Entre no nosso Grupo Whatsapp — Receba as principais notícias do diaParticipar A doula Vivian Pasini, 33 anos, ficou grávida de Luna no início de 2025. Com 22 semanas de gestação, foi fazer o ultrassom morfológico do segundo trimestre, exame que avalia a formação e o desenvolvimento do feto. O resultado mostrou alterações graves no coração, que acabaram provocando problemas em outros órgãos. “Nesse dia, já tivemos um prognóstico bem ruim de sobrevida, pelo jeito que ela estava. A gente fez ainda mais um exame, um ecocardiograma, e o cardiologista fetal falou que ela provavelmente não era um bebê compatível com a vida”, conta Pasini. Segundo a doula, os médicos não sabiam quanto tempo Luna sobreviveria no útero: poderia ser mais um dia, uma semana, um mês ou até o fim da gestação. Ela e o marido receberam a opção de interromper a gravidez, mas decidiram aguardar.
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“Foi o momento mais difícil da minha vida. A primeira e a segunda semana, após o resultado do exame, foram as piores. A gente chorou muito, foi muita revolta, a gente não entendia o que estava acontecendo e por que aquilo estava acontecendo com a gente. Mas tivemos praticamente cinco semanas para elaborar aquilo. E fomos aceitando”, relata. Óbitos fetais no Brasil Pasini não está sozinha. Em 2025, o Brasil registrou 23.585 óbitos fetais, segundo dados do Departamento de Informação e Informática do Sistema Único de Saúde (DataSUS). Em 2026, já foram registrados 14.403. Entre as causas estão problemas relacionados à saúde da mãe que afetam o feto, complicações da gestação e do nascimento, além de condições como a falta de oxigênio para o bebê ainda no útero (hipóxia intrauterina) ou durante o parto (asfixia ao nascer). No ano passado, para garantir um atendimento mais humanizado a pais que passam por essa experiência, o governo federal sancionou a Lei 15.139, que criou a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental. Há também leis estaduais e municipais sobre o assunto. A legislação busca assegurar acolhimento e atendimento a mães e pais que enfrentam uma perda durante a gestação ou após o nascimento. Entre as medidas previstas estão acomodação em ala separada para ter o bebê, investigação das possíveis causas da perda, atendimento psicológico especializado e acompanhamento da saúde mental em futuras gestações. Procedimentos depois do parto Jackeline Claudino Sousa Araujo, psicóloga da UTI neonatal do Hospital de Clínicas (HC) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), explica que, em casos de óbito fetal, o atendimento à mãe deve começar imediatamente, com diálogo, acolhimento e conforto. “Os pais podem ver o bebê e, se desejarem, tirar fotos e guardar lembranças desse momento. Também fazemos registros, como uma cartinha do bebê para os pais e o carimbo das mãozinhas e dos pezinhos. Além disso, procuramos garantir um leito separado das outras mães e oferecemos visitas religiosas, já que muitas famílias valorizam esse apoio”, explica. Na sequência, os profissionais encaminham os pais para acompanhamento psicológico, que pode ser feito nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) de referência, em clínicas, escolas de psicologia e por meio de grupos de apoio ao luto perinatal. O acompanhamento psicológico pode ajudar a mulher a lidar com o sofrimento do luto e com sintomas de ansiedade, depressão, estresse ou trauma, de acordo com suas necessidades. Veja também: Qual é a função de um psicólogo perinatal? “Ficava a noite inteira acordada atenta para ver se ela tinha mexido” Pasini, que já fazia terapia havia algum tempo, continuou o tratamento após a notícia da morte e depois do nascimento de Luna. Ela também recebeu apoio de um psiquiatra. Isso porque, durante a gestação, o principal sinal de que Luna ainda estava viva era a movimentação dela dentro do útero. Pasini conta que precisava ficar atenta aos movimentos para avisar à equipe médica caso percebesse que ela havia parado de se mexer. “Eu não dormia. Ficava a noite inteira acordada, atenta para ver se ela tinha mexido ou não. Fiquei bem ansiosa e acabei, por indicação da minha obstetra, procurando um psiquiatra também. Fiz sessões com ele e comecei a tomar medicação”, conta. Sala separada No dia do parto, Pasini combinou com a obstetra de se internar à noite para evitar o contato com outras gestantes durante o dia. Ela também ficou em uma sala individual, que decidiu contratar. “Depois, o quarto do meu plano de saúde era enfermaria, e a maternidade automaticamente me deixou em um quarto sozinha. Inclusive, não fui incomodada por ninguém na maternidade, só realmente quando era necessário levar alguma medicação ou