Entre no nosso Grupo Whatsapp — Receba as principais notícias do diaParticiparUma doença crônica, progressiva e recidivante, que afeta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo, mas ainda é cercada de estigma e preconceito: quem vive com obesidade frequentemente vê sua condição de saúde associada à preguiça ou falta de força de vontade. O discurso já foi tão repetido que às vezes os próprios pacientes acreditam e, quando falham, acham que não se esforçaram o suficiente.
Dizer para alguém simplesmente “fechar a boca e se mexer”, no entanto, não funciona como estratégia de tratamento. Na verdade, tem o efeito contrário.
“O estigma da obesidade não é só uma questão de ‘falta de educação’ da sociedade. Ele faz mal à saúde. Consensos internacionais, assinados por dezenas de sociedades médicas e publicados na Nature Medicine, mostram que o estigma pode causar danos físicos e psicológicos, e que as pessoas afetadas têm menos chance de receber um cuidado adequado”, afirma Felipe Henning Gaia Duarte, endocrinologista e presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional São Paulo (Sbem-SP).
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Na prática, a pessoa que se sente julgada tende a adiar ou evitar consultas médicas e exames e abandonar o acompanhamento, especialmente quando tem dificuldade em perder peso com os tratamentos inicialmente prescritos. Além disso, o estresse de ser discriminado pode piorar a condição e intensificar quadros de ansiedade ou depressão.
“Estudos indicam que a experiência do estigma está associada a mais problemas de saúde mental e a mais ganho de peso. É um círculo vicioso: o preconceito afasta a pessoa do cuidado, e a falta de cuidado agrava a doença”, completa o médico.
O preconceito frequentemente vem dos profissionais
Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) publicado na revista The Lancet Regional Health – Americas apontou que pessoas com sobrepeso e obesidade são frequentemente alvo de julgamentos e discriminação. A revisão analisou 46 pesquisas conduzidas em países da América Latina e do Caribe e constatou que quase 98% delas registram experiências de preconceito associadas ao peso.
Ainda segundo o estudo, as mulheres são as mais afetadas pelo estigma, que chega aos serviços de saúde. Pacientes relatam desrespeito, julgamento moral e atendimento inadequado por parte dos profissionais, o que se torna mais um obstáculo para o cuidado.
“A literatura científica é clara: os profissionais de saúde são uma fonte frequente de estigma de peso. Ninguém precisa agir com má intenção para isso acontecer. Muitas vezes, é desinformação. Durante décadas, a formação médica ensinou que obesidade é ‘comer demais e se mexer de menos’, e que bastaria força de vontade [para resolver]. Hoje sabemos que o peso é regulado por hormônios, pelo cérebro, pela genética, pelo sono, por medicamentos de uso contínuo, pelo ambiente que a pessoa vive e, principalmente, por questões emocionais”, explica Duarte.
Ao deixar de buscar tratamento pelo medo de julgamento, os pacientes às vezes descobrem medicamentos por redes sociais ou boca a boca, fora dos serviços de saúde, o que aumenta o risco do uso sem acompanhamento adequado, segundo o especialista.
Veja também: Por que emagrecer é tão difícil? Entenda a ciência por trás da obesidade
Estamos evoluindo em relação ao estigma?
“A gente ainda não está no momento ideal. Talvez a gente não chegue, talvez a gente não veja isso. Mas se você for comparar, dez anos atrás, quando a gente começou a falar disso, era sempre um campo de muito estigma, preconceito, não só da população geral, mas mesmo da população acadêmica, cientistas, porque a gente não tinha muita solução. E aí se responsabilizava muito o paciente”, disse Priscila Mattar, endocrinologista e vice-presidente médica da Novo Nordisk no Brasil, em entrevista ao Portal Drauzio durante o congresso anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD 2026), realizado em Milão, Itália.
Outro ponto é que antigamente não havia tanta informação disponível. Para Mattar, o conhecimento ficava na mão de poucos. “Hoje, é muito mais democrático. A internet democratizou isso, para o bem ou para o mal. Mas eu não posso falar que é a mesma coisa, está evoluindo e está evoluindo rápido esse conhecimento.”
