Por dentro de um DSEI: como o SUS organiza a saúde nos territórios indígenas

Um território, vários municípios e até mais de um país. Entenda como os DSEIs atuam para garantir a saúde dos povos indígenas no Brasil.

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Diferentemente dos postos de saúde, os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) não obedecem os limites dos estados ou municípios. Para prestar assistência médica e sanitária aos povos originários do Brasil, eles obedecem às características geográficas e culturais de cada uma dessas populações. Atualmente, existem 34 DSEIs espalhados pelo território nacional. Um único DSEI pode abranger terras indígenas de diferentes municípios, mais de um estado ou até mesmo mais de um país, ultrapassando a fronteira nacional. É o caso do DSEI Yanomami, por exemplo, que se estende por Roraima, Amazonas e até Venezuela.  

Mas como organizar o atendimento aos povos indígenas dessa maneira?  Dentro de um DSEI, a atenção básica à saúde se divide em núcleos fundamentais, ligados à Divisão de Atenção à Saúde Indígena (DIASI): Análise de Situação de Saúde: responsável pela vigilância em saúde e pela atualização dos sistemas de informação; Planejamento: focado na gestão do trabalho e na educação permanente dos profissionais; Saúde das Mulheres e Crianças: concentra as ações de saúde para esses dois grupos, além da parte de nutrição; Promoção de Saúde: engloba áreas como saúde bucal, mental, sexual e reprodutiva, imunização, medicina tradicional e saúde dos idosos; Prevenção e Controle de Doenças e Agravos: monitora doenças de notificação nacional (como tuberculose, malária e leishmaniose), além de doenças crônicas não transmissíveis (como câncer, diabetes e doenças cardiovasculares) e infecções sexualmente transmissíveis (como HIV, sífilis e HPV). “Toda a organização prática das equipes fica sob a responsabilidade do núcleo 2. É ele que elabora as escalas e determina a quantidade de profissionais designados para cada Polo Base ou Unidade Básica de Saúde Indígena (UBSI)”, explica Carla Rodrigues, médica de família e comunidade da saúde indigena.   O dia a dia de um DSEI As equipes multidisciplinares que atuam nas comunidades indígenas precisam dominar diversas áreas do conhecimento. A partir da estruturação dos programas de saúde, eles executam as ações e reportam os dados. Em territórios mais distantes, as escalas podem durar de 15 a 120 dias ininterruptos. Já nas cidades, o expediente segue o horário comercial. Os Polos Bases e as UBSIs costumam concentrar um número maior de profissionais. A partir delas, as equipes se subdividem e partem para as missões, isto é, visitas domiciliares diretas às aldeias. Nessas situações, elas podem permanecer no local por até dez dias consecutivos para garantir a conclusão de tratamentos mais complexos, como malária e pneumonia. A malária, inclusive, é o problema mais recorrente em territórios indígenas devido às invasões sofridas (especialmente por garimpeiros e pelo narcotráfico). Desnutrição infantil, parasitoses intestinais, bicho-de-pé, acidentes com animais peçonhentos e doenças gastrointestinais também preocupam.   Principais desafios Além dos esforços em saúde, as equipes dos DSEIs enfrentam desafios estruturais. De acordo com a médica, os principais problemas são: falta de integração entre a saúde indígena e a rede especializada: a transferência de pacientes exige um quebra-cabeça burocrático e, mesmo quando dá certo, eles costumam sofrer preconceito, choque cultural e maus tratos dentro dos hospitais, o que os afasta do atendimento; falta de adequação cultural da infraestrutura: limitações licitatórias impedem que as unidades de saúde se adequem às características culturais dos povos indígenas, vetando a criação de espaços mais seguros, confortáveis e sustentáveis para os pacientes; formação médica estritamente hospitalar: formados para focar nas doenças e trabalhar em ambientes controlados, os médicos que atuam em comunidades indígenas enfrentam mais adversidades, menos autonomia de vida e salários abaixo do que os oferecidos nos grandes centros; falta de políticas específicas por níveis de contato: atualmente, o sistema costuma tratar indígenas de recente contato com a mesma lógica daqueles que moram na cidade, o que provoca violências institucionais e biológicas. “Para garantir um atendimento que realmente respeite as especificidades de cada povo, precisamos avançar em várias frentes estruturais. Hoje, embora a saúde indígena devesse ser fundamentada na Atenção Primária, na prática ela é extremamente curativa. Herdamos das gestões antigas da Funasa e da Funai um modelo de ‘frente de atração’: chega-se ao território, entregam-se remédios, fazem-se exames pontuais e a equipe vai embora. Não há longitudinalidade. Eu e a maioria dos colegas quase nunca voltamos à mesma aldeia, o que inviabiliza o vínculo contínuo e o treinamento das equipes locais”, opina Rodrigues. Veja também: SasiSUS: como funciona o SUS para indígenas?The post Por dentro de um DSEI: como o SUS organiza a saúde nos territórios indígenas first appeared on Portal Drauzio Varella.

Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL

FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/saude-publica/por-dentro-de-um-dsei-como-o-sus-organiza-a-saude-nos-territorios-indigenas/
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