Fisioterapia ajuda a aliviar as dores de quem range ou aperta os dentes
A fisioterapia orofacial não faz o bruxismo desaparecer, mas trata a dor e as limitações da mandíbula e ensina o paciente a perceber quando aperta os dentes.
Entre no nosso Grupo Whatsapp — Receba as principais notícias do diaParticiparAcordar com a mandíbula cansada, sentir o rosto dolorido no fim do dia, perceber os dentes cerrados no trânsito ou ouvir de quem dorme ao lado que o barulho dos dentes atravessou a noite. Esses são alguns sinais que podem estar relacionados ao bruxismo, comportamento caracterizado pela atividade dos músculos da mastigação durante o sono ou enquanto a pessoa está acordada (vigília). Se você se reconheceu em alguma dessas situações, não está sozinho. Uma revisão de estudos publicada em 2024 estimou que o bruxismo do sono atinge cerca de 21% da população mundial, e o de vigília, 23%. Nos últimos anos, também mudou a forma como os especialistas enxergam o problema. Um consenso internacional de especialistas propôs que, em pessoas saudáveis, o bruxismo não seja necessariamente considerado um distúrbio, mas um comportamento que pode representar fator de risco para algumas consequências à saúde.
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A fisioterapeuta Débora Bevilaqua-Grossi, professora titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (FMRP-USP) e responsável pelo ambulatório de cefaleia e disfunção temporomandibular (DTM) do Centro de Reabilitação do Hospital das Clínicas da FMRP (HCFMRP), acompanhou essa mudança de perspectiva. Ela conta ser “desse tempo que o bruxismo era uma sentença”, quando o diagnóstico vinha acompanhado da ideia de dentes irremediavelmente desgastados. Hoje, a visão é outra: “Ele [bruxismo] é um comportamento e não exatamente uma doença”, afirma. E é para lidar com as consequências desse comportamento que entra a fisioterapia orofacial, nome que, segundo Bevilaqua-Grossi, é o mais usado hoje para a área também chamada de bucomaxilofacial. Ela conta que o campo nasceu do tratamento da DTM, problema que afeta a articulação da mandíbula e os músculos da mastigação, e se ampliou para outras dores da face. A principal contribuição está no alívio da dor e na recuperação de funções como falar, comer e mastigar sem desconforto. Ranger à noite e apertar de dia provocam consequências diferentes Para a fisioterapeuta, é importante diferenciar o bruxismo do sono daquele que acontece com a pessoa acordada. Quem range os dentes à noite tende a apresentar mais desgaste dentário. Durante o dia, o bruxismo costuma se manifestar pelo apertamento, com a contração muscular mantida por períodos prolongados, o que, segundo Bevilaqua-Grossi, sobrecarrega mais os músculos e a articulação e também pode prejudicar os dentes. “Não tem uma coisa que seja melhor que a outra. Na verdade, as duas são condições difíceis, ruins de tratar”, afirma. A diferença também define o que a fisioterapia consegue trabalhar. Durante o sono, não há como perceber o comportamento. Com a pessoa acordada, “a gente tem uma luz no final do túnel”, diz a professora. E com exercícios e orientações, o paciente aprende a reconhecer a tensão e a relaxar a musculatura. Dor é o principal sinal de alerta Muitas pessoas não percebem o próprio bruxismo e o desgaste dos dentes deve ser inicialmente avaliado por um dentista. Dor, dificuldade para abrir ou movimentar a boca, estalos, alterações nos movimentos da mandíbula ou sensação de mudança no encaixe dos dentes são sinais de que é hora de buscar avaliação profissional. “A dor é o principal sinal de alerta. É ela que acaba chamando a nossa atenção”, alerta. A dor de cabeça frequente também merece atenção. Bevilaqua-Grossi conta que sempre investiga essa queixa e que, quando ela aparece em muitos dias do mês e interfere na rotina, é preciso um diagnóstico, muitas vezes com um neurologista. A fisioterapia atua nas consequências do bruxismo “Ninguém vai conseguir fazer o paciente parar