Glioblastoma: diagnóstico, desafios do tratamento e novas perspectivas na neuro-oncologia

Dra. Maíra Piani aborda a complexidade desse tumor cerebral, o papel da neurocirurgia e os avanços que podem transformar o tratamento nos próximos anos.

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Glioblastoma: diagnóstico, desafios do tratamento e novas perspectivas na neuro-oncologia
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Minha trajetória na Neurocirurgia, Neuro-oncologia e Base de Crânio

Formei em Medicina pela Universidade Estadual do Pará e realizei a residência em Neurocirurgia pelo Hospital Ophir Loyola. Durante a residência, fiz estágios no laboratório de microcirurgia e neuroanatomia do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo; no serviço de Neurocirurgia da UNICAMP e no laboratório de neuroanatomia do serviço.

Realizei um fellowship em Arkansas, nos Estados Unidos, com o Dr. Ali Kristh, referência mundial na base do crânio, local no qual também tive acesso ao laboratório. Fiz fellowship de cirurgia para epilepsia e fellowship em neuro-oncologia/base de crânio no INCA, no Rio de Janeiro.

Além disso, participo dos congressos da NASBS (North American Skull Base Society), apresentando trabalhos na área.

A base de crânio é a área da neurocirurgia mais complexa, pois envolve muitas estruturas importantes — é a porta de entrada e saída dos vasos e nervos —, necessitando de longo período de treinamento e uma curva de aprendizagem maior que as outras subespecialidades da neurocirurgia.

Sempre gostei da neuroanatomiaÉ uma área que, quando bem conhecida, promove melhor prognóstico aos pacientes já que determina a qualidade da cirurgia. Sendo a anatomia da base de crânio a mais complexa do SNC.

O que é o glioblastoma e por que ele é considerado tão agressivo

O glioblastoma é o glioma maligno primário mais frequente em adultos. Apresenta comportamento altamente infiltrativo, elevada heterogeneidade molecular e grande capacidade de adaptação e resistência aos tratamentos.

Na classificação atual da OMS (WHO CNS5), o termo glioblastoma é reservado para gliomas difusos astrocíticos IDH-wildtype, ou seja, sem mutação nos genes IDH1/IDH2. Histologicamente, caracteriza-se classicamente pela presença de necrose e/ou proliferação microvascular.

Mesmo quando essas características histológicas não estão presentes, determinados tumores podem ser classificados como glioblastoma quando apresentam alterações moleculares características, principalmente mutação do promotor TERT, amplificação de EGFR ou a assinatura cromossômica +7/−10.

Atualmente, histologia e biologia molecular são indissociáveis para estabelecer o diagnóstico.

O que torna esse tumor particularmente agressivo é sua capacidade de infiltrar o tecido cerebral aparentemente normal, apresentar heterogeneidade dentro do próprio tumor, desenvolver resistência aos tratamentos e recrutar mecanismos que favorecem sua sobrevivência.

Além disso, a barreira hematoencefálica dificulta a chegada de diversos medicamentos ao tumor.

Sinais e sintomas do glioblastoma

Os sintomas dependem principalmente da localização, do volume tumoral e da velocidade de crescimento.

Eles podem ser inespecíficos, como cefaléia, alterações discretas de memória, mudança de comportamento ou uma primeira crise epiléptica. Isso pode fazer com que o diagnóstico seja inicialmente confundido com condições neurológicas mais comuns.

Por outro lado, alguns pacientes chegam ao diagnóstico já com déficits neurológicos importantes, porque o tumor pode apresentar crescimento relativamente rápido e edema associado.

Entre os sintomas mais frequentes estão cefaleia, particularmente quando associada à hipertensão intracraniana; crises epilépticas, que normalmente costumam ser a primeira manifestação; alterações cognitivas ou comportamentais; alterações de memória e linguagem; déficits motores ou sensitivos; sonolência, náuseas e vômitos nos casos de hipertensão intracraniana mais significativa.

Como é feito o diagnóstico

O principal exame de imagem para caracterização inicial é a ressonância magnética cerebral com contraste. Em alguns casos, necessitamos de avaliação com sequências avançadas, como perfusão, espectroscopia e difusão.

A imagem demonstra, normalmente, uma lesão infiltrativa, frequentemente com realce pelo contraste, necrose central, edema vasogênico e efeito de massa. Entretanto, a imagem isoladamente não estabelece definitivamente o diagnóstico.

O diagnóstico definitivo depende de análise anatomopatológica.

Atualmente, conseguimos caracterizar melhor essas lesões com estudo molecular, avaliando, por exemplo, mutação do IDH1/IDH2, MGMT promoter methylation, ATRX e TP53, TERT e amplificação do EGFR.

Essas alterações não só auxiliam no estudo criterioso dessas lesões, como também funcionam como marcadores preditivos de benefício em determinadas medicações.

O papel da neurocirurgia no tratamento

Quando tecnicamente possível, busco realizar a máxima ressecção segura. Isso significa remover a maior quantidade possível de tumor com a menor lesão tecidual adjacente possível.

