Câncer de próstata voltou? PET/CT com PSMA ajuda a localizar a doença

Quando o PSA volta a subir após a retirada da próstata, o PET/CT com PSMA ajuda a achar a recidiva e a selecionar quem pode receber Lutécio-177

Por
7 8 Min

Depois de uma cirurgia para retirada da próstata para tratar um câncer, o paciente costuma acompanhar os níveis de PSA por meio de exames de sangue. Quando esse marcador volta a subir, surge uma preocupação: o câncer retornou? E, principalmente, onde ele está? A resposta pode ser decisiva para definir os próximos passos do tratamento. O câncer de próstata é o tumor mais frequente entre os homens brasileiros, excluindo os de pele não melanoma. Segundo a estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o país deverá registrar 77.920 novos casos por ano entre 2026 e 2028. Durante o Novembro Azul, a conscientização sobre a doença também envolve a importância do acompanhamento médico e da avaliação individualizada dos riscos. Homens a partir dos 50 anos, ou antes quando apresentam fatores de risco, como histórico familiar e ancestralidade africana, devem conversar com o urologista sobre a necessidade de avaliação. A decisão sobre exames como o PSA e o toque retal deve considerar os possíveis benefícios e riscos do rastreamento, que não é recomendado de forma indiscriminada pelo Ministério da Saúde. Mas os cuidados não terminam com o diagnóstico e o tratamento inicial. Mesmo depois da retirada da próstata, a doença pode persistir ou reaparecer. Continua após a publicidade Nesses casos, a elevação do PSA pode indicar uma recorrência bioquímica, expressão utilizada quando o marcador volta a subir, mesmo sem sinais visíveis do câncer nos exames convencionais. Como encontrar um câncer que ainda não aparece nos exames convencionais? O PET/CT com PSMA tornou-se uma ferramenta importante nessa investigação. O exame combina imagens moleculares e anatômicas para identificar áreas com maior presença do antígeno de membrana específico da próstata, conhecido pela sigla PSMA. Essa proteína está presente em níveis elevados em muitas células do câncer de próstata. Ao utilizar uma molécula que se liga ao PSMA, associada a um marcador radioativo, o exame permite localizar focos suspeitos que podem não ser identificados por outros métodos de imagem. A capacidade de detecção depende de fatores como o nível do PSA, a velocidade de sua elevação e as características do tumor. Por isso, um resultado negativo não exclui completamente a presença de células cancerígenas em quantidade ainda insuficiente para serem identificadas. A localização da recidiva pode modificar a estratégia terapêutica. Quando o câncer parece restrito à região da cirurgia, por exemplo, a radioterapia de resgate pode ser considerada. Continua após a publicidade Já a identificação de lesões em linfonodos ou outros órgãos pode levar à avaliação de tratamentos dirigidos ou sistêmicos. O PET/CT com PSMA também pode ser utilizado antes da cirurgia, no estadiamento inicial de pacientes com câncer de próstata de maior risco, além de auxiliar na seleção de pessoas que podem se beneficiar de terapias específicas. Da imagem ao tratamento: o que é teranóstico? Uma das principais inovações da medicina nuclear é o conceito de teranóstico, que combina diagnóstico e tratamento utilizando moléculas capazes de reconhecer o mesmo alvo biológico. No câncer de próstata, o PSMA pode funcionar como esse alvo. Primeiro, o PET/CT identifica lesões que apresentam a proteína. Em pacientes selecionados, uma molécula semelhante pode ser associada ao radioisótopo Lutécio-177, que emite radiação capaz de danificar as células tumorais. Continua após a publicidade A proposta é direcionar a radiação preferencialmente às áreas que apresentam PSMA, embora tecidos saudáveis também possam receber parte da exposição. Essa abordagem, conhecida como terapia com Lutécio-177-PSMA, representa um avanço no tratamento de determinadas formas de câncer de próstata metastático, quando a doença já se espalhou para outras regiões do organismo. É importante esclarecer, porém, que identificar uma recidiva pelo PET/CT não significa que o paciente necessariamente receberá esse tratamento. A terapia com Lutécio-177 possui indicações específicas e não substitui automaticamente a cirurgia, a radioterapia ou os tratamentos hormonais utilizados em outras fases da doença. Lutécio-177: novas possibilidades de tratamento Inicialmente, o Lutécio-177-PSMA ganhou espaço no tratamento