Primeiramente, obrigada pela oportunidade. Eu costumo dizer que foi a Nefrologia que me escolheu. Durante a faculdade de Medicina na Universidade do Estado do Pará e a residência em Clínica Médica em um hospital de referência de São Paulo, a complexidade dos pacientes renais e a quantidade de condições clínicas diversas que impactam diretamente a saúde renal me encantaram. E, desde então, eu sigo esse caminho.
A relação acontece principalmente pela hiperglicemia crônica. Ao longo dos anos, o excesso de glicose provoca alterações nos vasos e nos glomérulos dos rins, levando inicialmente à hiperfiltração e ao aumento da albuminúria, que é a perda de proteína na urina.
Com a progressão da lesão, ocorre perda gradual da função renal, podendo evoluir para doença renal crônica e até necessidade de hemodiálise.
Infelizmente, muitos pacientes diabéticos chegam ao nefrologista já em fases mais avançadas da doença renal, frequentemente nos estágios 4 ou 5.
Essa demora reduz a oportunidade de intervir precocemente, controlar os fatores de risco e retardar a progressão da doença. Por isso, o acompanhamento deve começar ainda nas fases iniciais, com avaliação precoce da função renal e da albuminúria.
Os principais exames são a creatinina e a relação albumina/creatinina na urina, que detecta precocemente a lesão renal.
Também é importante acompanhar com exame de urina e, conforme o estágio da doença, eletrólitos, como sódio, potássio, gasometria, além dos exames de controle metabólico e do diabetes, como glicemia em jejum e hemoglobina glicada.
Em geral, a avaliação deve ser feita pelo menos uma vez ao ano em pacientes com diabetes. Se já houver doença renal conhecida, a frequência deve ser maior, podendo ser a cada 3 a 6 meses, de acordo com o estágio e a evolução do paciente.
Sim. Além do controle inadequado da glicemia, fatores como pressão arterial elevada, tabagismo, obesidade, sedentarismo e uso frequente de medicamentos que podem agredir os rins, como anti-inflamatórios, podem acelerar a progressão da doença.
Muitas vezes, esses fatores são subestimados, mas seu controle adequado pode fazer uma grande diferença na preservação da função renal.
O tratamento é multidisciplinar e envolve, principalmente, o controle da glicemia e da pressão arterial, redução da albuminúria, cuidados com alimentação e estilo de vida e acompanhamento regular da função renal.
Nos últimos anos, tivemos uma mudança importante: hoje contamos com medicamentos como os inibidores de SGLT2, que, além de controlar a glicemia, oferecem proteção renal e cardiovascular, e os agonistas de GLP-1, que também contribuem para a proteção cardiovascular e renal.
Mais recentemente, a finerenona ampliou as opções para pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal. Ou seja, atualmente não tratamos apenas a glicemia; buscamos proteger o rim e reduzir o risco cardiovascular de forma precoce.
O controle glicêmico adequado é fundamental para reduzir a velocidade de progressão da doença renal, principalmente por diminuir a lesão glomerular. Mas é importante individualizar as metas, especialmente nos pacientes com doença renal mais avançada.
Por isso, o acompanhamento deve ser multidisciplinar, envolvendo nefrologista, endocrinologista e nutricionista. O monitoramento da glicemia, pressão arterial, função renal e albuminúria é fundamental.
O objetivo é não apenas controlar o diabetes, mas preservar a função renal e reduzir fatores de risco.
Meu principal recado é: não espere o rim dar sinais para começar a cuidar dele.
A doença renal do diabetes pode evoluir de forma silenciosa por muitos anos. O acompanhamento com o nefrologista permite identificar alterações precocemente, mesmo antes do surgimento de sintomas, e adotar medidas para preservar a função renal.
Cuidar dos rins desde cedo é uma forma de prevenir complicações e melhorar a qualidade e a expectativa de vida.