Na década de 1960, quando ingressei em medicina na Universidade de São Paulo (USP), uma das grandes prioridades da saúde pública brasileira era combater as doenças infecciosas e parasitárias. Fazia sentido. O país, com todos os seus problemas de saneamento básico, desigualdade e acesso limitado aos serviços de saúde, enfrentava malária, esquistossomose, leishmaniose e vários outros problemas. As doenças infecciosas foram a principal causa de mortalidade por aqui no início do século 20. De lá para cá, no entanto, muita coisa mudou. Pesquisas trouxeram novos medicamentos e vacinas, políticas de saúde pública ajudaram a controlar doenças e as condições de vida da população melhoraram. O resultado foi um aumento expressivo da expectativa de vida: em 1970, o brasileiro vivia, em média, 57,6 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2024, esse número passou de 76 anos. Ponto para a ciência e para o sanitarismo.
Mas esse avanço trouxe também um novo desafio. À medida que a população ganhou anos de vida e a luta contra as doenças infecciosas avançou, as chamadas doenças crônicas não transmissíveis — como hipertensão, problemas cardiovasculares, obesidade, diabetes, entre outras — passaram a ocupar o centro do cenário. Hoje, elas são a principal causa de morte no Brasil e também no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Embora façam milhões de vítimas todos os anos: é possível identificar precocemente os fatores de risco e os sinais iniciais dessas doenças, o que nos permite intervir antes que o problema se instale e avance. É nesse contexto que a medicina preventiva tem ganhado cada vez mais espaço. O que é a medicina preventiva? A medicina preventiva é a área da saúde dedicada a evitar doenças, identificá-las com antecedência e reduzir seus impactos. De maneira geral, dá para pensar nessa prevenção em dois níveis: o individual e o coletivo. Especialistas em saúde pública, por exemplo, trabalham com estratégias para prevenir doenças na população, enquanto médicos de família ou especialistas, na outra ponta, se preocupam com a prevenção de doenças em indivíduos. Fiz essa divisão mais por questões didáticas — no fim, no entanto, todos trabalham para alcançar o mesmo objetivo: prevenir doenças e melhorar a qualidade de vida das pessoas. E é nesse campo individual que quero focar. Na prática, parte da prevenção passa por acompanhar a saúde antes que um problema se torne evidente ou mais difícil de tratar. A ideia não é fazer uma bateria de exames sem necessidade. Afinal, estudos não encontraram benefícios claros de check-ups excessivos sobre a mortalidade. Mas ficar de olho nos sinais e nos fatores de risco. É aí que entra a educação em saúde. O que é isso? Compreender melhor a própria saúde e tomar decisões mais conscientes. Isso passa, inclusive, por entender que o corpo não é uma estrutura estática: ele está o tempo todo ajustando seu funcionamento para manter relativamente estáveis as condições necessárias à vida, um processo fisiológico conhecido como homeostase. Entre os diversos aspectos que podem ser acompanhados, três aparecem com frequência em estudos: sono, saúde cardiovascular e estresse. Sono O sono é um dos comportamentos mais enigmáticos do reino animal, do qual fazemos parte. De um lado, reduz nossa capacidade de procurar alimento, de nos reproduzirmos e nos deixa expostos a predadores. Por outro lado, é essencial para a saúde porque influencia vários sistemas do corpo. E dormir pouco regularmente está associado a maior risco de obesidade, diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares, AVC e depressão, segundo um consenso da American Academy of Sleep Medicine e da Sleep Research Society, baseado na análise de mais de 5 mil estudos científicos. Em geral, recomenda-se (o estudo do parágrafo acima é um exemplo) que adultos durmam pelo menos 7 horas por noite, embora a necessidade individual varie. Nosso sono se alterna entre duas categorias principais: um chamado é de NREM (sigla em inglês que significa sono sem movimentos rápidos dos olhos) e outro de REM (sono com movimentos rápidos dos olhos). O NREM representa cerca de 75% a 80% do sono total e o REM cerca de 20% a 25%. Essa proporção também não está escrita na pedra, mas há evidência de que ambos os tipos têm funções importantes para a saúde. Sabemos, no entanto, que nem sempre as pessoas dormem bem. No Brasil, quase um terço dos adultos das capitais brasileiras e do Distrito Federal relata sintomas de insônia, segundo dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), do Ministério da Saúde. Saúde do coração O coração, esse órgão muscular e oco, em forma de cone, passa o dia inteiro