Minha trajetória profissional é marcada pelo interesse em oferecer um cuidado especializado às crianças, considerando suas particularidades anatômicas, fisiológicas e emocionais.
A Cirurgia Pediátrica exige conhecimento técnico, precisão e sensibilidade, porque estamos lidando com pacientes em fase de crescimento e desenvolvimento.
A Uropediatria surgiu como uma área de grande interesse dentro dessa especialidade, por envolver condições que podem influenciar não apenas a saúde urinária e genital, mas também o desenvolvimento e a qualidade de vida da criança.
Meu objetivo é proporcionar diagnóstico adequado, tratamento individualizado e orientação clara às famílias, utilizando os recursos mais atuais da medicina para oferecer segurança e bons resultados.
A criptorquidia é uma condição em que um ou ambos os testículos não se encontram na bolsa escrotal, que é o local onde normalmente devem estar.
Durante o desenvolvimento do bebê, os testículos se formam no abdome e descem gradualmente até o escroto. Quando esse processo não se completa, ocorre a criptorquidia.
O principal sinal é a ausência de um ou dos dois testículos na bolsa escrotal, percebida pelos pais, pelo pediatra ou durante o exame físico do recém-nascido. Geralmente, a condição não provoca dor, o que pode fazer com que a família não perceba sua importância.
É fundamental diferenciar a criptorquidia do testículo retrátil, que consegue descer até o escroto, embora possa subir temporariamente por um reflexo muscular.
Essa distinção deve ser feita pelo médico, pois a conduta é diferente. A avaliação precoce permite identificar a condição e definir o tratamento mais adequado.
A criptorquidia não deve ser considerada apenas uma alteração estética.
Quando o testículo permanece fora do escroto, fica exposto a uma temperatura superior à ideal para o seu desenvolvimento, o que pode comprometer a produção de espermatozoides e a fertilidade futura, especialmente nos casos bilaterais.
Também existe maior risco de torção testicular, traumatismos e desenvolvimento de câncer testicular ao longo da vida. A correção cirúrgica reduz alguns desses riscos e facilita o acompanhamento, embora não elimine completamente o risco de câncer.
Em alguns bebês, o testículo pode descer espontaneamente nos primeiros meses de vida.
Por isso, a recomendação é realizar o acompanhamento e, se não houver descida espontânea até aproximadamente seis meses de idade corrigida, indicar o tratamento cirúrgico, preferencialmente entre seis e 12 meses e, idealmente, até os 18 meses.
Quanto mais cedo identificamos e tratamos a condição, maiores são as possibilidades de preservar a função testicular. Por isso, não devemos adiar a avaliação especializada.
A videolaparoscopia trouxe um avanço importante para o tratamento da criptorquidia, principalmente nos casos em que o testículo não pode ser palpado durante o exame físico e existe a possibilidade de ele estar localizado dentro do abdome.
Por meio de pequenas incisões, introduzimos uma câmera e instrumentos delicados que permitem visualizar diretamente as estruturas internas.
Isso ajuda a localizar o testículo, avaliar sua posição e definir a melhor estratégia cirúrgica.
Em comparação com a cirurgia aberta, a videolaparoscopia pode proporcionar incisões menores, menor trauma da parede abdominal e recuperação pós-operatória mais confortável.
Além disso, oferece excelente visualização da anatomia, o que contribui para o planejamento do procedimento.
É importante ressaltar que a técnica não substitui todas as abordagens convencionais. A escolha depende da localização do testículo, das características de cada paciente e da experiência da equipe cirúrgica.
O principal avanço é poder individualizar o tratamento com maior precisão.
A videolaparoscopia tem papel especialmente importante nos casos de criptorquidia não palpável, quando o testículo não é identificado no escroto nem na região inguinal durante o exame físico.
Nessas situações, ela permite investigar diretamente a cavidade abdominal e identificar a localização do testículo ou outras condições anatômicas relevantes.
