Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer o convite para participar e contribuir com a difusão do conhecimento ortopédico.
Eu sou formada pela Universidade Federal do Pará. A Ortopedia fez meus olhos brilharem no primeiro contato, no sétimo semestre da faculdade. Era tudo o que eu queria: uma especialidade objetiva e resolutiva.
Fiz residência no Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência e, atualmente, estou realizando pós-graduação em Traumatologia do Esporte.
A condromalácia é bem conhecida pelo público, mas os pacientes não a identificam especificamente por esse nome. Creio que, para sermos mais abrangentes, podemos falar sobre a Síndrome da Dor Patelofemoral, também conhecida como Síndrome da Dor Anterior no Joelho, porque assim englobamos a condromalácia.
A Síndrome da Dor Patelofemoral abrange a dor no aspecto anterior do joelho. A condromalácia patelar é uma patologia que acomete a cartilagem e é uma das causas de dor anterior no joelho, mas nem todo paciente com condromalácia patelar sente dor. Por isso, é importante falar sobre os dois termos.
A Síndrome da Dor Patelofemoral é multifatorial. Ela pode ser causada por sobrecarga excessiva ao aumentar a frequência ou a intensidade dos esportes e também por desequilíbrios ou encurtamentos dos músculos anteriores e posteriores da coxa, dos abdutores e dos rotadores externos do quadril.
Também temos como possível causa o valgo dinâmico dos joelhos ou, colocando em termos populares para melhor entendimento, o chamado “joelho junteiro”. A síndrome ainda pode ser causada pela fraqueza da musculatura proximal, o CORE. Existem alterações anatômicas desde o quadril até o pé que favorecem o surgimento da síndrome.
O desenvolvimento da condromalácia ocorre devido a alterações na formação e na estrutura da cartilagem. Entre as causas, estão fatores biomecânicos, como luxação e/ou fratura da patela, alterações anatômicas que levam a subluxações recorrentes e desequilíbrio muscular da musculatura anterior da coxa, o quadríceps.
Também existem fatores bioquímicos que alteram a estrutura da cartilagem, como doenças reumatológicas e hematológicas, infecção articular, imobilização prolongada, entre outras.
Os sintomas são bem inespecíficos. Os pacientes comumente relatam um “desconforto” ou a famosa “dor cansada” na região anterior do joelho. Não é uma dor bem localizada e costuma ser percebida de forma difusa.
Ela pode ser agravada por forças compressivas sobre a articulação patelofemoral, como ao agachar, subir ou descer escadas, permanecer sentado por muito tempo ou correr.
Pode haver crepitação articular, assim como sensação de fraqueza ou falseio durante a realização de atividades físicas. Também é comum encontrarmos nesses pacientes encurtamento muscular.
O diagnóstico diferencial com outras patologias ortopédicas já se inicia durante a anamnese, porque cada doença possui um histórico de trauma, ou a ausência dele, e um mecanismo capaz de gerar determinada lesão.
Alguns diagnósticos, como lesões ligamentares ou meniscais, possuem testes específicos que auxiliam no diagnóstico.
O diagnóstico é realizado por meio de uma anamnese completa e de um exame físico bem-feito, complementados por exames de imagem, como ressonância magnética e tomografia do joelho.
Como citado anteriormente, nem todo paciente com alteração no exame físico possui sintomas e nem todo paciente com sintomas apresenta alterações nos exames de imagem.
O padrão-ouro para os pacientes com Síndrome da Dor Patelofemoral é o tratamento não cirúrgico.
Inicialmente, precisamos que esse paciente melhore do quadro agudo de dor. Então, pode ser prescrito repouso por poucos dias, além de anti-inflamatórios, analgésicos e gelo.
Quando o paciente melhora da dor, a fisioterapia é iniciada, com foco no trabalho de flexibilidade, melhora da rigidez muscular, fortalecimento do quadríceps e da musculatura do quadril.
A fisioterapia é o pilar do tratamento. Quando há falha do tratamento conservador, é importante avaliar se a fisioterapia foi aplicada de forma adequada e se houve uma boa adesão do paciente ao tratamento.
O tratamento cirúrgico é uma exceção nesses casos e, geralmente, é dividido em dois grupos: tratar o mau alinhamento dos membros inferiores ou outras anormalidades do mecanismo extensor e da articulação patelofemoral; e tratar doenças cartilaginosas avançadas.
A cirurgia só é indicada quando há esgotamento de todas as possibilidades de tratamento não cirúrgico e é direcionada a uma causa direta. Por isso, é preciso haver um diagnóstico muito bem estabelecido do fator etiológico.
Creio que é importante deixar uma informação clara neste momento: nem tudo que faz barulho é ruim.
Ouvir ou sentir o joelho crepitar não significa doença se não houver dor ou histórico de trauma associado.
A importância da avaliação com um ortopedista está justamente em desmistificar alguns tabus e prevenir lesões. O ortopedista trata doenças musculoesqueléticas, mas também atua na prevenção.