trabalhando para mandar sangue, oxigênio e nutrientes para o corpo. Em repouso, ele tem um ritmo relativamente previsível: em adultos, costuma bater entre 60 e 100 vezes por minuto. Esse número pode mudar — depois de uma corrida, por exemplo, ele sobe; durante o sono, pode cair. Estresse, medicamentos e algumas doenças também alteram com esse ritmo. Quando o coração perde esse compasso, pode aparecer uma arritmia (nome dado a alterações neste ritmo do batimento). Uma das mais comuns é a fibrilação atrial, em que os sinais elétricos dos átrios (as duas cavidades superiores do coração) ficam desorganizados, fazendo-o bater de maneira irregular. A condição está associada a um risco maior de AVC, insuficiência cardíaca e infarto. A pressão arterial também conta essa história. Ela é a força que o sangue exerce contra as paredes dos vasos sanguíneos e, quando fica alta por muito tempo, aumenta o risco de problemas cardiovasculares — entre eles, a própria fibrilação atrial. Em adultos, uma pressão abaixo de 120/80 mmHg é considerada normal. É o famoso “12 por 8”, embora uma única medida não seja suficiente para dizer se alguém tem ou não hipertensão. Mas aqui entra um detalhe: a fibrilação atrial nem sempre dá sinais muito claros. Uma pessoa pode ter e nem saber. Uma revisão publicada no JAMA em 2025 estima que entre 10% e 40% das pessoas com a doença não apresentam sintomas. Veja também: Como manter a saúde do coração em dia? Estresse Por fim, mas não menos importante, vem o estresse. O estresse é uma resposta do organismo a situações que o cérebro percebe como desafiadoras ou ameaçadoras. Lá atrás, no tempo das cavernas, isso podia significar um predador se aproximando. O corpo precisava reagir rápido: ativava sistemas que liberavam substâncias como adrenalina, noradrenalina e cortisol, aumentava a frequência cardíaca e a pressão arterial e direcionava energia para o que era mais importante naquele momento. É o famoso modo “luta ou fuga”, essencial para dar no pé quando necessário. Nos dias de hoje, no entanto, os estressores mudaram. É o chefe cobrando um prazo muito curto para a entrega de um trabalho, é passar duas horas em pé no transporte público lotado para chegar em casa, é uma preocupação que fica martelando na cabeça. Se na época das cavernas a preocupação podia ser um predador à espreita, hoje acumulamos diferentes tipos de estressores ao longo da vida. Um estudo brasileiro identificou 22,6 tipos, entre eventos agudos e dificuldades crônicas. Uma revisão de 2024, publicada na Nature Reviews Cardiology, concluiu que o estresse e as alterações hemodinâmicas (relacionadas ao fluxo e à pressão do sangue), vasculares (que afetam os vasos sanguíneos) e imunológicas (relacionadas ao funcionamento do sistema imunológico) desencadeadas por essa resposta estão associados ao risco de doenças cardiovasculares. Nas mulheres, há ainda outra questão. Os níveis de estrogênio e progesterona (dois hormônios) variam ao longo do ciclo menstrual, e essas mudanças podem influenciar sistemas envolvidos na regulação do humor e da resposta ao estresse. Isso ajuda a explicar por que algumas mulheres percebem mudanças emocionais e de estresse em determinadas fases do ciclo. Assim como o sono e a saúde cardiovascular, apesar de sabermos que o estresse faz mal quando se torna constante, nem sempre cuidamos dele. O papel da tecnologia vestível É aí que a tecnologia pode entrar como uma aliada — não para ser usada no lugar do atendimento profissional de saúde, mas para ajudar a enxergar padrões que poderiam passar despercebidos. Sono O sono, por exemplo, pode ser observado de forma mais detalhada com os chamados wearables, dispositivos vestíveis, como relógios inteligentes. Eles podem identificar períodos de vigília e diferentes estágios do sono — leve, profundo e REM — e apresentar informações sobre a qualidade do descanso. Alguns também acompanham a frequência respiratória e a oxigenação durante a noite, dados que podem ajudar a identificar sinais associados à apneia do sono. E alguns dispositivos vão além do registro dessas informações e tentam relacioná-las a outros sinais do organismo. Por exemplo: eles consideram, em conjunto, a qualidade do sono, o nível de estresse, a duração e a carga dos exercícios praticados pela pessoa, a temperatura corporal e informações cardiovasculares para avaliar o quanto o organismo se recuperou durante a noite. Por que isso importa? Porque permite olhar para o sono não como um indicador isolado, mas como parte de um conjunto de fatores que influenciam a recuperação física. A proposta, vale sempre reforçar, é oferecer uma visão mais ampla do descanso, e não substituir uma