Sem sintomas, gordura no fígado com inflamação aumenta risco de problemas cardiovasculares e pode evoluir para cirrose

Gordura no fígado não é inofensiva e sem o tratamento adequado, pode levar à cirrose. Conheça os fatores de risco e saiba os cuidados necessários.

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A gordura no fígado (também chamada de esteatose hepática) é uma comorbidade comum em pessoas com sobrepeso e obesidade, embora essas não sejam as únicas causas. Como não provoca sintomas, o problema pode evoluir de forma silenciosa e levar à diversas complicações de saúde no longo prazo. O assunto foi debatido durante o congresso anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD 2026), realizado em Milão, Itália.  Em entrevista ao Portal Drauzio, Fernanda Canedo, hepatologista, gastroenterologista e gerente médica da Novo Nordisk, explica que a condição é extremamente prevalente: estima-se que 50 milhões de adultos brasileiros tenham gordura no fígado e pelo menos 10 milhões apresentem a esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (ou MASH, na sigla em inglês), uma forma mais grave, quando a doença evolui com inflamação. 

“A gordura no fígado não é ‘só uma gordurinha’. Ela é um marcador de gordura visceral e ectópica. Da mesma forma que se acumula no fígado, está se acumulando nos vasos, coração, rins e pâncreas. O paciente com gordura no fígado já tem aumento de risco cardiovascular, fibrilação atrial, infarto, AVC e morte cardiovascular, independentemente da evolução no fígado”, explica. Ou seja, mesmo quando a pessoa não desenvolve uma doença grave do próprio fígado, o fato de ter gordura no órgão já sinaliza uma alteração metabólica. “Ter gordura no fígado não é normal, em qualquer grau”, completa a médica.   Gordura no fígado é reversível, mesmo avançada Segundo a hepatologista, cerca de 20% a 25% dos pacientes com esteatose vão evoluir para a MASH. A gordura entra nas células hepáticas e passa a causar uma inflamação crônica. Sem tratamento, ela começa a causar cicatrizes (chamadas de fibrose). A fibrose pode ser leve (F1), moderada (F2), avançada (F3) e, no último estágio, cirrose (F4).  Conforme o paciente progride dentro dessa linha, ele tem risco aumentado para câncer de fígado e necessidade de transplante hepático. Mas hoje sabe-se que é possível revertê-la. “[Antes], a gente tinha uma máxima na medicina e na hepatologia de que quando você tinha cicatriz, não tinha mais o que fazer. Hoje a gente sabe que não é assim. Até o processo de fibrose é dinâmico e até determinado momento a gente consegue reverter, desde que você diagnostique — o que é um grande gargalo —, e comece o tratamento adequado precocemente”, esclarece Canedo.  Veja também: Como identificar o excesso de gordura no fígado?   Fatores de risco Os principais fatores de risco para o acúmulo de gordura no fígado são o sobrepeso e a obesidade. Porém, a condição também pode surgir em pessoas que não estão acima do peso. Pré-diabetes, diabetes, colesterol e triglicérides elevados, alterações genéticas e histórico de álcool também podem estar associados ao problema.  Segundo Fernanda Braga Albuquerque, endocrinologista do Serviço de Diabetes da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e membro do Departamento de Advocacy da Associação Brasileira para o Estudo da Síndrome Metabólica e Obesidade (Abeso), o excesso de gordura corporal, especialmente na região abdominal, merece atenção. “Isso acontece porque alterações metabólicas, como a resistência à insulina, podem favorecer a chegada e o armazenamento de gordura no fígado”, explica.  A especialista diz que indivíduos com pré-diabetes ou diabetes tipo 2 devem conversar com seu médico sobre a saúde do fígado. Em muitos casos, é possível fazer uma avaliação inicial simples para estimar o risco de fibrose. “A boa notícia é que cuidar da saúde metabólica — glicose, pressão arterial, colesterol, alimentação, atividade física e peso, quando necessário — também é uma forma de cuidar do fígado.” Em relação ao álcool, especificamente, Canedo destaca que nem toda cirrose é causada por álcool, mas ainda existe um grande estigma em torno desse assunto. “Sobre a cirrose, o álcool é apenas uma das dezenas de causas. Existem causas autoimunes, genéticas, virais, medicamentosas e metabólicas”, afirma.    Mudanças no estilo de vida e alimentação são fundamentais “O tratamento deve ser individualizado, mas a mudança do estilo de vida é a base do cuidado. Alimentação rica em alimentos naturais e pouco processados, atividade física regular, redução ou eliminação do consumo de álcool e, para quem tem excesso de peso, uma redução de peso sustentável (cerca de 5% a 10% do peso) podem diminuir a gordura e a inflamação no fígado”, explica Albuquerque.  Ambas as especialistas reforçam que não há necessidade de mudanças radicais, mas uma reeducação sustentável. Segundo a endocrinologista, pequenas mudanças mantidas ao longo do tempo podem produzir benefícios metabólicos importantes. Embora a dieta mediterrânea seja a mais estudada, de acordo com Canedo, ela é pouco factível para a maioria dos brasileiros. “Defendemos a ‘dieta ancestral brasileira’ [a famosa combinação de arroz, feijão, salada e proteína]. O feijão é riquíssimo em fibras, que atenuam o pico glicêmico do arroz. Ajustando as quantidades e a qualidade dos ingredientes, é uma alimentação protetora e extremamente viável”, detalha. Para a especialista, o Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, é uma excelente ferramenta nesse contexto. O documenta recomenda uma alimentação baseada em alimentos in natura e minimamente processados; os processados devem ser consumidos em quantidade limitada e os ultraprocessados, evitados.  Veja também: O fígado costuma sofrer em silêncio   Tratamento medicamentoso disponível no Brasil  Atualmente, a semaglutida 2,4 mg (comercializada como Wegovy) é o único medicamento aprovado no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o tratamento da MASH em adultos com fibrose moderada a avançada (sem cirrose).  Durante o congresso EASD, foram apresentados dados que indicam que o efeito benéfico para o fígado acontece independentemente da perda de peso. Inclusive, a indicação em bula não tem o IMC como critério, embora a maioria dos pacientes com gordura no fígado esteja acima do peso.  “É muito importante a gente tratar o paciente com sobrepeso ou obesidade com a medicação que tenha benefício hepático porque a gente vai prevenir que [o problema] evolua”, destaca Canedo.  Para Albuquerque, algumas pessoas se beneficiam de medicamentos que atuam sobre o metabolismo e/ou sobre o peso, de acordo com seu quadro clínico. Mas como o remédio é indicado apenas para MASH com fibrose moderada ou avançada, sua indicação não se aplica automaticamente a qualquer pessoa que tenha gordura no fígado. “Quando indicada, a semaglutida deve fazer parte de um plano de cuidado individualizado. Ela não substitui alimentação adequada, atividade física ou acompanhamento médico”, afirma.    A jornalista viajou para o evento a convite da Novo Nordisk. The post Sem sintomas, gordura no fígado com inflamação aumenta risco de problemas cardiovasculares e pode evoluir para cirrose first appeared on Portal Drauzio Varella.

Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL

FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/hepatologia/sem-sintomas-gordura-no-figado-com-inflamacao-aumenta-risco-de-problemas-cardiovasculares-e-pode-evoluir-para-cirrose/
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