A Transformação Digital na Saúde e suas eternas promessas

Entenda por que a Transformação Digital na Saúde ainda enfrenta barreiras e como a falta de padronização de dados limita a eficiência dos hospitais.

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Quero estabelecer um combinado com você, leitor. As reflexões que compartilho sobre Gestão, Tecnologia e Inovação na Saúde, nesta coluna são pessoais, não têm necessariamente relação com a empresa onde atuo. Vamos ao que interessa… Em 1998, fui convidado a trabalhar em um hospital. Apesar de já ter, à época, mais de dez anos de experiência em TI, sentia-me inseguro em relação ao futuro, pois percebia que, na casa dos trinta anos de idade, precisava de conhecimentos e habilidades que me diferenciassem da geração que chegava ao mercado. Talvez hoje, na era da IA e das redes sociais, isso seja mais usual, mas, nos anos 90, sentir-se um dinossauro aos trinta anos era só na TI mesmo. E era assim que eu me sentia, um dinossauro em gestação: ainda dominava as ferramentas da época, mas assistia a uma nova geração chegar com outros conhecimentos e outras formas de trabalhar. No novo mundo da Graphical User Interface e das linguagens orientadas a objetos, quem iria precisar do conhecimento de um coboleiro especializado em Unix? Faltava-me uma especialização em uma indústria, em um segmento. Não podia mais ser o cara que conhecia a linguagem X, o sistema operacional Y. Eu sentia que precisava ser um especialista em determinado business para, então, aplicar meu background tecnológico. “Só que é um hospital, tudo bem?” Foi durante essa fase de reflexão que recebi o contato de um headhunter, que me apresentou uma proposta para trabalhar em uma instituição de saúde. Logo de cara, as palavras dele me chamaram a atenção: “Só que é um hospital, tudo bem?” Estranhei essa abordagem e respondi, surpreso, que, para mim, não fazia nenhuma diferença o fato de ser um hospital. Mas, depois, eu viria a entender o porquê daquela espontaneidade do entrevistador. Saí de uma empresa de capital estrangeiro do setor de telecomunicações, nos primeiros anos da telefonia digital, para trabalhar em um hospital. Para quem está me lendo agora ter uma ideia do que isso significava na época, foi como sair de um caça F-35 para embarcar em um monomotor, daqueles usados nas fazendas pelo Brasil afora. Do choque tecnológico à oportunidade de transformação Os primeiros meses foram chocantes: os processos, o vocabulário, a máquina de café, a plataforma tecnológica, as práticas de gestão… Enfim, tudo remetia aos anos 80, às portas do ano 2000. Mas isso, em vez de me desanimar, fez-me perceber uma oportunidade: havia muito trabalho a fazer e muitas técnicas novas a implantar. O hospital é a única empresa que conheço que não começou seu processo de automação pela atividade-fim. Primeiro, os hospitais informatizaram o faturamento e seus controles internos para, depois, informatizarem o processo de cuidado ao paciente. E mesmo os processos administrativos eram extremamente manuais, quase como se houvesse uma estrutura apenas para registrar os cálculos e os fluxos manuais. Havia, portanto, muitas oportunidades. O início da Transformação Digital: processos digitalizados (não digitais) Há uma nuance entre os conceitos de “digital” e “digitalizado” que faz toda a diferença. De lá para cá, os hospitais se digitalizaram, mas ainda não são digitais. Isso significa que (quase) tudo está no sistema, mas não é o software que conduz o fluxo operacional. Há uma base de dados eletrônica, íntegra e acessível, que contém os dados que gerarão as informações necessárias à gestão, mas essa é uma ação apenas retrospectiva e reativa. Não são as ferramentas digitais que estão à frente da operação, orientando os processos e a comunicação com os stakeholders, mas as pessoas e seus fluxos analógicos. Os dados são gerados depois que isso acontece. No início dos anos 2000, os hospitais, salvo raras exceções, não eram sequer digitalizados. Havia, no máximo, alguma automação na contabilidade, no RH, no faturamento e no financeiro. Perto do final da primeira década deste século, já se podia observar a maioria dos hospitais de grande porte devidamente