Entre no nosso Grupo Whatsapp — Receba as principais notícias do diaParticiparEntre as pessoas de países de baixa renda que tiveram um primeiro episódio de insuficiência cardíaca, 59% morreram em até 30 dias da primeira apresentação da doença. Nos países de alta renda, esse percentual foi de 11%, segundo estudo internacional publicado no Journal of the American College of Cardiology (JACC). A pesquisa analisou dados de 172.653 pessoas de 25 países, entre eles o Brasil, acompanhadas por cerca de 15 anos pelo estudo PURE (Prospective Urban Rural Epidemiology).
A diferença se manteve no longo prazo. Cinco anos após a primeira apresentação da doença, a mortalidade chegou a 77% entre os pacientes dos países de baixa renda, em comparação com 28% nos países de alta renda. Os percentuais se referem à mortalidade entre as pessoas que desenvolveram insuficiência cardíaca durante o acompanhamento, e não ao conjunto da população dos países estudados.
O PURE é uma das maiores e mais longas avaliações epidemiológicas globais sobre fatores de risco e desfechos de doenças crônicas em diferentes contextos socioeconômicos. O programa de pesquisa acompanha mais de 250 mil participantes em 27 países, incluindo cerca de 25 mil na América do Sul, parte deles no Brasil. Nesta análise específica, foram incluídas 172.653 pessoas de 25 países, que tinham entre 35 e 70 anos no início do acompanhamento e viviam em comunidades urbanas e rurais.
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Nesta análise, os pesquisadores compararam quantas pessoas desenvolveram insuficiência cardíaca e quantas morreram em até 30 dias, um ano e cinco anos após a primeira apresentação da doença, considerando países com diferentes níveis de renda e oito regiões do mundo. Também avaliaram a contribuição de 13 fatores que podem ser prevenidos ou controlados para o aparecimento de novos casos.
“Os resultados mostram que o local onde uma pessoa vive e a estrutura de saúde à qual ela tem acesso podem influenciar profundamente o que acontece após o diagnóstico. A insuficiência cardíaca é uma condição clínica altamente prevalente e de risco cardiovascular alto, mas a diferença de mortalidade observada entre os países não pode ser explicada apenas pela doença. Ela também reflete desigualdades no diagnóstico, no acesso ao tratamento e na continuidade do cuidado”, afirma o cardiologista Prof. Doutor Álvaro Avezum, um dos autores do estudo e diretor do Centro Internacional de Pesquisa e Head de Cardiologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
A insuficiência cardíaca é uma síndrome provocada por alterações estruturais ou funcionais do coração, que comprometem sua capacidade de fornecer sangue adequadamente ao organismo. Entre suas manifestações mais frequentes estão falta de ar, cansaço, limitação para realizar esforços e acúmulo de líquidos, que pode provocar inchaço nas pernas e aumento de peso.
Menos casos registrados, mas mais mortes
Um dos resultados chama atenção: os países de menor renda registraram menos novos casos de insuficiência cardíaca, mas, entre as pessoas que apresentaram a doença, a mortalidade foi muito maior. Isso sugere que uma incidência aparentemente menor ou falta de diagnóstico apropriado, mas não significa, necessariamente, uma carga menor da doença.
A maior incidência registrada ocorreu nos países de renda média-alta — grupo em que o Brasil foi classificado nesta análise. Foram, em média, quase seis novos casos a cada 10 mil pessoas acompanhadas por ano. Nos países de alta renda, foram cerca de quatro; nos de renda média-baixa, pouco mais de três; e, nos países de baixa renda, menos de três.
Uma possível explicação é que parte dos casos não seja identificada, principalmente quando os sintomas ainda são leves. Em regiões com menor acesso a consultas, exames e acompanhamento médico, o paciente pode receber o diagnóstico apenas quando a doença já está avançada ou durante uma emergência.
Assim, a diferença entre os países pode começar antes mesmo do tratamento. Enquanto algumas pessoas conseguem descobrir a doença precocemente e iniciar o acompanhamento, outras chegam ao serviço de saúde já com falta de ar intensa, acúmulo de líquidos ou comprometimento de outros órgãos, condições que aumentam o risco de morte.
“Registrar menos casos não significa necessariamente que a doença seja menos frequente. Em locais com mais barreiras de acesso à saúde, muitos pacientes podem não ser identificados nas fases iniciais e chegar ao sistema apenas quando o paciente apresenta piora clínica do quadro de insuficiência cardíaca”, explica Avezum.
O estudo não permite saber exatamente quanto dessa diferença de mortalidade está relacionada ao diagnóstico tardio, à dificuldade de acesso a medicamentos ou à falta de acompanhamento contínuo. Os resultados, porém, reforçam a importância de identificar a doença e iniciar o cuidado no momento adequado.
As diferenças também foram observadas entre as regiões do mundo. No sul da Ásia e na África Subsaariana, cerca de 63% dos primeiros episódios de insuficiência cardíaca foram seguidos de morte em até 30 dias. Na América do Norte, o percentual foi de 12%. Em cinco anos, a mortalidade chegou a 81% no sul da Ásia e a 75% na África Subsaariana, diante de 25% na América do Norte.
Hipertensão tem maior impacto na população
Além de avaliar a mortalidade, os pesquisadores analisaram 13 fatores e condições potencialmente preveníveis ou controláveis. Entre as condições clínicas estavam hipertensão, diabetes, colesterol não HDL elevado, obesidade abdominal e doença isquêmica do coração. O estudo também considerou tabagismo, consumo excessivo de álcool, alimentação de baixa qualidade e pouca atividade física, além de baixa escolaridade, exposição à poluição dentro de casa, baixa força muscular (medida pela força de preensão da mão) e sintomas de depressão.
Na população estudada, a contribuição conjunta estimada desses 13 fatores chegou a 71,7%. A hipertensão teve o maior peso, com 24,6%, seguida por baixa escolaridade, com 7,6%; tabagismo, com 6,5%; doença isquêmica do coração, com 6,1%; e diabetes, com 5,9%. Juntos, esses cinco fatores concentraram pouco mais da metade da contribuição estimada para os novos casos.
Esses números não significam que cada caso tenha sido provocado por um único fator nem que 71,7% das ocorrências poderiam ser automaticamente evitadas. Uma mesma pessoa pode ter, ao mesmo tempo, pressão alta, diabetes, obesidade e outros fatores, que se sobrepõem e interagem ao longo da vida.
O recorte regional reforça esse resultado: na América do Sul, a hipertensão foi a causa mais frequente de insuficiência cardíaca entre as causas identificadas no estudo.
“A hipertensão pode permanecer por anos sem causar sintomas, mas isso não significa que ela seja inofensiva. Quando não é controlada, a pressão elevada aumenta o esforço exigido do coração e pode provocar alterações progressivas cardíacas, renais e cerebrais, com aumento nas taxas de hospitalização devido à infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca e necessidade de diálise, como também aumento em mortalidade precoce. A insuficiência cardíaca muitas vezes é a consequência de um processo que começou muito antes do aparecimento da falta de ar ou do cansaço”, diz o Prof. Doutor Álvaro Avezum.
Por isso, controlar a pressão arterial antes do aparecimento de alterações no coração é uma das principais estratégias de prevenção da insuficiência cardíaca.
Prevenção precisa começar antes dos sintomas
Os resultados reforçam que o enfrentamento da insuficiência cardíaca não deve se concentrar apenas no tratamento de pacientes que já apresentam sintomas ou necessitam de internação. É necessário atuar sobre os fatores de risco, identificar precocemente as pessoas com alterações cardiovasculares e garantir acesso contínuo às terapias recomendadas.
Isso envolve aferição da pressão arterial regularmente, manter acompanhamento médico, utilizar corretamente os medicamentos prescritos e controlar condições associadas, como diabetes, dislipidemia e obesidade. Também depende da capacidade dos sistemas de saúde públicos e privados de identificar pessoas que ainda não sabem que têm hipertensão, confirmar o diagnóstico e assegurar acompanhamento no longo prazo.
“O controle da pressão não pode depender apenas de uma orientação pontual. A pessoa precisa receber o diagnóstico, ter acesso ao medicamento, compreender o tratamento, manter adesão correta ao tratamento e continuar sendo acompanhada, mesmo quando não apresenta sintomas. Quando uma dessas etapas falha, aumenta a possibilidade de a hipertensão evoluir silenciosamente e causar complicações no futuro”, afirma Avezum.
Sinais como falta de ar durante atividades habituais ou ao se deitar, cansaço fora do comum, inchaço nas pernas, ganho rápido de peso e redução da capacidade para realizar esforços devem ser avaliados por um profissional de saúde. Esses sintomas não confirmam isoladamente a doença, mas podem indicar a necessidade de investigação.
Desigualdades também existem dentro dos países
Embora a pesquisa tenha organizado os países de acordo com seu nível de renda, o autor ressalta que os resultados representam médias de contextos muito diferentes. Dentro de um mesmo país, podem existir grandes desigualdades relacionadas a território, renda, escolaridade e disponibilidade de serviços especializados.
No Brasil, essas diferenças podem aparecer no tempo necessário para obter o diagnóstico, na disponibilidade de exames, no acesso a cardiologistas e na continuidade do cuidado depois de uma internação.
Por isso, os resultados globais não devem ser utilizados para classificar diretamente o desempenho de um sistema de saúde específico, mas ajudam a mostrar como barreiras econômicas e assistenciais podem influenciar a evolução da doença.
“Mesmo em países de renda média, convivemos com realidades muito distintas. Há pacientes com acesso rápido a diagnóstico, medicamentos e acompanhamento especializado, enquanto outros encontram dificuldade até para medir regularmente a pressão. Reduzir a mortalidade por insuficiência cardíaca exige reconhecer essas desigualdades e organizar o cuidado para alcançar também quem hoje permanece fora do sistema”, conclui o pesquisador.
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