Na visão de Duarte, os medicamentos modernos ajudaram a mostrar que a obesidade tem base biológica. Para ele, há melhoras, mas com ressalvas. “Com o crescimento desse reconhecimento por parte dos médicos, de que obesidade é uma doença e não uma falta de ‘força de vontade’, esse preconceito tem diminuído, mas ainda existe”, opina.
Mike Doustdar, presidente e CEO global da Novo, compara o estigma da obesidade com o preconceito em torno dos transtornos psiquiátricos.
“Há 40 anos, havia um estigma enorme em torno da saúde mental. Hoje, embora ainda exista, é muito menor, e as pessoas falam abertamente sobre TDAH, bipolaridade ou esquizofrenia. Estamos nos estágios iniciais desse processo na obesidade, e o papel da imprensa é fundamental para continuar alimentando esse debate”, afirmou Doustdar ao Portal Drauzio também durante o EASD.
Medicamentos ainda são vistos como atalhos
A ideia de que usar um remédio para perder peso seria um “atalho” vem de uma crença antiga: a de que emagrecer deveria ser sofrido para que a pessoa “mereça” o resultado.
“Não fazemos isso com outras doenças crônicas. Ninguém diz que o hipertenso ‘trapaceia’ ao tomar remédio para a pressão, nem que o diabético ‘pega atalho’ ao usar insulina”, destaca o endocrinologista.
Os medicamentos não substituem hábitos saudáveis, mas atuam sobre a fome e a saciedade, mecanismos regulados pelo cérebro e pelos hormônios e que, na obesidade, funcionam de maneira diferente. “Ou seja, o remédio corrige parte do problema biológico e deixa a pessoa em condições de mudar hábitos com mais chance de sucesso. Como em qualquer doença crônica, se o tratamento é interrompido, o problema pode voltar. Isso não é fracasso pessoal, é a natureza da doença.”
O especialista diz ainda que apenas informar não basta: um estudo de 2025 publicado na revista Obesity Science & Practice mostrou que dar informações sobre a eficácia desses medicamentos não mudou, por si só, a crença de que obesidade é questão de força de vontade. Outro estudo indicou que a percepção de “atalho” é o que mais alimenta o julgamento contra quem usa a medicação.
Para Duarte, mudar essa visão exige um conjunto de ações, como:
formação dos profissionais de saúde, com conteúdo atualizado sobre a biologia da obesidade;
linguagem respeitosa na mídia, nas escolas e nos consultórios, sem associar obesidade à preguiça ou descontrole;
acesso justo ao tratamento, para que ele não seja visto como privilégio de quem pode pagar;
políticas públicas que tratem a obesidade como doença crônica, com cuidado contínuo, e não como escolha individual.
“Culpar o paciente nunca ajudou ninguém a emagrecer. A culpa só aumenta a vergonha, e a vergonha afasta as pessoas do tratamento”, diz o médico. Ou seja, saber ouvir e acolher o paciente pode fazer diferença em como ele vai encarar a doença dali em diante.
“Se uma pessoa com obesidade chega ao seu consultório, é porque ela precisa de ajuda. A maneira como os profissionais de saúde recebem essa pessoa vai fazer uma mudança na vida dela: ela pode sair dali acreditando que existe um caminho, que ela vai conseguir ajuda; ou ela pode sair pensando: ‘é, realmente não tem jeito para mim’, e se fechar completamente”, disse Tamiris de Sá, influenciadora que vive com obesidade e lipedema, durante painel sobre o estigma realizado no Congresso Latinoamericano de Obesidade (Flaso 2026), em Salvador (BA).
Veja também: Obesidade infantil: os efeitos na saúde mental das crianças
A jornalista viajou para o EASD a convite da Novo Nordisk.The post Como o estigma da obesidade afasta as pessoas do tratamento first appeared on Portal Drauzio Varella.