Ultraprocessados podem prejudicar a aprendizagem de crianças e adolescentes
Estudos associam maior consumo de ultraprocessados a pior desempenho escolar e mais sintomas de TDAH. Entenda a relação.
Entre no nosso Grupo Whatsapp — Receba as principais notícias do diaParticipar Por muito tempo, a falta de ferro foi uma das principais causas de queda no rendimento escolar das crianças e adolescentes. Hoje, além da carência de nutrientes, há outra preocupação: o consumo excessivo de ultraprocessados. Estudos recentes mostram que os alimentos ultraprocessados afetam diretamente a cognição. Uma pesquisa espanhola publicada em 2025 encontrou associação entre maior consumo de alimentos ultraprocessados e notas escolares mais baixas em disciplinas como linguagem, matemática e inglês. Os resultados não permitem afirmar que esses alimentos causam pior desempenho acadêmico, mas acendem um alerta. No Brasil, pesquisadores da Coorte de Nascimentos de Pelotas analisaram 3.643 crianças e investigaram a relação entre o consumo alimentar aos 2, 4, 6 e 7 anos de idade e os sintomas de transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Crianças que consumiam mais ultraprocessados em duas das três avaliações apresentaram 16% mais sintomas de TDAH aos 6 e 7 anos. Além disso, dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2019) revelam que o consumo de ultraprocessados no dia anterior está associado a maiores índices de preocupação, irritabilidade, tristeza, ideação suicida e má qualidade do sono. Outros estudos também associam padrões alimentares baseados em alimentos ultraprocessados a pior desempenho em testes de inteligência e em outros domínios cognitivos. O primeiro contato com os ultraprocessados é na infância “Quando a criança consome muito açúcar, por exemplo, no intervalo do recreio, ao retornar para a sala de aula, ela terá mais dificuldade para se concentrar. O excesso de açúcar no sangue gera mais agitação, dificultando a concentração e o aprendizado efetivo. Esse é, inclusive, um dos mecanismos que explicam a diminuição cognitiva. A criança consome um alimento que lhe causa maior dificuldade de concentração e, consequentemente, ela não aprende nem se desenvolve, o que resulta em notas mais baixas”, explicou Maíra Ladeia, nutricionista da Prefeitura de São Paulo, ao Portal Drauzio durante o 8° Congresso Internacional Sabará-Pensi de Saúde Infantil. Maior número de faltas, maior incidência de infecções recorrentes e risco elevado de repetência e de não aderência aos padrões escolares adequados também são fatores associados aos alimentos ultraprocessados. O problema é que esse desequilíbrio começa cedo. Dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI 2019), mostram que mais de 80% das crianças menores de 2 anos haviam consumido pelo menos um alimento ultraprocessado no dia anterior à pesquisa. Na adolescência, o alto índice permanece, como mostram números do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) de 2024. “É justamente nesse momento que se formam os hábitos alimentares. As papilas gustativas, que estão em formação, recebem produtos extremamente doces ou salgados, criando um vício no paladar desde a infância”, alertou Ladeia. Família, escola e governo têm responsabilidade As famílias com menor acesso à educação, à saúde e à informação são as que consomem alimentos com o pior padrão nutricional. A explicação está no preço: alimentos altamente industrializados tendem a ser mais baratos e acessíveis, apesar da qualidade inadequada. “É muito comum que as mães ofereçam produtos açucarados, bolos, refrigerantes e sucos adoçados. São produtos que, na verdade, não deveriam ser utilizados. O primeiro processo educacional ocorre em casa, e é justamente no ambiente doméstico que costumamos encontrar os piores padrões alimentares”, apontou Mauro Fisberg, coordenador do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (Cenda) do Sabará Hospital Infantil e Instituto Pensi. Nas escolas, muitas vezes, a presença de cantinas prioriza a venda desse tipo de alimentos e é comum que o corpo docente utilize doces e chocolates em premiações, lembrancinhas de datas comemorativas ou festas de encerramento. Hoje, a restrição dos ultraprocessados no ambiente escolar fica por conta do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que atende principalmente a rede pública de educação básica e algumas instituições conveniadas. Nelas, os cardápios destinados a crianças menores de três anos não podem conter alimentos ultraprocessados. No entanto, há um projeto de lei nacional em tramitação: a PL 4501/2020, que visa proibir a comercialização, propaganda e promoção desse tipo de alimento em escolas públicas e privadas de todo o país. “Sabemos que existem interesses macroeconômicos envolvidos nessa regulamentação. Mas, se isso for regulamentado, a população ganhará em saúde e qualidade de vida. Trata-se de um conflito de interesses, e, por isso, o projeto de lei arrasta-se lentamente. Desde 2020, ele passa de comissão em comissão, sendo aprovado em diferentes instâncias. Essa lentidão é algo que a sociedade e as crianças não podem esperar. A obesidade infantil é uma realidade, e os estudos comprovam que os problemas já estão ocorrendo. Continuaremos esperando que os interesses econômicos sejam atendidos em detrimento do bem-estar das nossas crianças?”, refletiu Ladeia. Fisberg sugeriu ainda a implementação de um currículo escolar adequado, que substitua ações isoladas, como o “dia do bolo” ou o “dia da fruta”, por uma educação nutricional perene. Veja também: Como proteger sua família dos ultraprocessados | Entrevista com Marion NestleThe post Ultraprocessados podem prejudicar a aprendizagem de crianças e adolescentes first appeared on Portal Drauzio Varella.
Este artigo tem como fonte DRAUZIO VARELLA UOL
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FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/alimentacao/ultraprocessados-podem-prejudicar-a-aprendizagem-de-criancas-e-adolescentes/