Excesso de energético: cardiologista explica os efeitos sobre a saúde cardíaca

Dra. Aline Travessa explica como o consumo excessivo de energéticos pode afetar a pressão arterial, os batimentos cardíacos e aumentar o risco de arritmias

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Excesso de energético: cardiologista explica os efeitos sobre a saúde cardíaca
Ia

 

Sou especialista em Cardiologia e Ecocardiografia SBC-DIC-AMB. Minha paixão pela Medicina iniciou com meus pais, que passaram aos filhos não apenas através da genética, mas especialmente pelo exemplo do amor à profissão.

Durante a fase escolar, lembro de já escutar meu pai ensinando sobre a fisiologia do coração. Então, quando ingressei na faculdade, já sabia a especialidade que palpitava o meu coração.

Populares entre jovens, estudantes, atletas e pessoas que enfrentam jornadas prolongadas de trabalho, os energéticos prometem disposição, concentração e redução do cansaço. Apesar de serem bebidas vendidas livremente e aparentemente inofensivas, seus efeitos sobre o sistema cardiovascular merecem atenção.

Quando o consumo se torna frequente, em grandes quantidades, associado a álcool, exercício intenso ou outros estimulantes, podem surgir problemas.

O risco depende da quantidade ingerida, da composição da bebida, da velocidade de consumo e, principalmente, das características individuais de quem a consome.

Não podemos afirmar que uma lata de energético inevitavelmente provocará um problema cardíaco. Porém, há evidências de que energéticos podem aumentar a pressão arterial, estimular intensamente o sistema nervoso e produzir alterações elétricas no coração.

O que acontece no organismo?

O principal estimulante presente nos energéticos é a cafeína, mas também podemos encontrar taurina, guaraná, açúcares, ginseng, vitaminas e diferentes combinações de substâncias estimulantes. A quantidade também pode variar bastante entre os produtos.

Em revisão científica da Mayo Clinic, em 2020, algumas bebidas continham aproximadamente de 150 a 300 mg de cafeína por embalagem, além de quantidades expressivas de açúcar e taurina.

A cafeína age principalmente estimulando o sistema nervoso central, o que explica a sensação de maior alerta, disposição e redução da fadiga.

Porém, quando a dose aumenta, os efeitos desejados podem dar lugar a insônia, tremores, ansiedade, dor de cabeça, aceleração dos batimentos e arritmias. Doses acima de 200 mg já foram associadas à maior ocorrência de alguns desses efeitos adversos.

O coração também pode responder à descarga de substâncias como a noradrenalina, um dos hormônios relacionados ao estado de alerta.

Estudo de revisão evidenciou elevação superior a 6% na pressão arterial e aumento de quase 74% nos níveis de noradrenalina após a ingestão de energético. Outros estudos observaram aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial.

Energético pode causar arritmia?

Esse é um dos pontos que mais nos preocupam, os cardiologistas.

Há relatos de fibrilação atrial, arritmias ventriculares, infarto do miocárdio, dissecção espontânea de artéria coronária e, em casos extremos, morte súbita associados ao consumo excessivo dessas bebidas.

Alguns casos ocorreram inclusive em jovens sem cardiopatia previamente conhecida.

Isso não significa que o energético seja necessariamente a causa isolada de todos esses eventos, mas indica que determinadas pessoas podem apresentar maior vulnerabilidade.

Estudos experimentais nos ajudam a compreender esse mecanismo. Em modelo de coração isolado, cafeína e taurina em concentrações elevadas modificam propriedades elétricas das células cardíacas.

A taurina em altas concentrações aumentou significativamente a ocorrência de arritmias ventriculares, enquanto a cafeína apresentou tendência de aumento das arritmias conforme a dose aumentava.

Esse resultado é particularmente interessante porque a taurina muitas vezes é vista como um componente relativamente inofensivo, e o estudo sugere que seu comportamento pode depender da dose: concentrações menores apresentaram características potencialmente protetoras, enquanto concentrações elevadas mostraram efeito pró-arrítmico.

Existe uma quantidade segura?

Não existe um limiar de latas considerado universalmente isento de risco, mas há evidências de efeito dose-dependente.

O consumo moderado, com cafeína de até 200 mg por ocasião, geralmente não produz alterações cardiovasculares clinicamente relevantes em adultos jovens saudáveis, enquanto o consumo elevado, de 1 litro de energético ou 320 mg de cafeína ou mais, está associado a aumento da pressão arterial, palpitações e prolongamento do intervalo QTc.

Além da grande diferença de composição entre as marcas, precisamos considerar outras fontes de cafeína consumidas no mesmo dia, como café, chá, refrigerante, pré-treino e suplementos.

Também é importante diferenciar cafeína de energético.

O consumo habitual e moderado de cafeína não apresenta o mesmo perfil de risco observado com a ingestão excessiva de energéticos. Essas bebidas combinam diversos ingredientes, e ainda não está completamente esclarecido quanto dos efeitos cardiovasculares resultam da cafeína isoladamente e quanto decorre da interação entre seus componentes.

A cautela deve ser ainda maior em crianças, adolescentes, indivíduos com hipertensão, arritmias, cardiopatias estruturais ou doenças elétricas do coração.

Algumas dessas alterações podem permanecer silenciosas por um longo tempo, até serem desencadeadas por um estímulo. A literatura descreve, por exemplo, casos em que o consumo de energético revelou alterações elétricas cardíacas previamente desconhecidas.

Álcool, academia e energético: uma combinação preocupante

Misturar energético com álcool merece atenção especial, pois o efeito estimulante pode diminuir a percepção subjetiva de sonolência e cansaço, sem eliminar os efeitos do álcool.

Além disso, o uso simultâneo de outras substâncias estimulantes pode potencializar as respostas cardiovasculares.

A combinação de energético e álcool é apontada na literatura como uma questão relevante de saúde pública, especialmente entre adolescentes e adultos jovens, fazendo com que sociedades e associações médicas internacionais se manifestem contrárias à ingestão dessa população.

O cuidado também deve existir durante exercícios intensos.

O exercício já aumenta naturalmente a frequência cardíaca e a atividade do sistema nervoso simpático. Acrescentar doses elevadas de estimulantes pode impor uma demanda adicional ao sistema cardiovascular, principalmente em pessoas predispostas.

Quando procurar atendimento?

Após consumir energético, sintomas como palpitações persistentes, dor ou pressão no peito, falta de ar importante, tontura intensa, sensação de desmaio ou perda de consciência não devem ser banalizados.

Esses sintomas justificam a interrupção do consumo e avaliação médica, sobretudo quando são intensos ou aparecem durante atividade física.

O energético não deve ser tratado como hidratação ou como substituto do sono e do descanso, pois o fato de uma bebida ser facilmente encontrada não significa que o consumo excessivo seja isento de riscos.

Como mensagem final, deixo a reflexão: quando precisamos recorrer repetidamente a estimulantes para conseguir manter a rotina, talvez seja importante olhar não apenas para a lata de energético, mas para o que está levando o organismo a precisar dela.

Para o coração, a quantidade, a frequência e o contexto fazem diferença. Consumir várias doses em pouco tempo, misturar estimulantes ou ignorar sintomas é transformar uma bebida aparentemente inofensiva em um risco que poderia ser evitado.


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