Dependendo dos achados, podemos realizar o tratamento por videolaparoscopia ou planejar uma abordagem em etapas, especialmente quando o testículo está localizado muito alto no abdome e apresenta vasos sanguíneos curtos.
Já nos casos em que o testículo é palpável na região inguinal ou próximo ao escroto, a cirurgia aberta convencional, por meio da orquidopexia inguinal ou escrotal, continua sendo uma excelente opção e, frequentemente, a mais indicada.
Portanto, não existe uma única técnica ideal para todas as crianças.
O importante é realizar uma avaliação criteriosa e escolher a abordagem que ofereça as melhores condições para posicionar o testículo adequadamente, preservando sua vascularização e suas estruturas.
O procedimento começa com uma avaliação pré-operatória e é realizado sob anestesia geral.
Na videolaparoscopia, fazemos pequenas incisões para introduzir a câmera e os instrumentos cirúrgicos, permitindo localizar o testículo e avaliar suas estruturas.
Quando tecnicamente possível, o testículo é mobilizado cuidadosamente e levado até a bolsa escrotal, onde é fixado.
Em determinadas situações, sobretudo quando ele está localizado muito alto no abdome, pode ser necessário realizar a correção em duas etapas para preservar sua irrigação sanguínea.
Após a cirurgia, a maioria das crianças apresenta boa recuperação. A dor costuma ser controlável com analgésicos prescritos, e o retorno às atividades habituais ocorre gradualmente, conforme a idade, a técnica utilizada e a orientação médica.
Os pais devem observar as incisões e seguir as recomendações sobre higiene, medicação e restrição temporária de atividades físicas.
Febre persistente, dor intensa ou progressiva, vômitos repetidos, vermelhidão importante ou secreção na ferida operatória exigem avaliação médica.
A orientação individualizada é fundamental, pois cada criança pode apresentar necessidades diferentes durante o pós-operatório.
O acompanhamento após a cirurgia é indispensável para avaliar não apenas a cicatrização, mas também a posição, o tamanho e o desenvolvimento do testículo ao longo do tempo.
Nas consultas, verificamos se o testículo permanece adequadamente posicionado na bolsa escrotal, se apresenta consistência e volume compatíveis com a evolução esperada e se existem sinais de complicações, como retração, atrofia ou alterações da ferida operatória.
Uma evolução satisfatória envolve boa cicatrização, ausência de complicações relevantes e manutenção do testículo na posição corrigida.
A avaliação clínica é a principal ferramenta de acompanhamento, e exames complementares são solicitados quando existe indicação.
Também explicamos aos pais que a cirurgia corrige o posicionamento do testículo, mas não garante, isoladamente, fertilidade futura nem elimina completamente o risco de câncer testicular.
Por isso, o acompanhamento deve ser mantido conforme a orientação do especialista.
Nosso objetivo é acompanhar o desenvolvimento da criança e oferecer as melhores condições possíveis para a preservação da função testicular e da saúde a longo prazo.
Minha principal orientação aos pais é: não esperem a criança crescer para procurar avaliação.
Se perceberem que um ou ambos os testículos não estão na bolsa escrotal, conversem com o pediatra e procurem avaliação com um cirurgião pediátrico ou uropediatra.
A criptorquidia é uma condição conhecida, que tem tratamento e cuja abordagem no momento adequado pode fazer diferença importante para a saúde futura da criança.
O ideal é que a avaliação aconteça nos primeiros meses de vida, para que possamos acompanhar a descida espontânea quando ainda existe essa possibilidade e indicar a cirurgia no período recomendado, se necessário.
A medicina evoluiu muito, e hoje contamos com técnicas modernas, incluindo a videolaparoscopia, que ampliam nossas possibilidades de diagnóstico e tratamento.
Entretanto, a tecnologia funciona melhor quando associada ao diagnóstico precoce, à experiência da equipe e ao acompanhamento adequado.
A mensagem mais importante é que informação e orientação especializada fazem a diferença. Cuidar precocemente da saúde da criança é investir em seu desenvolvimento e em sua qualidade de vida no futuro.