Hemorragia subaracnoide: especialista esclarece os principais sinais, diagnóstico e tratamento

A pior dor de cabeça da vida não é força de expressão. Pode ser um aneurisma cerebral que acabou de romper, e, a partir desse instante, cada minuto conta.

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“Foi como uma pancada na cabeça.”

É assim que muitos pacientes descrevem o momento em que tudo começa. Não há aviso nem piora gradual: a dor é explosiva e atinge a intensidade máxima em segundos. Muitas vezes, o que acaba de acontecer é a ruptura de um aneurisma cerebral, e o sangue que se espalha ao redor do cérebro dá origem à hemorragia subaracnoide (HSA), uma das emergências mais graves da medicina.

O que é a hemorragia subaracnoide
O cérebro é envolvido por membranas e banhado pelo líquor, que circula no espaço subaracnoide. Descartados os traumatismos, cerca de 85% dos sangramentos nesse espaço são causados pela ruptura de um aneurisma, uma dilatação em forma de “bolha” na parede de uma artéria cerebral. Estima-se que cerca de 3% dos adultos tenham um aneurisma, a maioria sem saber. Grande parte nunca vai romper. Mas, quando se rompe, a história muda completamente.

Antes e depois da ruptura: duas doenças diferentes
Faço questão de deixar isto claro aos meus pacientes: um aneurisma íntegro e um aneurisma roto não são o mesmo problema em momentos diferentes. São, na prática, duas doenças distintas.

O aneurisma descoberto antes de romper permite tempo: avaliar com calma, calcular o risco, decidir junto com o paciente e, quando indicado, programar o tratamento. Em centros experientes, o risco de complicações do tratamento eletivo é baixo, e a maioria volta para casa em poucos dias.

Depois da ruptura, o cenário é outro. Cerca de um em cada oito pacientes morre antes de chegar ao hospital, e a mortalidade nas primeiras semanas gira em torno de um terço.

Entre os sobreviventes, uma parcela expressiva (até metade, em algumas séries) convive com sequelas: perda de força, falhas de memória e de linguagem, dificuldade para voltar ao trabalho e à vida de antes.

E o sangramento inicial é apenas o primeiro golpe. Nos dias seguintes surgem três ameaças tão graves quanto a ruptura:

• Ressangramento: o aneurisma ainda aberto pode sangrar de novo, com risco maior nas primeiras horas e mortalidade altíssima.
• Hidrocefalia: o sangue bloqueia a circulação do líquor e eleva a pressão dentro do crânio.
• Vasoespasmo e isquemia cerebral tardia: entre o 3o e o 14o dia, as artérias podem se contrair e provocar um AVC isquêmico, mesmo com o aneurisma já tratado.

Tratar um aneurisma antes da ruptura é prevenção. Tratar depois da ruptura é um resgate. Entre uma situação e outra pode estar a diferença entre uma vida preservada e uma vida transformada para sempre.

Os sinais que não podem ser ignorados
• Dor de cabeça súbita e intensíssima, “a pior da vida”, que chega ao pico em segundos;
• Náuseas e vômitos;
• Rigidez na nuca e incômodo com a luz;
• Desmaio, sonolência, confusão mental ou convulsão;
• Visão dupla ou queda de uma das pálpebras.
Atenção também à cefaleia sentinela: dias ou semanas antes, alguns pacientes têm uma dor súbita e forte que melhora sozinha. Pode ser um pequeno sangramento de aviso e merece investigação imediata.

Como é feito o diagnóstico
O primeiro exame é a tomografia de crânio sem contraste, que detecta o sangue na grande maioria dos casos nas primeiras horas. Se a suspeita for forte e a tomografia vier normal, pode ser necessária a punção lombar. Para localizar o aneurisma, usa-se a angiotomografia, mas o padrão-ouro é a angiografia cerebral digital, que permite, no mesmo procedimento, planejar ou já realizar o tratamento.

Tratamento: tempo é cérebro
O objetivo é excluir o aneurisma da circulação o mais rápido possível, idealmente nas primeiras 24 horas. Há dois caminhos: a microcirurgia, com clipagem do aneurisma, e o tratamento endovascular, feito por dentro dos vasos, sem abrir o crânio. Por uma punção na virilha ou no punho, um microcateter chega ao aneurisma, que é preenchido com molas de platina, às vezes com apoio de stents, balões ou desviadores de fluxo. Grandes estudos mostraram que, em aneurismas adequados às duas técnicas, a embolização se associa a melhores resultados funcionais. A escolha, porém, deve ser sempre individualizada por uma equipe experiente.

Tratado o aneurisma, a batalha continua na UTI neurológica, com nimodipino, vigilância do vasoespasmo (tratado, se preciso, com angioplastia ou vasodilatadores aplicados diretamente nas artérias) e controle da hidrocefalia.

Quem deve ficar mais atento
Hipertensão, tabagismo (o principal fator de risco modificável), excesso de álcool, dois ou mais parentes de primeiro grau com aneurisma e doença renal policística aumentam o risco. Controlar a pressão e parar de fumar são formas concretas de proteção.

Quando procurar ajuda, sem esperar
Dor de cabeça súbita, explosiva e diferente de qualquer outra que você já sentiu é emergência. Ligue 192 (SAMU) ou vá imediatamente a um pronto-socorro com tomografia. Não dirija, não espere a dor passar com analgésico e não tome anti- inflamatórios ou AAS por conta própria. Ao chegar, diga com todas as letras: “tive uma dor de cabeça súbita, a pior da minha vida”.

Um aneurisma que rompe raramente oferece uma segunda chance. Reconhecer os sinais e agir rápido é o que separa a recuperação de sequelas permanentes. E, se você já sabe que tem um aneurisma ou tem casos na família, não espere o alarme tocar: procure avaliação especializada enquanto o problema ainda é eletivo.


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