No cérebro, o grau de ressecção encontra limitações em diversos fatores, como localização do tumor, relação com áreas eloquentes, envolvimento de estruturas profundas, padrão de infiltração, idade e condição clínica do paciente.

Dessa forma, meu objetivo é alcançar a ressecção máxima com preservação da função neurológica.

Hoje em dia, dispomos de vários recursos que auxiliam nessa preservação, como neuronavegação, mapeamento cortical e subcortical, cirurgia com paciente acordado em casos selecionados, monitorização neurofisiológica, fluorescência com 5-ALA e ultrassom intraoperatório.

Os principais desafios no tratamento do glioblastoma

Mesmo após uma ressecção radiologicamente completa, algumas células tumorais microscópicas podem estar presentes em um cérebro macroscopicamente livre de doença, devido ao grau de infiltração da lesão.

Outro fator é que o mesmo tumor pode apresentar características moleculares diferentes. Isso dificulta o desenvolvimento de uma terapia única capaz de eliminar todas as células tumorais.

Outra limitação é a barreira hematoencefálica. Ela limita a penetração de diversos medicamentos e representa um dos grandes obstáculos para o desenvolvimento de terapias sistêmicas eficazes.

Além desses fatores, o glioblastoma consegue modificar o microambiente ao seu redor, reduzindo a eficiência da resposta imunológica. Isso ajuda a explicar por que estratégias imunoterápicas que foram revolucionárias em melanoma, câncer de pulmão e outros tumores ainda não produziram resultados semelhantes no glioblastoma.

O tratamento padrão continua sendo multimodal: ressecção máxima segura seguida de radioterapia associada à temozolomida e, posteriormente, temozolomida adjuvante, com estratégias adicionais consideradas conforme o perfil individual do paciente e o contexto clínico.

Apesar dos avanços, a sobrevida continua limitada, em torno de 12 a 18 meses a partir do diagnóstico, apesar das terapias complementares.

O que há de mais atual nas pesquisas

A perspectiva mais promissora é uma mudança de paradigma: sair de um tratamento relativamente uniforme para um tratamento molecularmente e biologicamente personalizado.

As pesquisas atuais estão concentradas em algumas frentes principais.

Na imunoterapia e nas terapias celulares, estão sendo estudadas vacinas tumorais, inibidores imunológicos, células CAR-T e outras formas de imunoterapia.

Também estão em investigação os vírus oncolíticos, que são modificados e podem ser utilizados para infectar preferencialmente células tumorais e estimular uma resposta imunológica contra o tumor. Estratégias como DNX-2401 e PVSRIPO estão entre as abordagens investigadas.

Os anticorpos e conjugados anticorpo-fármaco representam outra área de investigação, buscando aumentar a especificidade da ação terapêutica sobre células tumorais. O consenso SNO/EANO de 2025 inclui essas estratégias entre as principais áreas de desenvolvimento.

Uma das perspectivas mais importantes é que provavelmente não haverá uma única “droga milagrosa” para o glioblastoma. O caminho mais provável é combinar cirurgia de precisão, radioterapia, terapias sistêmicas, imunoterapia e estratégias moleculares de acordo com o perfil específico de cada tumor.

Também está crescendo o interesse por biomarcadores no sangue e no líquor, biópsia líquida e inteligência artificial, permitindo eventualmente acompanhar a biologia tumoral de maneira mais dinâmica.

Uma mensagem aos pacientes e familiares

É importante compreender que o tratamento não termina na cirurgia. A cirurgia é uma etapa de um tratamento que precisa ser planejado a partir do diagnóstico molecular completo.

Eu diria que é uma doença séria e agressiva, mas cada paciente apresenta uma combinação diferente de localização tumoral, extensão da doença, condição clínica, características moleculares e possibilidade de tratamento cirúrgico.

Por isso, considero fundamental que o paciente seja avaliado por uma equipe multidisciplinar especializada em tumores cerebrais, envolvendo neurocirurgia, neuro-oncologia, radioterapia, neurorradiologia, neuropatologia e reabilitação.

O glioblastoma continua sendo um dos maiores desafios da neuro-oncologia, mas hoje conhecemos sua biologia muito melhor do que há uma década.

Embora os resultados atuais ainda sejam insuficientes, novas estratégias — especialmente imunoterapia, terapias celulares, vírus oncolíticos, medicina de precisão e combinações terapêuticas — estão mudando a maneira como pensamos sobre o glioblastoma.

Portanto, acredito que o paciente e a família devem buscar informação de qualidade e discutir o caso individualmente com uma equipe especializada.

O próximo grande avanço provavelmente virá da combinação entre cirurgia de máxima precisão, caracterização molecular profunda e terapias personalizadas, e não de uma única modalidade isolada.

Principais referências utilizadas

Consenso SNO/EANO, publicado na Neuro-Oncology em agosto de 2025; classificação WHO CNS5; e revisões recentes sobre imunoterapia, CAR-T e terapias emergentes.


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