digitalizada, inclusive nas áreas assistenciais. E ainda hoje é assim. Quer conferir? Vá ao Serviço de Arquivo Médico e Estatística de qualquer hospital. Será uma viagem no tempo. Você verá toneladas de papel armazenadas, com dados que já estão nos bancos de dados desses hospitais. Ou vá até a recepção dessas instituições e verá pacientes sendo submetidos ao processo de assinatura de documentos impressos, mesmo após terem feito seu agendamento e check-in pelo aplicativo ou pelo site do hospital. Mas, pelo menos, há uma cobertura informatizada para toda a operação hospitalar, e esse é um grande avanço. Leia mais sobre Gestão Excesso de processos pode comprometer a eficiência e a segurança na saúde A tabela não é a vilã Liderar para cuidar: por que a saúde precisa formar novas lideranças SB.com Entrevista aproxima lideranças dos principais desafios da saúde O segundo passo da Transformação Digital Se me perguntassem quais hospitais são digitais hoje, eu responderia sem hesitação: nenhum. Há hospitais em diferentes níveis de digitalização de seus fluxos, isso é um fato. Há hospitais utilizando, de maneira cada vez mais intensa, recursos de inteligência artificial, mobilidade e Internet das Coisas sobre um sistema de gestão com prontuário eletrônico e back office. Mas esses hospitais ainda não são digitais. Hoje, o profissional da linha de frente da assistência já pode conversar com o prontuário eletrônico por meio de soluções de reconhecimento de voz. Já pode receber, em vez de 100 imagens médicas, apenas uma: aquela em que a ferramenta de análise de padrões baseada em IA identificou uma alteração. Já pode obter informações sobre interações medicamentosas durante a prescrição, receber alertas sobre possíveis alterações de conduta com base em ferramentas preditivas e contar com barreiras sistêmicas para evitar erros na administração de medicamentos ao paciente. Tudo isso já é possível. Mas boa parte desses recursos — se não a totalidade deles, já disponíveis no mercado — ainda está no gerúndio nos hospitais. As instituições estão, em alguma medida, implantando, desenvolvendo, avaliando… Não são hospitais digitais, mas pretendem ser nos próximos três, cinco ou dez anos. O problema desse cenário é que, há 20 anos, os hospitais também seriam digitais em cinco ou dez anos, e isso não aconteceu. Por quê? Porque o ecossistema de saúde não é digital. Pense em uma instituição financeira: algum banco pode definir seus fluxos internos ou a forma como vai se relacionar com seus clientes? Não. Os bancos precisam seguir as regras determinadas pelos agentes reguladores. O mesmo ocorre na indústria de transformação e de base ou no varejo. A saúde também é muito regulada, mas não há obrigatoriedade de uso de dados digitais nem padrões únicos definidos. Existem padrões e, imediatamente após sua divulgação, criam-se dezenas de subpadrões para que os diferentes players possam acomodar suas peculiaridades no todo, quando deveria ser o contrário. Fico imaginando se o mercado financeiro funcionasse assim: seria um exercício de fé fazer um Pix para outro banco. Poderia dar certo ou não… Felizmente (?), só na saúde os padrões não são padronizados. Acredito que esse fato seja a causa-raiz da insustentabilidade econômica do sistema suplementar e da precariedade do sistema público. Iniciativas como TISS, TUSS, CBHPM, VBH, DRG e tantas outras nasceram, cresceram e ainda não resolveram o problema: o dado não circula, não transita nem é legível nas mesmas bases e segundo os mesmos critérios por todos os entes envolvidos no ecossistema. Daí nascem o desperdício, a perda de eficiência e o desequilíbrio. E a resposta não está mais na tecnologia, se é que esteve algum dia. A resposta está no ambiente de negócios. Quando todos decidirem renunciar a uma parte em benefício do todo, conduzidos por um ente regulador confiável, o ecossistema será digital. Aí, sim, os hospitais serão digitais. Quem se beneficiará com isso? O gestor, o profissional da assistência, mas, sobretudo, o ser humano que precisa de cuidados médicos. The post A Transformação Digital na Saúde e suas eternas promessas appeared first on Saúde Business.

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