Haddad, essa dinâmica pode favorecer um padrão de busca frequente por estímulos e tornar mais difícil sustentar a atenção em atividades menos imediatamente recompensadoras. Isso, porém, não significa que as telas estejam “destruindo” o cérebro dos jovens. “Precisamos ter cuidado com afirmações como ‘a tela está destruindo ou alterando permanentemente o cérebro dos adolescentes’. A neuroplasticidade faz parte do desenvolvimento normal, e ainda não temos evidência para conclusões tão deterministas”, diz o especialista. O que se sabe é que experiências repetidas ajudam a moldar hábitos e circuitos cerebrais. Por isso, na avaliação do neurologista, importa não apenas quanto tempo o adolescente passa diante de uma tela, mas como e para que essas tecnologias são utilizadas. Existe um limite seguro para o tempo de tela? Não existe um número de horas que possa ser considerado universalmente seguro para todos os adolescentes. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda, para jovens de 11 a 18 anos, duas a três horas diárias de telas para uso recreativo, incluindo videogames, e orienta que adolescentes não passem a noite conectados. Recomendações baseadas em tempo, porém, são apenas uma parte da análise. Haddad acrescenta que diretrizes mais recentes têm dado cada vez mais importância também à qualidade e ao contexto do uso. “Uma hora conversando por vídeo com familiares, estudando ou criando alguma coisa não equivale necessariamente a uma hora de consumo passivo e contínuo de vídeos curtos antes de dormir.” Para avaliar se o uso está se tornando problemático, ele recomenda considerar pelo menos quatro aspectos: quanto tempo o adolescente passa conectado, o que faz nesse período, em que horário utiliza os dispositivos e o que aquela atividade está substituindo. Uma atividade digital realizada durante o dia não necessariamente tem o mesmo impacto que horas de vídeos ou jogos durante a madrugada. Da mesma forma, conteúdos educativos, atividades criativas e interações sociais significativas podem ter efeitos diferentes de um uso compulsivo ou predominantemente passivo. “Talvez a pergunta mais útil para os pais não seja simplesmente ‘quantas horas meu filho fica no celular?’, mas ‘o celular está prejudicando o sono, os estudos, a atividade física, as relações familiares ou a capacidade dele de ficar algum tempo desconectado?’”, orienta. Como estabelecer uma relação mais saudável com as telas Recomendações de saúde e bem-estar digital apontam algumas medidas que podem ajudar a proteger o sono e preservar espaços importantes da rotina: evitar o uso de telas próximo ao horário de dormir; manter o celular longe da cama durante a noite, reduzindo estímulos e interrupções por notificações; estabelecer horários e ambientes livres de telas; evitar aparelhos durante as refeições e em momentos de convivência; fazer pausas e preservar a atividade física ao longo do dia; garantir tempo adequado de sono para a faixa etária; conversar sobre os conteúdos acessados e as experiências vividas nas redes; utilizar ferramentas de controle parental quando necessário, sem substituir o diálogo. Além disso, a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital também ganhou novas regras no Brasil. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA Digital), instituído pela Lei nº 15.211/2025, estabelece obrigações para plataformas digitais e medidas relacionadas à proteção de menores no ambiente online. O objetivo não é transformar a tecnologia em inimiga — Haddad conclui que ela faz parte da vida, da educação e das relações sociais dessa geração. O desafio é ensinar adolescentes a utilizar a tecnologia sem permitir que ela ocupe justamente os espaços fundamentais para um desenvolvimento cerebral e emocional saudável: sono, movimento, aprendizado, convivência e experiências no mundo real. Veja também: Os malefícios do uso de telas na infância e na adolescência | Entrevista com Daniel BeckerThe post Excesso de telas na adolescência: como o uso do celular afeta o sono dos jovens first appeared on Portal Drauzio Varella.
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