do câncer de próstata metastático resistente à castração. Continua após a publicidade Apesar do nome, essa expressão não significa necessariamente a retirada cirúrgica dos testículos. Ela descreve uma situação em que o câncer continua progredindo mesmo quando a testosterona é reduzida a níveis muito baixos por meio do tratamento. Mais recentemente, pesquisas demonstraram benefícios da terapia também em pacientes com doença metastática ainda sensível ao tratamento hormonal, ou seja, quando o câncer continua respondendo à redução ou ao bloqueio da ação dos hormônios masculinos. O estudo PSMAddition e a aprovação nos Estados Unidos Um dos principais avanços veio do estudo clínico PSMAddition, que avaliou a associação do Lutécio-177-PSMA ao tratamento hormonal padrão em pacientes com câncer de próstata metastático e tumores positivos para PSMA. Os resultados iniciais demonstraram redução relativa de 28% no risco de progressão da doença identificada por exames de imagem ou morte, em comparação com o tratamento padrão isolado. Em uma análise atualizada, essa redução chegou a 33%. Com base nesses resultados, em julho de 2026, a agência reguladora americana FDA aprovou o Pluvicto, medicamento que utiliza Lutécio-177-PSMA, em combinação com um inibidor da via do receptor androgênico para pacientes com câncer de próstata metastático sensível à terapia hormonal e positivo para PSMA. Continua após a publicidade A aprovação representa uma ampliação das possibilidades terapêuticas, mas não significa que o tratamento seja indicado para todos os pacientes. Os resultados de sobrevida global ainda estavam em acompanhamento, e a redução do risco de progressão não deve ser interpretada como uma taxa de cura. E no Brasil, o tratamento já está disponível? No Brasil, o Pluvicto possui registro na Anvisa para o tratamento de pacientes com câncer de próstata metastático resistente à castração e positivo para PSMA, conforme critérios específicos. A ampliação da indicação aprovada nos Estados Unidos não implica autorização automática para o mesmo uso no país. A cobertura pelos planos de saúde e a disponibilidade no sistema público também dependem de avaliações e regras próprias. Quem pode receber Lutécio-177-PSMA? A indicação depende do estágio do câncer, da presença de metástases, dos tratamentos anteriores, das condições clínicas e da quantidade de PSMA presente nas lesões tumorais. O PET/CT com PSMA ajuda a identificar se os focos da doença apresentam captação adequada do marcador, característica importante para selecionar os pacientes que podem se beneficiar da terapia. Também são avaliadas as funções renal e da medula óssea, já que o tratamento pode provocar efeitos adversos como fadiga, boca seca, náuseas e alterações nas células sanguíneas. A decisão deve ser individualizada e envolver os especialistas responsáveis pelo acompanhamento do paciente. O acompanhamento continua fundamental após a cirurgia Embora os avanços da medicina nuclear ampliem as possibilidades de diagnóstico e tratamento, o primeiro passo diante da elevação do PSA continua sendo compreender o significado desse resultado. O médico deve considerar os valores anteriores, a evolução do marcador, as características do tumor original e o intervalo desde a cirurgia. A investigação por imagem pode ser indicada conforme o contexto clínico, sem necessariamente aguardar que o PSA alcance valores elevados. Também é importante lembrar que um PET/CT negativo não impede, por si só, a indicação de radioterapia de resgate quando ela é clinicamente apropriada. A doença pode estar presente em quantidade insuficiente para ser detectada. Os avanços da medicina nuclear permitem decisões cada vez mais individualizadas. Em alguns pacientes, o PSMA ajuda a descobrir onde o câncer voltou. Em outros, também permite identificar um alvo para direcionar o tratamento às células tumorais. São aplicações diferentes de uma mesma tecnologia, que vem ampliando as possibilidades de cuidado no câncer de próstata. * Marcos Villela Pedras Polonia é especialista em medicina nuclear da Clínica de Medicina Nuclear Villela Pedras e membro da Brazil Health (Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health) Publicidade

As notícias oriundas assim como as imagens tem como fonte de referência: https://saude.abril.com.br/ultimas-noticias

FONTE: https://saude.abril.com.br/medicina/cancer-de-prostata-voltou-pet-ct-com-psma-ajuda-a-localizar-a-doenca/
Notícias Relacionadas »