Hipertensão em jovens: por que a pressão alta está chegando mais cedo?

Cada vez mais presente entre os jovens, a hipertensão pode passar anos sem provocar sintomas. Dr. Hugo Maués, cardiologista, explica por que medir a pressão é o primeiro passo para descobri-la e iniciar os cuidados necessários.

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Hipertensão não é uma preocupação apenas para depois dos 50 anos

Imagine que você, aos 27 anos, descubra que está com a pressão elevada durante uma consulta de rotina. Não sente nada, pratica exercícios ocasionalmente e acredita que a hipertensão seja uma preocupação para depois dos 50 anos. A primeira reação parece previsível: “Deve ser só o estresse do dia a dia”.

Essa situação ilustra uma armadilha: associar a juventude à proteção contra doenças cardiovasculares. A hipertensão também acomete adultos jovens e pode começar ainda na infância. Como geralmente não provoca sintomas, pode avançar durante anos sem chamar a atenção.

Uma revisão publicada no The Lancet Child & Adolescent Health estimou que a frequência de hipertensão em crianças e adolescentes praticamente dobrou no mundo entre 2000 e 2020, passando de aproximadamente 3% para 6%. São estimativas internacionais, não números específicos do Brasil, mas ajudam a entender por que precisamos prestar atenção à pressão arterial desde cedo.

Para compreender esse avanço, é necessário olhar tanto para a herança familiar quanto para as condições em que vivemos. Filhos de pais hipertensos apresentam maior predisposição, mas os genes não explicam tudo. O excesso de peso, a falta de atividade física, o consumo excessivo de álcool e uma alimentação rica em sódio favorecem o aumento da pressão. Muitas vezes, esses fatores estão presentes desde a adolescência.

Alimentação, peso e sono também influenciam a pressão arterial

O sal merece atenção, inclusive aquele que não vemos. Alimentos embutidos, macarrão instantâneo, temperos prontos e refeições industrializadas podem fornecer muito sódio sem que a pessoa acrescente uma única pitada de sal à comida. Reduzir esse consumo e controlar o peso fazem parte das recomendações atuais das diretrizes de cardiologia para prevenir e tratar a hipertensão.

Além da alimentação e da atividade física, o sono precisa entrar na conversa. Roncar alto, apresentar pausas na respiração durante a noite e passar o dia sonolento são sinais que podem indicar apneia obstrutiva do sono. Essa condição pode contribuir para a elevação da pressão arterial e merece investigação, especialmente em jovens
com obesidade.

Em jovens, é importante investigar possíveis causas secundárias

Entretanto, a avaliação de uma pessoa jovem com hipertensão precisa ir além dos hábitos de vida. Doenças dos rins, alterações hormonais e determinados medicamentos ou substâncias também podem elevar a pressão. Identificar essas causas secundárias pode mudar o tratamento.

Um estudo publicado na revista Hypertension, em 2024, avaliou 2.090 hipertensos entre 18 e 40 anos e encontrou causas secundárias em cerca de 30% deles. Isso nos mostra por que não devemos encerrar a avaliação com a explicação de que “é coisa de família” ou “é só ansiedade”.

Antes dessa investigação, porém, é preciso confirmar se existe realmente hipertensão. A pressão varia ao longo do dia e pode subir durante situações de esforço, dor ou tensão emocional. Por isso, uma aferição isolada, em geral, não basta para estabelecer o diagnóstico.

É necessário medir a pressão com técnica adequada e repetir a avaliação. Em algumas situações, o médico solicita a MAPA, que registra a pressão durante as atividades do dia e durante o sono, ou a MRPA, realizada em casa conforme protocolo específico. Esses exames ajudam a esclarecer se a elevação da pressão persiste fora do consultório.

Os valores de pressão também orientam o acompanhamento

A diretriz brasileira de 2025 mantém, para adultos, o diagnóstico de hipertensão no consultório a partir de 140 mmHg de pressão sistólica e/ou 90 mmHg de pressão diastólica: o conhecido “14 por 9”, desde que confirmado adequadamente. Valores inferiores a esse limite, mas entre 120 e 139 mmHg de sistólica e/ou 80 e 89 mmHg de diastólica, são classificados como pré-hipertensão. Isso não significa que todos precisarão tomar medicamentos, mas indica que já existe uma oportunidade de intervir e acompanhar mais de perto esses indivíduos.

Confirmado o diagnóstico, a pouca idade não deve diminuir a atenção ao problema. Aos 27 anos, um infarto ou um AVC pode parecer uma preocupação distante. Mas a pressão elevada, quando persistente, expõe o coração, os vasos sanguíneos e os rins a uma sobrecarga que pode durar décadas.

O cuidado precoce ajuda a proteger a saúde no longo prazo

O cuidado inclui melhorar a alimentação, reduzir o consumo de sódio, controlar o peso, diminuir ou evitar o álcool e praticar exercícios regularmente. Para adultos, a recomendação geral inclui pelo menos 150 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, associados a exercícios de força, conforme as condições individuais. Quando indicados, os medicamentos também devem fazer parte desse cuidado.

A hipertensão descoberta na juventude merece atenção desde o diagnóstico, mesmo quando não há sintomas. Medir a pressão, investigar suas causas e manter o tratamento são atitudes que ajudam a proteger o coração, o cérebro e os rins ao longo da vida. Não é preciso esperar envelhecer para começar a se cuidar. Afinal, a saúde que teremos daqui a 20 ou 30 anos também depende das escolhas que fazemos hoje.


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