36 anos do SUS: o que mudou na saúde dos brasileiros e o que ainda precisa melhorar?

O SUS é o maior sistema público de saúde do mundo, mas ainda enfrenta desigualdades regionais, filas e falta de recursos.

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O Sistema Único de Saúde (SUS) completou 36 anos em setembro deste ano. Para especialistas, ele representou uma revolução na saúde brasileira. Isso porque, até então, o acesso à assistência médica pública estava ligado principalmente à Previdência Social, e só quem tinha carteira assinada e contribuía tinha direito ao atendimento pelo sistema previdenciário. Para quem estava fora dele, restavam serviços públicos mais limitados e instituições filantrópicas, como as Santas Casas. A partir da regulamentação do SUS, a regra passou a ser: “a saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício”. Sem excluir ninguém. E em pouco mais de três décadas, parte do que foi proposto foi alcançado. Hoje, há uma rede de saúde espalhada pelo país, a mortalidade infantil caiu cerca de 74% desde 1990 e a vacinação passou a fazer parte da rotina de milhões de brasileiros, entre outros avanços. “O SUS é o maior sistema público de saúde do mundo e mudou radicalmente a vida dos brasileiros porque a sua implantação tornou a saúde um direito do cidadão”, diz Gerson Oliveira Penna, dermatologista e diretor-presidente do Instituto Todos pela Saúde (ITpS).

Mas ainda há muito o que resolver e avançar, de acordo com especialistas. Faltam profissionais em algumas regiões, há desigualdade no atendimento, existem problemas de estrutura, há filas que podem levar meses para um atendimento especializado. Além disso, o sistema é subfinanciado e sofre com interferências políticas, o que é um ponto problemático e base de boa parte dos problemas.    De inspiração a modelo global O SUS foi instituído em 1988, com a promulgação da Constituição Federal (CF), e oficialmente regulamentado em 19 de setembro de 1990. Mas sua origem é anterior. Ele foi gestado durante a Reforma Sanitária Brasileira, movimento que ganhou força na década de 1970 e defendia uma saúde democrática e acessível para todos. Entre as referências que inspiraram os sanitaristas brasileiros estava o National Health Service (NHS, na sigla em inglês), o sistema público de saúde do Reino Unido, criado em 1948 com a proposta de oferecer atendimento universal. De lá para cá, porém, a inspiração mudou de direção. Segundo o médico e PhD em epidemiologia Rômulo Paes de Sousa, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), é o SUS que desperta o interesse de outros países. Hoje, diz, o Reino Unido está muito interessado no modelo de atenção primária do Brasil, por causa da municipalização. A atenção primária é a porta de entrada do sistema e reúne serviços como consultas, vacinação, acompanhamento de doenças e prevenção. Outro ponto que chama atenção lá fora é a participação social, de acordo com o especialista.   “Um dos aspectos positivos da implementação do SUS nesses 36 anos, portanto, é o seu espetacular crescimento e a sua espetacular capilarização, sobretudo na atenção primária”, destaca Sousa.    Transplante, HIV, vacinação e medicamentos Mas não foi apenas na atenção primária que o SUS se destacou, segundo especialistas. Ao longo de 36 anos, o sistema também acumulou resultados importantes em outras áreas da saúde pública.  Um dos avanços citados foi o Programa Nacional de Imunizações (PNI), responsável pela vacinação gratuita em todo o país e que contribuiu para a eliminação ou o controle de diversas doenças, como poliomielite, difteria, tétano, entre outros. Outro é o setor de transplantes. O Brasil tem um dos maiores programas públicos de transplantes do mundo e, segundo o Ministério da Saúde, mais de 90% das cirurgias de transplante são realizadas pelo SUS. Em 2025, foram registrados 31 mil transplantes de órgãos, segundo o relatório de gestão integrado da pasta.  O avanço no tratamento do HIV também foi mencionado. Desde 1996, o Brasil distribui gratuitamente medicamentos antirretrovirais pelo SUS. Há ainda o acesso a medicamentos para doenças crônicas. O Farmácia Popular, que complementa a assistência farmacêutica do SUS por meio de farmácias credenciadas, oferece gratuitamente medicamentos para condições como hipertensão, diabetes, asma, osteoporose, entre outros. “Você ter a possibilidade de hoje ter medicamentos para cuidados crônicos, como diabetes e pressão, disponíveis na farmácia, faz com que você não dependa de ter renda para comprar esses medicamentos. Eu acho que isso é um super avanço do sistema”, afirma Julia Pereira, gerente de Relações Institucionais do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). E tem também vigilância sanitária e epidemiológica, que permite acompanhar doenças, identificar possíveis surtos e organizar respostas antes que problemas de saúde pública ganhem proporções maiores. “Hoje a gente tem o mapeamento de possíveis epidemias e consegue pensar em como atuar e intervir”, afirma Pereira. Veja também: O SUS está preparado para a próxima pandemia?   Os problemas Os avanços, porém, não chegam da mesma forma a todos os brasileiros. Um dos principais desafios apontados pelos especialistas é justamente fazer com que os serviços estejam disponíveis de maneira mais uniforme em um país de dimensões continentais e com grandes diferenças entre regiões e municípios. “Esse é um grande desafio. Como você articula o sistema de modo que você consiga aproximar esses recursos da população, evitando que ela precise se deslocar, às vezes, por centenas de quilômetros, para poder ter acesso a esses serviços?”, contextualiza Luiz Augusto Facchini, professor titular do Departamento de Medicina Social da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).  Hoje, o Ministério da Saúde informa que a cobertura populacional estimada da Atenção Primária à Saúde era de cerca de 70% no primeiro quadrimestre de 2026. Isso significa que 30% ainda não está coberta. “A gente ainda tem vazios sanitários relevantes”, fala Pereira.      A questão das filas A fila do SUS costuma ser um dos principais problemas apontados pelos brasileiros. No fim do ano passado, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, disse à BBC que, nas pesquisas de opinião realizadas pelo Ministério da Saúde, elas aparecem como a principal reclamação da população. O governo vem tentando reduzir esse problema. Uma das iniciativas foi o programa Agora Tem Especialistas, criado para ampliar a oferta de consultas, exames e cirurgias e reduzir a demanda reprimida. Ainda assim, o país não tem uma fila nacional pública e transparente que permita dimensionar exatamente quantas pessoas aguardam por atendimento especializado no SUS. Segundo Pereira, parte do problema está na própria organização das filas. O SUS possui diferentes níveis de atenção e, na prática, os pacientes podem entrar em filas municipais e estaduais que nem sempre estão integradas. Para Penna, presidente do ITpS, outro fator que ajuda a explicar as filas é a concentração de médicos e especialistas em determinadas regiões e áreas.  “As filas existem porque requerem atendimento especializado, e os especialistas não estão onde são necessários. Por mais que todo esforço seja feito pelo governo, pelo MEC e pela Comissão Nacional de Residência Médica para a fixação desses profissionais, é impressionante a dificuldade de manter médicos nos lugares onde a população mora e reside”, conta.   Infraestrutura e profissionais As dificuldades do SUS não estão apenas nas filas. Segundo Facchini, também é preciso melhorar a infraestrutura dos serviços e garantir equipes completas para atender a população. Para ele, as unidades básicas de saúde precisariam ter estrutura adequada para resolver mais problemas sem que o paciente precise ser encaminhado para outros serviços. “Eu sempre digo que as unidades básicas de saúde deveriam ser o prédio mais bonito e melhor equipado, com maior referência de cada comunidade. Talvez só as escolas pudessem rivalizar com as unidades básicas de saúde”, opina. Facchini também destaca a necessidade de equipes multiprofissionais mais completas, com médicos, enfermeiros e dentistas, mas também profissionais de psicologia, fisioterapia, nutrição, educação física e outras áreas. Essas equipes poderiam reduzir encaminhamentos desnecessários e tornar mais ágil o atendimento quando o paciente realmente precisar de serviços especializados, alega. Veja também: A importância do programa Estratégia Saúde da Família para as comunidades   O subfinanciamento Para os especialistas consultados pela reportagem, parte dos problemas do SUS poderia ser enfrentada com mais recursos. Segundo eles, o sistema é subfinanciado – e uma comparação com o NHS, do Reino Unido, ajuda a dimensionar essa diferença. O NHS tem um orçamento de cerca de £ 207 bilhões, o equivalente a aproximadamente R$ 1,31 trilhão, para atender uma população de 69,9 milhões de pessoas. Já o SUS tem orçamento de R$ 271 bilhões para uma população estimada em 214,2 milhões de brasileiros.  Os dados foram levantados pelo ITpS.    A diferença fica ainda maior quando se considera o investimento por habitante. Segundo os dados reunidos no levantamento, o gasto per capita seria de aproximadamente R$ 18,7 mil no NHS, contra R$ 1,3 mil no SUS — cerca de 14,8 vezes menos no Brasil. Ao mesmo tempo, o SUS precisa atender uma população três vezes maior e administrar uma área territorial 34 vezes maior que a do Reino Unido. “Considerando o tamanho do país e da população, o SUS é muito bem-sucedido”, diz Penna. Já Pereira chama atenção para a participação do setor público no financiamento da saúde. Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) citados por ela, governos e regimes de seguro de saúde obrigatórios financiavam, em média, 75% dos gastos totais em saúde nos países da organização. No Brasil, essa participação era de 45%.   O nó das emendas parlamentares Outro ponto levantado pelos especialistas é a destinação de recursos da saúde por meio de emendas parlamentares. Segundo Sousa, da Abrasco, uma parcela relevante do orçamento acaba sendo direcionada dessa forma, nem sempre de acordo com as prioridades da política pública. Ele afirma que, pela regra das emendas obrigatórias, 50% dos recursos devem ser destinados à saúde. Com isso, quase R$ 40 bilhões chegam à área por meio de emendas. Sousa ressalta que parte desses recursos cumpre a finalidade para a qual foi destinada, mas afirma que uma parcela considerável é mal aplicada ou utilizada fora do que considera adequado para uma política pública. “Na pior delas, eles são usados de forma indevida.” Para Sousa, o problema tende a se agravar à medida que o Congresso amplia a participação das emendas na destinação de recursos que poderiam ser utilizados em investimentos na saúde. Em um documento com propostas para uma agenda estratégica para o ciclo de governo 2027 a 2030, a Abrasco sugeriu submeter as emendas parlamentares ao planejamento regional de saúde, a critérios públicos de necessidade e que possam ser rastreadas.    Assista: Por que o brasileiro desdenha do SUS? The post 36 anos do SUS: o que mudou na saúde dos brasileiros e o que ainda precisa melhorar? first appeared on Portal Drauzio Varella.

Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL

FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/saude-publica/36-anos-do-sus-o-que-mudou-na-saude-dos-brasileiros-e-o-que-ainda-precisa-melhorar/
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