Danos causados pelo sol na pele podem ser recuperados?

Dra. Tércia Campos, dermatologista e oncodermatologista, explica os impactos da exposição solar acumulada, os tratamentos disponíveis e a importância da prevenção do câncer de pele

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Danos causados pelo sol na pele podem ser recuperados?
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Minha trajetória na Dermatologia e Oncodermatologia

Sou médica formada pela Universidade Federal do Pará há 22 anos, dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, com especialização em Oncodermatologia pelo Hospital Israelita Albert Einstein e membro do Grupo Brasileiro de Melanoma.

A dermatologia é uma área que exige estudo constante, raciocínio clínico e muita atenção aos detalhes. Muitas doenças de pele podem ter apresentações muito semelhantes, e esse desafio de investigar, construir hipóteses diagnósticas e chegar ao diagnóstico correto continua sendo uma das partes que mais me motiva.

Saber que um diagnóstico feito na hora certa pode mudar completamente a evolução da doença e a vida daquela pessoa é o que torna a Oncodermatologia tão especial para mim.

Os principais danos causados pela exposição solar acumulada

Na prática clínica, os danos mais comuns são os lentigos solares, popularmente conhecidos como manchas de sol ou manchas da idade, as rugas, perda de firmeza, alteração da textura e da luminosidade da pele e as queratoses actínicas, que são lesões ásperas, que podem ser avermelhadas, que surgem em áreas cronicamente expostas ao sol, como rosto, couro cabeludo, orelhas, colo, braços e dorso das mãos e têm potencial de transformação para um tipo específico de câncer de pele, o carcinoma espinocelular.

Essas alterações fazem parte do fotodano causado principalmente pela exposição repetida à radiação ultravioleta ao longo da vida. Além dos sinais visíveis, essa radiação degrada as fibras de colágeno e elastina e provoca danos ao DNA das células da pele, favorecendo o envelhecimento precoce e aumentando o risco de câncer de pele.

Por isso, quando avaliamos uma pele fotoenvelhecida, não estamos avaliando apenas sua aparência. Estamos identificando sinais de uma exposição solar acumulada que podem orientar condutas de prevenção, acompanhamento e tratamento.

Nem todos os danos causados pelo sol são irreversíveis

Depende do tipo de dano.

Algumas alterações, como manchas superficiais, textura irregular e parte da degradação do colágeno, podem melhorar bastante com tratamentos adequados e principalmente com a interrupção da agressão solar.

Por outro lado, alterações genéticas acumuladas nas células não podem simplesmente ser apagadas. Isso significa que quem teve muitos anos de exposição continua apresentando maior risco para câncer de pele ao longo da vida.

No entanto, mesmo quando não conseguimos reverter completamente o dano, é possível reduzir sua progressão, tratar alterações já existentes e diminuir significativamente o risco de novas lesões.

Tratamentos para reverter ou controlar os danos solares acumulados

Hoje dispomos de diversos tratamentos capazes de melhorar os sinais do dano solar. A escolha depende do tipo de alteração que o paciente apresenta, da intensidade do fotoenvelhecimento e da presença ou não de lesões precursoras do câncer de pele.

Em alguns casos, utilizamos medicamentos tópicos para promover a renovação celular e tratar alterações pigmentares. Em outros, procedimentos como peelings químicos, lasers e outras tecnologias ajudam a melhorar manchas, textura, qualidade da pele e estimular a produção de colágeno.

Quando aparecem as queratoses actínicas, o tratamento deixa de ter apenas um objetivo estético. Essas lesões são consideradas precursoras do carcinoma espinocelular, um dos tipos mais comuns de câncer de pele, e por isso devem ser diagnosticadas e tratadas precocemente.

Além de tratar as lesões visíveis, muitas vezes é necessário tratar também o chamado campo de cancerização, que é toda a área da pele que sofreu dano solar crônico e que pode abrigar alterações microscópicas, ou seja, que ainda não são perceptíveis ao exame clínico.

Para isso, dispomos de medicamentos tópicos, orais e outras terapias que ajudam a reduzir esse dano acumulado e o surgimento de novas lesões.