avaliação clínica. Uma meta-análise de 2025 mostrou que dispositivos usados no pulso, apesar de serem menos precisos que a polissonografia, podem ser úteis para acompanhar padrões gerais de sono ao longo do tempo. Saúde cardiovascular Na saúde cardiovascular, o monitoramento com esses aparelhos pode ajudar a acompanhar mudanças que um exame pontual talvez não registre. Eles ajudam a verificar a frequência cardíaca ao longo do dia e analisar o ritmo por meio da onda de pulso, auxiliando na identificação de sinais que podem estar associados a arritmias. Alguns aparelhos mostram a variabilidade da frequência cardíaca (VFC), a variação no intervalo de tempo entre um batimento cardíaco e outro. Uma das aplicações mais modernas é o Monitoramento Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA). O MAPA é um exame que registra a pressão arterial em intervalos regulares durante 24 horas, inclusive durante o sono. Qual a vantagem? Em vez de mostrar apenas a pressão em um momento específico, ele permite acompanhar como ela se comporta ao longo do dia e identificar alterações que poderiam passar despercebidas em uma medição isolada. Outra possibilidade da tecnologia vestível é observar a pressão durante a prática de exercícios. Em alguns aparelhos, dá para realizar medições antes e depois do treinamento e, a partir dos resultados, receber orientações sobre a intensidade do exercício. Se a pressão estiver elevada antes da atividade, por exemplo, o sistema pode recomendar evitar esforços mais intensos; se permanecer elevada depois, pode sugerir mais moderação no treino seguinte. Há estudos que ajudam a entender o potencial desses dispositivos na saúde cardiovascular. No Fitbit Heart Study, publicado em 2022 na revista Circulation, pesquisadores acompanharam 455.699 usuários de dispositivos vestíveis e analisaram 1.057 pessoas que receberam uma detecção de ritmo cardíaco irregular e posteriormente fizeram monitoramento por eletrocardiograma (ECG). Os resultados mostraram que quanto maior o período de monitoramento por ECG, maior a chance de confirmar uma fibrilação atrial: o rendimento diagnóstico estimado foi de 32,2% com uma semana de monitoramento, chegando a 60,8% com quatro semanas. Estresse No campo do bem-estar emocional, os relógios podem usar dados fisiológicos para acompanhar mudanças ao longo do dia. E em vez de apresentar apenas um nível de estresse, alguns dispositivos combinam informações fisiológicas com outros indicadores para identificar diferentes estados emocionais e mostrar como eles variam ao longo da rotina. Exemplo: tem equipamento que pode identificar até 12 estados emocionais e realizar a medição em cerca de 10 minutos. Estado emocional é o conjunto de alterações que acontecem no organismo quando uma pessoa vivencia uma emoção — envolvendo principalmente cérebro, sistema nervoso e hormônios. A ideia é transformar esses sinais em informações que ajudem a acompanhar as mudanças no estado emocional ao longo da rotina. Outra possibilidade é relacionar o estresse à recuperação física. Tem wearable que mostra como a pessoa se recuperou durante a noite. Para chegar a essa métrica, considera diferentes variáveis, como qualidade do sono, nível de estresse, temperatura corporal, entre outras. Um nível alto de recuperação, por exemplo, indica mais energia, enquanto um nível baixo sugere que o corpo precisa de mais descanso. Em um estudo publicado na npj Digital Medicine, em 2018, pesquisadores acompanharam 1.002 pessoas durante cinco dias em condições de vida real, usando dispositivos vestíveis e smartphones. Eles encontraram associações entre sinais fisiológicos, comportamento e níveis de estresse relatados pelos participantes, indicando que esses dados podem ajudar a identificar padrões de estresse no cotidiano. A tecnologia, quando usada de forma adequada e sem substituir o acompanhamento profissional, pode ser uma ferramenta de educação e prevenção em saúde. E isso pode ser relevante em um país onde a busca por atendimento ainda está mais associada ao tratamento de problemas já existentes do que à prevenção. Um estudo com mais de 32 mil adultos, baseado na Pesquisa Nacional de Saúde, mostrou, por exemplo, que somente 12,9% dos entrevistados que buscaram algum serviço de saúde o fizeram por ações preventivas. A maioria procurou atendimento para tratar doenças ou sintomas. Veja também: Como usar relógios inteligentes e outros wearables sem se cobrar demais? Conteúdo produzido em parceria com a Huawei.The post Saúde preventiva no pulso: o papel da tecnologia vestível no cuidado com a vida first appeared on Portal Drauzio Varella.
Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL