Apertar os dentes tem relação com a enxaqueca? Entenda
Enxaqueca e disfunção temporomandibular (DTM) dolorosa aparecem juntas com frequência, e tratar as duas condições pode ajudar no controle das crises.
Entre no nosso Grupo Whatsapp — Receba as principais notícias do diaParticipar O rosto pesa no fim do dia, a mandíbula parece cansada, a parte interna da bochecha aparece marcada pelos dentes. Para quem convive com crises frequentes de dor de cabeça, esses sinais nem sempre são notados. Eles podem indicar bruxismo, o comportamento de apertar ou ranger os dentes, que acontece durante o sono ou com a pessoa acordada. E levantam uma dúvida: isso tem ou não a ver com a enxaqueca? Dor de cabeça e dor no rosto percorrem o mesmo caminho
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A resposta começa em um nervo. Segundo Daniela Godoi Gonçalves, professora da Faculdade de Odontologia de Araraquara da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e especialista em dor orofacial e disfunção temporomandibular (DTM), as informações de dor da face, dos músculos da mastigação e da articulação da mandíbula chegam ao cérebro por ramos do nervo trigêmeo e alcançam uma região que também está envolvida nos mecanismos da enxaqueca. Thaís Villa, neurologista especialista em enxaqueca do Headache Center Brasil e doutora pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), descreve o processo a partir da enxaqueca, doença em que o cérebro funciona de forma mais excitada: “Esse cérebro repetidamente mais elétrico vai sensibilizando neurônios da região do nervo trigêmeo. O nervo trigêmeo tem na face um ramo que vai para o músculo da mastigação”, afirma. Para ela, essa sensibilização está relacionada ao apertamento involuntário dos dentes. Por causa dessa via em comum, a relação funciona nos dois sentidos, diz Gonçalves. A DTM dolorosa pode desencadear crises, e quem tem as duas condições costuma ter crises mais frequentes, intensas e difíceis de controlar. Durante a crise, a pessoa fica mais sensível à dor na cabeça, na face e no pescoço. Uma meta-análise publicada em 2024 no Journal of Oral & Facial Pain and Headache encontrou DTM com mais frequência em pessoas com enxaqueca do que em pessoas sem dor de cabeça. Veja também: 5 perguntas e respostas sobre bruxismo Bruxismo não é o mesmo que disfunção da mandíbula Parte da confusão vem dos nomes. Gonçalves explica que o bruxismo é um comportamento, não necessariamente uma doença, e que muitas pessoas o apresentam sem sentir dor. Já a DTM dolorosa é uma condição que envolve os músculos e as articulações da mastigação e costuma causar dor em peso ou aperto, cansaço no rosto e dificuldade para mastigar. Uma pode existir sem a outra. A dor na mandíbula, acrescenta a especialista, é um sintoma, e não um diagnóstico: pode vir da DTM, mas também de problemas nos dentes ou na gengiva. “O bruxismo, isoladamente, não está diretamente ligado à enxaqueca. O que se associa à enxaqueca é a DTM dolorosa, que muitas vezes acompanha o bruxismo”, afirma. Muita gente aperta os dentes sem perceber “Em vigília, é raro a pessoa apertar os dentes com muita força. O mais comum é um contato leve mantido por horas, sempre que ela não está falando nem mastigando”, descreve Gonçalves. Sensação de peso no rosto, músculos da face tensos, incômodo ao falar ou mastigar e marcas dos dentes na lateral da língua ou na bochecha são os sinais mais comuns. Em repouso, o esperado é que os dentes fiquem separados e a musculatura, relaxada. Um estudo do Headache Center Brasil avaliou 237 pessoas com enxaqueca crônica por meio de eletromiografia, exame que mede a atividade elétrica dos músculos, e encontrou atividade muscular acima do ponto de corte adotado pelos autores em 78% delas. O resultado foi interpretado no estudo como bruxismo em vigília. “Na avaliação feita de maneira objetiva com eletromiografia, não importa se o paciente se acostumou a estar com os dentes apertados e achar que aquilo é normal”, explica Villa, que é uma das autoras do trabalho. Pela classificação internacional das dores de cabeça, a enxaqueca é chamada de crônica quando a dor aparece em 15 ou mais dias do mês, por mais de três meses. Quando as crises são menos frequentes, é comum o uso do termo enxaqueca episódica. Villa lembra que, nos dois casos, a doença é a mesma e continua presente entre uma crise e outra. O que muda é a frequência. Gonçalves, que não participou da pesquisa, considera a questão relevante, mas ressalta que a eletromiografia feita no consultório registra a atividade muscular naquele momento e que não houve comparação com pessoas sem enxaqueca ou com enxaqueca episódica. Para ela, o resultado vale para aquele grupo de pacientes e não pode ser estendido a todas as pessoas com enxaqueca crônica. “Ansiedade, estresse e sono ruim são fatores moduladores, não causas. Eles aumentam o risco de o comportamento aparecer ou se intensificar”, afirma. Segundo ela, no bruxismo do sono, alguns medicamentos que agem no sistema nervoso, como certos antidepressivos, também podem aumentar a atividade muscular. Por isso, a professora orienta observar em que fases o comportamento piora, como anda o sono e quais remédios estão em uso, e levar essas informações ao médico e ao dentista. Tratar as duas condições ao mesmo tempo pode ajudar Gonçalves cita um ensaio clínico conduzido por seu grupo com mulheres que tinham enxaqueca e DTM e a melhora da enxaqueca foi maior quando as duas condições foram tratadas simultaneamente. O tratamento da DTM, segundo a professora, varia conforme o tipo e pode incluir placa, fisioterapia e medicamentos. A placa, quando indicada, deve ser rígida e feita sob medida. Modelos moles ou comprados prontos não são recomendados. A placa protege dentes e articulações, mas não elimina o bruxismo. Para a enxaqueca, a orientação da especialista é procurar sempre um neurologista, de preferência com formação em cefaleia. Desgaste dos dentes, dor ou cansaço no rosto e dificuldade para abrir a boca são motivos para consultar também um dentista especialista em dor orofacial e DTM. “Quando DTM dolorosa e enxaqueca estão presentes juntas, o ideal é que o acompanhamento com o neurologista e com o especialista em DTM seja feito simultaneamente”, conclui. Veja também: Por que as crises de enxaqueca podem aumentar no calor?The post Apertar os dentes tem relação com a enxaqueca? Entenda first appeared on Portal Drauzio Varella.
Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL
FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/neurologia/apertar-os-dentes-tem-relacao-com-a-enxaqueca-entenda/