Mas gosto sempre de reforçar que nenhum procedimento substitui a fotoproteção. A melhor abordagem é aquela que associa um diagnóstico preciso, medidas de fotoproteção e um tratamento individualizado.

Quando uma alteração deixa de ser apenas estética

Na verdade, essa divisão nem sempre existe. Muitas vezes, uma alteração que o paciente acredita ser apenas uma mancha de sol ou um sinal do envelhecimento pode representar uma lesão precursora do câncer de pele ou até um câncer em fase inicial.

Durante a consulta, avaliamos não apenas a aparência da lesão, mas também sua evolução, localização e características clínicas. Além disso, utilizamos a dermatoscopia, um exame não invasivo realizado com um aparelho que amplia as estruturas da pele e permite visualizar detalhes invisíveis a olho nu.

Esse exame aumenta significativamente a acurácia diagnóstica e nos ajuda a identificar lesões suspeitas ainda em fases muito iniciais.

Quando existe suspeita clínica ou dermatoscópica, a biópsia com análise histopatológica continua sendo o padrão-ouro para confirmação do diagnóstico.

Esse exame permite avaliar as células da lesão ao microscópio e definir com precisão o diagnóstico, orientando o tratamento mais adequado.

Nosso objetivo é fazer esse diagnóstico o mais cedo possível, quando o tratamento costuma ser menos invasivo e com maiores chances de cura.

A diferença entre queratoses actínicas e manchas solares

Embora ambas estejam relacionadas à exposição solar, elas têm comportamentos completamente diferentes.

Os lentigos solares são alterações da pigmentação da pele e, na maioria das vezes, quando tratados, o objetivo é estético. Já as queratoses actínicas devem ser identificadas e tratadas, pois são consideradas potenciais precursoras do carcinoma espinocelular, um dos tipos mais comuns de câncer de pele.

A avaliação é feita durante a consulta dermatológica, por meio de uma anamnese detalhada, do exame físico completo da pele e da dermatoscopia.

Procuramos conhecer o padrão de exposição solar ao longo da vida, a profissão, os hábitos de fotoproteção, a ocorrência de queimaduras solares, além dos antecedentes pessoais e familiares de câncer de pele. Essas informações são fundamentais para avaliar o risco individual de cada paciente.

Com esse conjunto de dados, conseguimos definir quais lesões podem apenas ser acompanhadas, quais precisam de tratamento e quais necessitam de investigação mais profunda.

O primeiro passo para quem passou anos sem usar protetor solar

O primeiro passo é fazer uma avaliação dermatológica completa. Mais do que identificar manchas ou sinais de envelhecimento, essa consulta permite avaliar o grau do dano solar acumulado, identificar lesões que merecem acompanhamento ou tratamento e avaliar o risco individual para o desenvolvimento do câncer de pele.

A partir dessa avaliação, o dermatologista define quais medidas são mais indicadas para cada paciente. Isso pode incluir orientações sobre fotoproteção, acompanhamento periódico e, quando necessário, o tratamento das alterações já existentes, sejam elas estéticas ou com potencial de evolução para câncer de pele.

O mais importante é entender que nunca é tarde para começar. Mesmo após muitos anos de exposição solar, adotar hábitos de fotoproteção e tratar os danos existentes reduz o surgimento de novas alterações e aumenta as chances de identificar lesões com potencial de malignidade ainda nas fases iniciais.

Nunca é tarde para começar a cuidar da pele

Eu diria para não desistir de cuidar da pele. Embora alguns danos provocados pela radiação ultravioleta não possam ser completamente revertidos, a pele tem uma importante capacidade de regeneração quando recebe os cuidados adequados.

Hoje sabemos que é possível melhorar sua qualidade, tratar lesões precocemente e reduzir o surgimento de novas alterações relacionadas ao dano solar.

Por isso, nunca é tarde para procurar um dermatologista. Quanto mais cedo identificamos e tratamos essas alterações, maiores são as chances de evitar complicações e, principalmente, de diagnosticar precocemente o câncer de pele, quando as chances de cura são muito elevadas.

Além disso, adotar hábitos de fotoproteção continua fazendo diferença em qualquer idade. O dano acumulado no passado não pode ser apagado, mas as escolhas feitas a partir de hoje podem mudar a saúde da pele no futuro.

 


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