Primeiramente, gostaria de agradecer o convite do Portal Médico em Alta. Espero poder trazer aos leitores informações importantes sobre a hipertensão arterial, doença de suma importância para a saúde pública.
A minha decisão pela Cardiologia aconteceu logo no terceiro semestre da faculdade de Medicina, na UFPA. Na época, estudávamos anatomia e fisiologia do sistema cardiovascular, e eu percebi que tudo era muito lógico: o coração funciona como uma bomba hidráulica, dessas que temos em casa, e os vasos sanguíneos são o encanamento que leva água, ou sangue, para os diversos cômodos da casa, que seriam os órgãos.
Pensando assim, fica fácil entender o funcionamento do sistema cardiovascular e suas doenças. Por exemplo: a insuficiência cardíaca é um defeito da bomba; o infarto é um entupimento no encanamento.
Desde então, segui focado no meu propósito: fiz liga acadêmica de Cardiologia, meu trabalho de conclusão de curso na residência de Clínica Médica foi na área da Cardiologia e, posteriormente, fiz a residência de Cardiologia no Hospital de Clínicas Gaspar Vianna.
Hoje, sabendo que as doenças do sistema cardiovascular são as mais prevalentes e apresentam maior morbimortalidade, não poderia estar mais realizado, pois contribuo diariamente para prevenir e tratar essas enfermidades.
A hipertensão arterial é uma doença silenciosa, porque a pessoa não costuma apresentar sintomas, mesmo quando a pressão permanece elevada por meses ou anos. Mas a ausência de sintomas não significa ausência de danos.
O mecanismo é relativamente simples: a cada batimento, o coração precisa vencer uma pressão maior para bombear o sangue. Com o passar do tempo, essa sobrecarga pode provocar alterações na estrutura e no funcionamento do músculo cardíaco, que tende a aumentar de tamanho, ou hipertrofiar, para manter a distribuição adequada de sangue.
Por algum tempo, esse mecanismo compensatório funciona, mas, depois, pode levar à formação de fibrose e rigidez, tornando o coração menos complacente e dificultando seu enchimento durante o relaxamento, a diástole.
Além disso, a hipertensão favorece o processo de aterosclerose, que é a formação de placas de gordura nas artérias. Isso pode levar ao estreitamento dos vasos sanguíneos, à trombose e a doenças como o infarto agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral, o AVC.
Atualmente, a pressão considerada normal é inferior a 120/80 mmHg. Qualquer valor acima desse ponto de corte já acende um sinal de alerta.
As pessoas com pressão sistólica de 120–139 mmHg e/ou diastólica de 80–89 mmHg são classificadas como pré-hipertensas e são recomendadas mudanças no estilo de vida, como:
● Controle do peso corporal (manter o IMC abaixo de 25 kg/m2);
● Alimentação saudável (priorizar a dieta DASH — Dietary Approaches to Stop
Hypertension);
● Redução do consumo de sal (consumir menos de 2 g de sódio por dia, o equivalente
a menos de 5 g de sal por dia);
● Aumento do consumo de potássio na alimentação;
● Atividade física regular (150 minutos semanais de atividade aeróbica moderada ou
75 minutos de atividade vigorosa);
● Redução do consumo de álcool;
● Cessação do tabagismo;
● Controle do estresse;
● Sono adequado e manutenção de conexões sociais.
Estresse, consumo excessivo de sal e sedentarismo têm impacto no aumento dos níveis pressóricos, mas, se eu tivesse que eleger o pior, escolheria o sedentarismo.
Pessoas sedentárias costumam ter menos interação social e conviver com uma carga de estresse maior. Tendem a se alimentar mal, às vezes consumindo alimentos ultraprocessados com elevado teor de sódio. Ganham peso porque não conseguem gastar as calorias que consomem.
Logo, vemos uma cascata de eventos que levam ao aumento dos níveis pressóricos e do risco cardiovascular.
Hoje, o tratamento medicamentoso está indicado para todos os pacientes hipertensos, com pressão arterial maior ou igual a 140/90 mmHg, desde o diagnóstico.
A exceção são os idosos com mais de 80 anos que apresentam fragilidade, histórico de hipotensão ortostática ou baixa expectativa de vida. Nesses casos, a conduta deve ser individualizada.
Outra indicação de tratamento medicamentoso é para os pacientes com pressão arterial entre 130–139/80–89 mmHg e alto risco cardiovascular, quando não há controle dos níveis pressóricos, com meta menor que 130/80 mmHg, após três meses de mudanças no estilo de vida.
Uma vez controlada com medicamento, a pessoa não deve simplesmente parar de tomar a medicação quando a pressão normalizar.
A hipertensão arterial é uma doença crônica. Em outras palavras, pode ser controlada, mas não tem cura. Se o medicamento for descontinuado, os níveis pressóricos tendem a voltar a subir.
Meu recado é: não espere sentir algo para cuidar do seu coração. A hipertensão é, na maioria das vezes, silenciosa, mas causa danos progressivos ao coração, aos rins e ao cérebro, mesmo quando você se sente perfeitamente bem.
Estar sem sintomas não significa estar protegido. O acompanhamento regular permite avaliar se a pressão está controlada, identificar precocemente possíveis lesões nos órgãos e ajustar o tratamento quando necessário.
Além disso, adotar hábitos saudáveis e usar corretamente as medicações prescritas são atitudes fundamentais para reduzir o risco de infarto, AVC e insuficiência cardíaca.