Hipertensão e diabetes são inimigas dos rins: especialista explica os riscos

Dra. Érica Vasconcelos Baretta explica como hipertensão e diabetes podem comprometer silenciosamente a função renal e reforça a importância da prevenção e do diagnóstico precoce.

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Hipertensão e diabetes são inimigas dos rins: especialista explica os riscos
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A doença renal crônica é um problema de saúde muitas vezes silencioso. Uma pessoa pode perder progressivamente a função dos rins durante anos sem apresentar sintomas importantes. Quando manifestações como inchaço, anemia, fraqueza, náuseas ou falta de ar aparecem, a doença pode já estar em estágio avançado.

Entre as principais responsáveis por esse processo estão duas condições extremamente comuns: hipertensão arterial e diabetes. Quando não são adequadamente controladas, elas podem provocar lesões progressivas nos rins e aumentar significativamente o risco de doença cardiovascular, necessidade de diálise e outras complicações.

Por que pressão alta e diabetes prejudicam os rins?

Os rins recebem uma grande quantidade de sangue continuamente e funcionam como um sofisticado sistema de filtragem. Em seu interior existem milhões de pequenas unidades chamadas néfrons. É nelas que o sangue é filtrado, substâncias importantes são preservadas e resíduos e excesso de líquidos são eliminados pela urina.

Na hipertensão, a exposição prolongada dos pequenos vasos renais a pressões elevadas pode provocar alterações vasculares e glomerulares. Com o passar do tempo, o rim pode perder progressivamente sua capacidade de filtração.

Existe ainda uma relação de mão dupla: a hipertensão pode causar doença renal, mas a própria doença renal também pode dificultar o controle da pressão arterial. Forma-se, assim, um ciclo que aumenta tanto o risco de progressão da doença renal quanto o risco cardiovascular.

No diabetes, o excesso persistente de glicose no sangue desencadeia uma série de alterações metabólicas e hemodinâmicas que afetam os glomérulos, estruturas responsáveis pela filtração do sangue. Inicialmente, pode ocorrer aumento da pressão dentro desses pequenos filtros. Ao longo dos anos, a lesão pode favorecer a passagem de albumina para a urina e a perda progressiva da função renal.

Por isso, o acompanhamento do paciente com diabetes não deve se limitar à glicemia.

O grande perigo: a doença renal pode não dar sintomas

Um dos principais desafios é justamente a ausência de sinais nas fases iniciais. Muitas pessoas acreditam que, se estão urinando normalmente e não sentem dor, os rins estão funcionando bem. Isso não é necessariamente verdade.

É possível apresentar redução importante da função renal mantendo um volume aparentemente normal de urina. Além disso, a doença renal geralmente não provoca dor.

A melhor estratégia, portanto, é identificar a lesão renal antes que surjam sintomas.

Dois exames relativamente simples têm papel fundamental nessa avaliação: a creatinina no sangue, utilizada para estimar a taxa de filtração glomerular (TFG), e a pesquisa de albumina na urina, preferencialmente pela relação albumina/creatinina urinária.

A presença persistente de albumina na urina pode ser um dos primeiros sinais de comprometimento renal, especialmente em pessoas com diabetes e hipertensão.

Cuidar do rim é também cuidar do coração

A doença renal crônica não deve ser vista de maneira isolada. Rim, coração e metabolismo estão profundamente interligados.

Pessoas com doença renal apresentam maior risco de eventos cardiovasculares, como infarto, acidente vascular cerebral e insuficiência cardíaca. Diabetes, hipertensão, obesidade e alterações do colesterol frequentemente coexistem e potencializam esses riscos.

Atualmente, por isso, o tratamento vai muito além de simplesmente “baixar a creatinina”. O objetivo é reduzir o risco global do paciente, protegendo simultaneamente rins, coração e vasos sanguíneos.

Nos últimos anos, surgiram medicamentos capazes de modificar significativamente a evolução da doença renal em grupos específicos de pacientes. Além do controle adequado da pressão e da glicemia e do uso de bloqueadores do sistema renina-angiotensina quando indicados, medicamentos como os inibidores de SGLT2 passaram a ocupar posição importante na proteção renal e cardiovascular. Em pacientes selecionados, outras terapias, como a finerenona e os agonistas do receptor de GLP-1, também podem contribuir para a redução do risco cardiorrenal.

A escolha dessas medicações deve ser individualizada, considerando função renal, presença de albuminúria, diabetes, doença cardiovascular, níveis de potássio e outras características clínicas.

Quem deve ficar especialmente atento?

Pessoas com hipertensão ou diabetes devem realizar acompanhamento periódico da função renal, mesmo quando se sentem bem. O cuidado deve ser ainda maior quando existem outros fatores de risco, como obesidade, doença cardiovascular, histórico familiar de doença renal, idade avançada ou uso frequente de medicamentos potencialmente prejudiciais aos rins.

Outro ponto fundamental é evitar a automedicação, especialmente com anti-inflamatórios, que podem precipitar ou agravar alterações da função renal em pessoas suscetíveis.

Controlar adequadamente a pressão arterial, manter o diabetes dentro das metas individualizadas, reduzir o consumo excessivo de sal, praticar atividade física, não fumar, controlar o peso e seguir corretamente o tratamento prescrito são medidas capazes de fazer diferença na evolução da doença.

Diagnóstico precoce pode mudar a história da doença

Receber o diagnóstico de doença renal crônica não significa necessariamente que o paciente precisará fazer diálise. Na realidade, um dos principais objetivos da nefrologia é exatamente o contrário: identificar precocemente quem apresenta risco e adotar medidas capazes de preservar a função renal pelo maior tempo possível.

Quanto mais cedo hipertensão, diabetes e lesão renal forem reconhecidas e adequadamente tratadas, maiores são as possibilidades de retardar a progressão da doença e prevenir complicações.

A mensagem principal é simples: quem tem pressão alta ou diabetes precisa lembrar dos rins, mesmo quando não sente nada. Medir a pressão, controlar a glicemia e incluir a avaliação da função renal e da albuminúria no acompanhamento periódico são atitudes simples, mas que podem evitar consequências graves no futuro.

Cuidar dos rins começa muito antes da diálise — começa com prevenção, diagnóstico precoce e controle adequado dos fatores de risco.


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