A Dermatologia sempre me encantou por ser uma especialidade que une saúde, autoestima e qualidade de vida de uma forma muito visível. Sou formada em Medicina, com residência em Dermatologia, e hoje dedico meu dia a dia principalmente à dermatologia clínica e à cosmiatria, com atenção especial aos distúrbios de pigmentação, como o melasma.
Escolhi essa área porque acredito que a pele também conta histórias, e poder ajudar o paciente a recuperar a saúde da pele e a confiança ao se olhar no espelho é extremamente gratificante.
O melasma é uma hiperpigmentação crônica e adquirida, caracterizada por manchas acastanhadas ou acinzentadas, geralmente simétricas, que aparecem principalmente em regiões como testa, bochechas, buço e queixo.
Ele é muito mais complexo do que uma simples “mancha de sol”. A exposição à radiação ultravioleta e à luz visível tem papel importante, mas também estão envolvidos mecanismos hormonais, inflamatórios, vasculares e alterações relacionadas ao envelhecimento da pele.
Além disso, o melasma costuma ser extenso, simétrico e apresentar tendência à recorrência. Já outras causas de hiperpigmentação, como as melanoses solares, geralmente apresentam lesões mais bem delimitadas e individualizadas.
Por isso, uma avaliação dermatológica é importante para diferenciar o melasma de outras doenças que também podem causar manchas.
O melasma é multifatorial. Entre os principais fatores associados estão a exposição à radiação ultravioleta e à luz visível, predisposição genética e fatores hormonais. Gravidez e uso de alguns anticoncepcionais, por exemplo, podem estar relacionados ao surgimento ou à piora das manchas.
Também observamos a influência de fatores ambientais, como calor e exposição solar intensa. Pessoas com fototipos mais altos apresentam maior predisposição, e isso é especialmente relevante na nossa região, onde temos elevada exposição solar durante boa parte do ano.
Durante a consulta, avalio a distribuição, a simetria, a coloração das manchas, o histórico do paciente e possíveis fatores desencadeantes.
A dermatoscopia pode acrescentar informações importantes na avaliação. A luz de Wood também pode ser utilizada em alguns casos, embora não seja capaz, isoladamente, de determinar com precisão a profundidade do pigmento.
Esses recursos funcionam como ferramentas complementares à avaliação clínica e ajudam no planejamento individualizado do tratamento.
O tratamento costuma envolver uma combinação de estratégias e pode ser dividido, de forma didática, em três frentes.
A primeira é o tratamento tópico, que continua sendo uma das principais bases terapêuticas. Dependendo do caso, podemos utilizar ativos como hidroquinona, retinoides, ácido tranexâmico tópico, niacinamida, cisteamina e outros agentes despigmentantes.
A segunda possibilidade é o tratamento sistêmico. O ácido tranexâmico oral pode ser considerado em pacientes selecionados, principalmente em casos mais resistentes, mas exige avaliação médica criteriosa porque existem contraindicações e fatores de risco que precisam ser analisados.
A terceira envolve procedimentos, como determinados peelings químicos, microagulhamento associado ou não ao drug delivery e algumas tecnologias a laser.
Esses tratamentos devem ser individualizados, porque procedimentos muito agressivos ou inadequadamente indicados podem provocar inflamação e piorar a pigmentação.
Não existe uma “bala de prata” para o melasma. Existe um plano de tratamento personalizado, que considera o tipo de pele, a intensidade das manchas, os fatores desencadeantes e a resposta de cada paciente.
O melasma não envolve apenas o aumento da produção de melanina. Existem alterações complexas na interação entre melanócitos, queratinócitos, vasos sanguíneos e mecanismos inflamatórios da pele, além dos efeitos cumulativos da exposição solar.
Por isso, mesmo quando conseguimos clarear bastante as manchas, a pele continua predisposta à pigmentação. É uma condição crônica e recorrente.
Gosto de explicar aos pacientes que o objetivo não é apenas clarear, mas controlar a doença e manter os resultados a longo prazo.
A fotoproteção é um dos pilares fundamentais do tratamento. Para quem tem melasma, não basta pensar apenas na proteção contra a radiação ultravioleta. A exposição à luz visível também pode contribuir para a pigmentação, especialmente em pessoas predispostas.
Por isso, geralmente recomendamos um protetor solar de amplo espectro, com FPS adequado e, preferencialmente, com cor e pigmentos que ofereçam proteção adicional contra a luz visível.
A aplicação precisa ser feita em quantidade adequada e reaplicada de acordo com o nível de exposição, especialmente quando há contato com água, suor ou exposição solar prolongada.
Outro ponto importante é lembrar que a fotoproteção não se resume ao protetor: chapéus, óculos, sombra e redução da exposição direta ao sol também fazem parte da estratégia.
Muda principalmente a forma como o paciente passa a enxergar o tratamento. O melasma exige constância.
A fotoproteção precisa fazer parte da rotina, assim como o tratamento de manutenção prescrito pelo dermatologista. Também é importante evitar esfoliações excessivas, procedimentos agressivos e receitas caseiras que possam causar irritação e inflamação.
Em alguns pacientes, também precisamos observar fatores relacionados ao calor, exposição solar e alterações hormonais. E, principalmente, é importante entender que o tratamento não termina quando a pele clareia. A manutenção é fundamental justamente porque o melasma apresenta tendência à recorrência.
Melasma não precisa ser encarado como uma batalha sem fim, mas como uma condição que exige estratégia, acompanhamento e constância. Com diagnóstico adequado e tratamento individualizado, é possível alcançar um controle significativo das manchas e preservar os resultados ao longo do tempo.