Sou formada em Medicina há 30 anos e sempre fui fascinada pelos procedimentos cirúrgicos. Ao longo da minha trajetória, vivenciei de perto as expectativas, os medos e os desafios enfrentados pelas pacientes diante de diferentes doenças.
Foi essa experiência que despertou minha empatia pelo tema do câncer de mama e me motivou a buscar a especialização em Mastologia, com o objetivo de aprofundar meus conhecimentos e oferecer um planejamento de tratamento cada vez mais adequado às necessidades de cada paciente.
O câncer de mama ainda carrega um estigma muito forte, sendo frequentemente associado a uma sentença definitiva. Entretanto, a Medicina mostra que essa realidade pode ser diferente, principalmente quando a doença é identificada precocemente.
Assim como acontece com a maioria das doenças neoplásicas, o câncer de mama apresenta chances de cura que podem ultrapassar 95% em determinados casos diagnosticados em estágios iniciais.
Por isso, considero fundamental a realização da mamografia, associada à atenção aos sinais suspeitos que possam surgir nas mamas. Quanto mais cedo identificamos a doença, maiores são as possibilidades de um tratamento eficaz.
Existem diferentes fatores que contribuem para o desenvolvimento do câncer de mama. Embora alguns não possam ser modificados, outros estão diretamente relacionados aos hábitos de vida e podem ser controlados ao longo dos anos.
Entre os principais fatores modificáveis, destaco:
A adoção de hábitos mais saudáveis é uma medida importante para reduzir a exposição a esses fatores e contribuir para a prevenção da doença.
Na minha orientação sobre o rastreamento, destaco a realização da mamografia a cada dois anos a partir dos 40 anos de idade, considerando também a avaliação individual de cada paciente.
Além dos exames de imagem, considero muito importante que a mulher conheça o próprio corpo e esteja atenta às mudanças nas mamas.
Sinais como irritação mamária que não melhora, nódulos persistentes ou que apresentam crescimento precisam ser investigados.
O autoexame e a observação das mamas ajudam a reconhecer alterações, mas não substituem a mamografia nem a avaliação médica.
Costumo destacar que o estilo de vida funciona como um modulador biológico, influenciando os hormônios, os processos inflamatórios e o funcionamento do sistema imunológico.
A obesidade, por exemplo, merece atenção especial. Após a menopausa, o tecido adiposo passa a ser uma importante fonte de produção de estrogênio no organismo. O excesso de peso também favorece processos inflamatórios crônicos, que podem contribuir para o desenvolvimento de determinados tumores.
O consumo de álcool é outro fator relevante, pois pode elevar os níveis de estrogênio circulante e favorecer a formação de acetaldeído, uma substância reconhecida como carcinogênica.
O sedentarismo e a falta de atividade física também prejudicam o metabolismo e podem favorecer alterações no funcionamento do organismo.
Da mesma forma, uma alimentação caracterizada pelo consumo frequente de produtos ultraprocessados pode contribuir para o estresse oxidativo e para o aumento de riscos à saúde.
Quando o câncer de mama já foi diagnosticado, a manutenção de hábitos saudáveis continua sendo importante. A alimentação adequada e a prática de atividades físicas, respeitando as condições clínicas de cada paciente, podem contribuir para a tolerância aos tratamentos oncológicos e para o controle de alguns efeitos colaterais.
O exercício físico, por exemplo, pode ajudar a reduzir a fadiga relacionada ao câncer e favorecer o bem-estar durante o tratamento.
Por isso, reforço que cuidar da saúde não deve ser uma preocupação apenas antes do diagnóstico, mas também durante e após o tratamento.
Atualmente, contamos com diferentes possibilidades de tratamento cirúrgico para o câncer de mama. A escolha da abordagem depende principalmente do tamanho do tumor no momento do diagnóstico e da avaliação individual de cada paciente.
Entre as opções, estão as cirurgias conservadoras, que permitem retirar o tumor preservando parte da mama, e a mastectomia, que consiste na retirada da mama.
Cada caso precisa ser estudado individualmente, considerando também a possibilidade de reconstrução mamária.
Meu objetivo é buscar a abordagem mais adequada para cada paciente, respeitando suas necessidades e as características da doença.
O cuidado com a paciente não termina quando o tratamento do câncer de mama é concluído. O acompanhamento a longo prazo é fundamental para monitorar a saúde e identificar possíveis alterações.
Esse monitoramento envolve consultas médicas regulares, realização dos exames indicados, manutenção da atividade física e suporte psicológico.
Considero importante que a paciente continue recebendo atenção integral, tanto em relação à saúde física quanto ao bem-estar emocional.
Se eu pudesse deixar uma mensagem para as mulheres que ainda têm medo de procurar atendimento, seria esta: não permitam que o medo adie o cuidado com a própria saúde.
Entendo que o receio de receber um diagnóstico de câncer é perfeitamente humano e aceitável. Entretanto, esse medo pode atrasar a investigação e, consequentemente, o início do tratamento.
O diagnóstico precoce é um dos nossos maiores aliados no enfrentamento do câncer de mama, pois amplia significativamente as possibilidades de tratamento e cura.
Buscar ajuda médica diante de qualquer sinal suspeito é um gesto de cuidado com a própria vida.