de ranger ou apertar. Ter esse objetivo de tratamento é uma meta completamente furada”, afirma a fisioterapeuta. Segundo ela, não há evidência de que as técnicas fisioterapêuticas reduzam diretamente a atividade do bruxismo, portanto o foco está nas consequências desse comportamento, na busca por aliviar a dor, melhorar os movimentos e ajudar o paciente a reconhecer a diferença entre contrair e relaxar a musculatura. Por isso, a avaliação é fundamental e o fisioterapeuta investiga a queixa e a rotina do paciente, como sono, trabalho e estresse, observa os movimentos da boca e palpa os músculos da mastigação em busca de pontos de tensão capazes de reproduzir a dor. O pescoço também faz parte dessa avaliação, porque ele e a face têm relações anatômicas, funcionais e neurofisiológicas, e alterações e sobrecargas em uma região podem influenciar sintomas na outra. A especialista ressalta que a postura pode ser observada, mas não deve ser tratada como causa do bruxismo ou da dor, e que uma cabeça mantida muito à frente do corpo pode aumentar a sobrecarga da musculatura cervical e agravar alguns quadros. Exercícios ajudam a perceber e a relaxar a mandíbula O tratamento fisioterápico muda de acordo com as queixas e as informações que os pacientes relatam. Quem chega com dor intensa e mal consegue abrir a boca, por exemplo, precisa primeiro de alívio, enquanto nos quadros crônicos a abordagem é outra. Em geral, a especialista sugere uma combinação de terapia manual, exercícios e estratégias de relaxamento, com objetivos que se completam no alívio da dor, na educação do paciente a perceber o próprio corpo e a soltar a musculatura. Bevilaqua-Grossi conta que em seus atendimentos os exercícios respiratórios são a base, com o paciente aprendendo a usar melhor o diafragma e a reduzir o uso excessivo dos músculos do pescoço, o que favorece o relaxamento e amplia a percepção corporal. A terapia manual trabalha pontos de tensão na face e no pescoço, enquanto os exercícios ajudam o paciente a perceber e controlar os movimentos da mandíbula. Um exemplo é deixar a língua relaxada atrás dos dentes da frente e abrir e fechar a boca sem encostar os dentes. O treino pode evoluir para movimentos laterais e, dependendo da avaliação, para o fortalecimento. É comum que o paciente não consiga levar a mandíbula para os lados e só perceba isso diante do espelho. “O cérebro do paciente não sabe onde está a mandíbula dele. Como é então que essa mandíbula vai relaxar?”, explica. Algumas dessas abordagens têm respaldo científico. Uma meta-análise de 153 estudos mostrou que a mobilização da mandíbula feita por um terapeuta, a terapia manual em pontos-gatilho e exercícios supervisionados de mandíbula e de postura reduzem a dor crônica associada à DTM. Tratamento envolve diferentes profissionais O bruxismo pode estar relacionado a sono, estresse, emoções, dentes, músculos e articulações. Por isso, o cuidado pode exigir profissionais de diferentes áreas. Além do dentista e do fisioterapeuta, podem participar profissionais de saúde mental, especialistas em sono e neurologistas, conforme o caso. Para a fisioterapeuta, a atuação conjunta depende de cada profissional conhecer o trabalho dos outros, reconhecer os próprios limites e saber o momento de encaminhar. Essa complexidade também explica por que não existe um tempo fixo de tratamento e que casos agudos evoluem de forma diferente dos crônicos. Bevilaqua-Grossi conta que, em sua experiência de trabalho, alguns pacientes recebem alta após oito semanas, enquanto outros precisam de mais tempo. As metas devem ser definidas com a pessoa, considerando não só a dor, mas o quanto o problema interfere na rotina dela. “Quanto mais o paciente estiver envolvido e participativo no tratamento, mais rapidamente os resultados vão aparecer”, conclui. Veja também: 5 perguntas e respostas sobre bruxismoThe post Fisioterapia ajuda a aliviar as dores de quem range ou aperta os dentes first appeared on Portal Drauzio Varella.