alguma coisa”, detalha a doula. No mesmo dia do parto de Luna, ela recebeu alta. No dia seguinte, ocorreu o enterro. “Não foi como um pós-parto normal, em que a pessoa fica deitada, pensando. Eu fui ao cemitério e tudo mais. Mas depois a gente ficou em casa o tempo inteiro, pude repousar bastante e, quando deu uns oito, nove dias, eu já estava bem. Consegui dormir e desmamei o medicamento. Mas o atendimento psicológico eu mantive por mais um ano”, conta. Cada pessoa vive o luto de uma maneira Segundo Araujo, cada pessoa enfrenta o luto de uma forma diferente e pode expressar o sofrimento de maneiras distintas. “Tem pais que choram muito, trazem raiva, agressividade. Então, cada um vai expressar esse sofrimento de uma forma, e a gente está ali acolhendo, independentemente de quais sejam essas emoções”, afirma. Segundo Pasini, sua recuperação foi um pouco mais rápida porque ela trabalha como doula e já tinha uma relação profissional com a maternidade. “Na época, eu conversei com outras mulheres que tinham passado por situações similares, que não conseguiam nem ver gestantes, nem ver bebês. Eu não tive isso. Não vou te dizer que foi tranquilo, mas, como eu já trabalho com isso há 11 anos, eu tive sim aquele primeiro impacto, mas logo depois a cabeça já se voltou para o lado profissional”, conta. Recuperação física Mesmo quando o bebê nasce sem vida, a mulher passa pelo puerpério, nome dado ao período de recuperação após o parto. O útero começa a diminuir, ocorre sangramento vaginal, os hormônios da gestação caem e pode haver produção de leite. “Essas mudanças acontecem porque o organismo passou por uma gestação e um parto. A intensidade da recuperação varia conforme o tempo de gravidez, a via de parto e possíveis complicações. É fundamental reconhecer que essa mulher precisa de cuidados de pós-parto, mesmo sem um bebê em casa. Ela está vivendo uma recuperação física ao mesmo tempo que enfrenta uma perda avassaladora emocionalmente”, explica Paula Fettback, ginecologista e obstetra especialista em reprodução assistida pela Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Segundo Fettback, o acompanhamento dessa mãe começa ainda na maternidade, com avaliação do sangramento, da pressão arterial, da dor e das condições gerais da mulher. Antes da alta, ela deve receber orientações claras, um canal para procurar ajuda e um plano de retorno. “Não existe um calendário único para todas. É adequado organizar contato com a equipe nos primeiros dias e uma avaliação inicial, muitas vezes na primeira ou na segunda semana. Quem teve pressão alta, hemorragia, infecção ou outras complicações precisa ser avaliada antes e pode necessitar de retornos mais frequentes”, orienta a especialista. No caso de Pasini, o parto foi normal. Ela conta que teve sim um desconforto físico inicial, mas pouco mais de uma semana depois já estava bem. Veja também: Puerpério exige atenção com a saúde da mulher: conheça os riscos e cuidados necessários após o parto E quando a mulher decide engravidar de novo? Se a mulher decide ter outro filho após a perda, podem surgir ansiedade, insegurança e dificuldade de confiar que a nova gestação terá um desfecho diferente. Nesse caso, segundo especialistas, o acompanhamento psicológico pode ajudá-la a lidar com o medo de uma nova perda. Mas tem a questão médica também, que vale ser investigada. A portaria GM/MS nº 10.273 de 26 de fevereiro de 2026, que detalhou como a política pública de atendimento às mães de natimortos deve funcionar na rede pública, prevê o seguinte: mulheres que vivenciaram perda gestacional, óbito fetal ou neonatal precisam ter acesso aos exames e às avaliações necessárias para investigar a causa do óbito. No caso de Pasini, por exemplo, os médicos fizeram uma investigação e identificaram que ela tem doença autoimune chamada síndrome de Sjögren, caracterizada, entre outros sintomas, por ressecamento dos olhos e da boca. Segundo ela, a doença estava relacionada às alterações que ocorreram na gestação de Luna. Pasini não sabia que tinha a condição. Ela decidiu engravidar novamente, dessa vez já ciente da síndrome. Durante a gestação, começou a tomar uma medicação para impedir que os anticorpos associados à condição atravessassem a placenta e afetassem o bebê. A partir da 16ª semana de gravidez, os médicos passaram a monitorar o coração do feto. “Ela também teve uma pequena alteração, mas, como a gente pegou muito no comecinho, entramos com uma medicação e regrediu. Então, agora, ela é uma bebê completamente normal e saudável. Ela já vai nascer nas próximas semanas”, conta, com alegria. 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Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL