Sempre fui fascinado pela complexidade do corpo humano e por como tudo nele está conectado. A Nefrologia me permite olhar o paciente como um todo e, ao mesmo tempo, oferecer um tratamento completo.
O rim conversa com o coração, com os vasos, com os hormônios e com o metabolismo. Cuidar dele é, na prática, cuidar da saúde inteira da pessoa.
Hipertensão e diabetes são as causas mais comuns de doença renal crônica no mundo, e aqui no Brasil também. Mas faço questão de destacar um ponto: o que lesa o rim é a pressão alta e o diabetes descontrolados ao longo dos anos.
Por isso, controlar bem essas duas doenças, que costumam ser silenciosas, é o que realmente muda a história do paciente.
No caso da pressão alta, a força excessiva do sangue vai machucando aos poucos os pequenos vasos dos rins, que são muito delicados. Com o tempo, esses vasos endurecem e o rim passa a filtrar menos.
Além disso, a hipertensão sobrecarrega o coração, e um coração enfraquecido bombeia menos sangue para os rins, o que piora ainda mais a situação.
O diabetes é ainda mais complexo, e a cada ano a ciência descobre novas formas pelas quais ele agride o rim. Sabemos que o açúcar alto no sangue por muito tempo danifica os vasos e faz com que o rim trabalhe “acelerado” no começo, filtrando além da conta.
Esse esforço excessivo desgasta as estruturas de filtração. O diabetes descontrolado também deixa o organismo em um estado de inflamação constante, que vai lesando os tecidos, inclusive os rins.
Quando essas duas doenças silenciosas se encontram e ficam sem controle, o quadro é bem mais grave. Por isso, o acompanhamento precisa ser cuidadoso e contínuo.
A base de tudo é a mudança no estilo de vida. Não adianta oferecer o remédio mais moderno se a pessoa não pratica atividade física, sempre respeitando os limites de cada um, e não tem uma alimentação adequada às suas necessidades.
Reduzir o sal, controlar o peso e parar de fumar fazem uma diferença enorme.
O cuidado deve ser individualizado e feito em equipe: médico, nutricionista, educador físico e enfermagem. Também é essencial atingir as metas de controle.
De forma geral, buscamos pressão abaixo de 12 por 8 (120x80) e hemoglobina glicada em torno de 7%, ajustando conforme o perfil de cada paciente.
A boa notícia é que a Nefrologia vive um momento muito positivo. Temos medicações novas que realmente mudaram o jeito de tratar o paciente renal crônico. Hoje conseguimos frear de forma consistente a progressão da doença, desde que o tratamento seja feito corretamente e iniciado cedo.
Esse é um ponto muito importante: a creatinina, exame de sangue mais usado para avaliar os rins, só costuma se alterar quando já houve uma perda considerável de função. Ou seja, ela é um sinal tardio.
Ainda assim, é o exame mais disponível, e a partir dela calculamos a taxa de filtração glomerular, que mostra quanto o rim está conseguindo filtrar.
Em quem tem diabetes ou pressão alta, é fundamental olhar também a urina. Um dos primeiros sinais de sofrimento renal é a perda de proteína, especialmente a albumina, na urina.
Se esse resultado vier alterado, mesmo com a creatinina normal, é hora de procurar um nefrologista.
Vale lembrar que, quando surgem sintomas como inchaço nas pernas, urina com muita espuma, cansaço fora do comum ou pressão difícil de controlar, a doença muitas vezes já está mais avançada. Por isso, os exames de rotina são tão importantes.
Primeiro, é preciso avaliar como estão a glicemia e a pressão, porque não adianta tratar o rim se a causa do problema continua descontrolada.
Os exames que não podem faltar são:
Creatinina no sangue, para estimar a filtração dos rins;
Urina tipo 1 (EAS), que dá uma visão geral da urina;
Relação albumina/creatinina na urina, que é o exame mais sensível para detectar a perda de proteína bem no início, antes mesmo de a urina tipo 1 mostrar alteração.
Para quem tem diabetes ou hipertensão, o ideal é fazer esses exames pelo menos uma vez por ano, ou com mais frequência se o médico indicar.
Pelos critérios científicos, a avaliação com o nefrologista está indicada quando a taxa de filtração fica abaixo de 45 ml/min, o chamado estágio 3b da doença renal crônica.
Também é motivo de encaminhamento quando há perda importante de proteína na urina ou quando a função renal cai rapidamente em pouco tempo.
Mas faço uma ressalva: o médico que acompanha esse paciente antes precisa ter um olhar atento para identificar quem se beneficia de uma avaliação mais cedo.
Hoje isso faz toda a diferença, porque existem medicações específicas que protegem o rim e funcionam melhor quanto antes forem iniciadas.
Esse é o ponto mais animador. Entender melhor essas duas doenças nos permitiu descobrir formas de lesão renal que antes nem imaginávamos. A partir disso, surgiram várias medicações que protegem o rim de verdade.
Entre elas estão as gliflozinas, ou inibidores de SGLT2, que surgiram para tratar o diabetes, mas mostraram proteger rins e coração até em pessoas sem diabetes. Elas “aliviam” a pressão dentro dos filtros do rim.
Também temos a finerenona, que bloqueia um hormônio que estimula inflamação e cicatrização, ou fibrose, nos rins e no coração.
Os agonistas de GLP-1, como a semaglutida, além de ajudarem no controle do açúcar e do peso, mostraram em estudos recentes reduzir a progressão da doença renal em pessoas com diabetes.
Os remédios de pressão que já utilizávamos há anos, como os da família do enalapril e da losartana, continuam sendo parte essencial do tratamento.
Estudos estimam que, quando essas medicações são combinadas e iniciadas precocemente, a necessidade de diálise pode ser adiada em muitos anos, em alguns cenários, mais de uma década. Isso é algo espetacular.
Esse grupo de doenças, que hoje chamamos de síndrome cardiorrenal-metabólica, porque coração, rins e metabolismo andam juntos, conta com um arsenal cada vez maior.
Também temos combinações de remédios em um único comprimido, o que facilita o dia a dia do paciente.
Meu principal recado é: pressão alta e diabetes são perigosas justamente porque não doem. A pessoa se sente bem enquanto os órgãos vão sendo lesados aos poucos.
Por isso, é fundamental entender a importância do tratamento e estar disposto a mudar hábitos que estão muito enraizados na nossa rotina.
Sair da zona de conforto é o que evita que outras partes do corpo, como rins, coração, olhos e nervos, sejam afetadas.
Muitas dessas complicações não têm volta depois que se instalam. A boa notícia é que dá para preveni-las ou frear sua evolução.
Faça seus exames, siga o tratamento e, se houver qualquer alteração nos rins, procure um nefrologista. Cuidar cedo é sempre o melhor caminho.