Quase 3 em cada 10 brasileiras dizem não conhecer os métodos de detecção precoce do câncer de mama

Levantamento do A.C.Camargo com a Nexus aponta aumento no desconhecimento; especialista explica as recomendações para mamografia e os sinais de alerta.

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Fazer a mamografia, guardar o resultado e só voltar a pensar nas mamas no exame seguinte, sem prestar atenção ao que muda no corpo entre um exame e outro. Ou nunca ter feito exame nenhum, por não saber a partir de que idade ele é indicado nem onde pedi-lo. Situações como essas podem ajudar a entender por que a informação sobre o câncer de mama ainda não chega a todas as mulheres, como mostra um levantamento divulgado neste Outubro Rosa. Produzida pelo A.C.Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus, Pesquisa e Inteligência de Dados, a pesquisa A saúde do brasileiro, hábitos de vida e uso de tecnologia em diagnósticos médicos ouviu 1.038 mulheres de todo o país em junho de 2026. Do total, 29% dizem não conhecer os métodos de detecção precoce do câncer de mama, quatro pontos percentuais a mais do que os 25% registrados em 2024. A parcela que afirma conhecer os métodos ficou praticamente estável: 58%, contra 59% na edição anterior. Já o grupo que dava resposta intermediária caiu de 16% para 11%, segundo o A.C.Camargo.

A diferença de conhecimento também aparece na realização de exames. Entre as mulheres que dizem conhecer os métodos, 65% já fizeram mamografia e 12% nunca fizeram nenhum exame. Já entre as que não conhecem, os índices são de 35% e 55%, respectivamente. A idade também é um fator importante para interpretar esses números. Entre as entrevistadas de 16 a 24 anos, faixa em que a mamografia não é indicada como rastreamento de rotina, 62% nunca fizeram nenhum exame. Entre aquelas de 41 a 59 anos, 78% já fizeram mamografia. Os resultados apontam para a necessidade de ampliar o acesso à informação, como observa Fabiana Makdissi, líder do Centro de Referência em Tumores da Mama do A.C.Camargo Cancer Center. “Chamou a atenção que foi a mesma forma de aplicação de questionário e houve um aumento desse número de pessoas que dizem: ‘não sei o que está acontecendo, não sei o que estou fazendo, não sei o que olhar, não sei o que fazer’. Então, para mim, mostra que temos que melhorar o nosso papel na comunicação”, afirma. Um dos pontos de partida para essa comunicação é esclarecer que prevenir o câncer e detectá-lo precocemente são cuidados diferentes, embora complementares.   Prevenir e detectar cedo são cuidados diferentes A prevenção busca reduzir o risco de desenvolvimento do câncer, enquanto a detecção precoce procura identificar a doença em fase inicial. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) destaca que hábitos saudáveis podem contribuir para reduzir o risco da doença e estima que cerca de 17% dos casos de câncer de mama poderiam ser evitados com a adoção de atitudes saudáveis. “A prevenção passa por hábitos de vida, como manter o peso adequado, praticar atividade física e evitar álcool e tabaco”. E uma não substitui a outra, explica Fabiana. Na detecção precoce, a mamografia tem papel importante, mas é necessário entender para quem ela é indicada e como funciona o rastreamento. Veja também: Como se prevenir do câncer?   Mamografia e detecção precoce “Rastrear é ir atrás de uma doença que é muito frequente na população e que a gente tem que antecipar o cuidado. Ou seja, ir atrás antes do sintoma acontecer. E isso significa a realização de mamografia”, diz Fabiana. Nem todos os casos, porém, são identificados no rastreamento. “Temos no Brasil uma quantidade muito grande de mulheres que recebem diagnóstico já em uma fase mais avançada, ou seja, elas próprias sentem os nódulos da sua mama, exatamente porque ou nunca fizeram exame ou porque têm até tumores biologicamente mais agressivos”, afirma a especialista. Identificar a doença em uma fase inicial pode fazer diferença no percurso do tratamento. Dados de 2025 do Registro Hospitalar de Câncer do próprio A.C.Camargo indicam que a sobrevida global em cinco anos chega a 96% entre pacientes diagnosticadas no estádio I, indicador que mede a sobrevida no período, e não a cura. E, para que o rastreamento cumpra esse papel, é preciso saber em que idade começar e com que frequência realizar o exame.   A partir de que idade e com que frequência? O Ministério da Saúde recomenda mamografia de rastreamento a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos sem sinais ou sintomas. Entre 40 e 49 anos e acima dos 74, o SUS permite o exame por demanda, desde que a mulher receba orientação profissional sobre riscos e benefícios, conforme a Nota Técnica nº 626/2025. Já a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) e outras sociedades médicas recomendam mamografia anual dos 40 aos 74 anos para mulheres de risco habitual. Essas recomendações referem-se ao rastreamento de mulheres sem sintomas. Diante de um sinal ou sintoma suspeito, a investigação diagnóstica pode ser indicada em qualquer idade, conforme avaliação profissional, segundo o Inca. Para Fabiana, a mudança feita pelo Ministério em 2025 resolveu um impasse: antes, a mulher ouvia nas campanhas que deveria fazer o exame a partir dos 40, mas o médico da unidade básica de saúde não podia pedi-lo antes dos 50. “Hoje qualquer mulher entre os 40 e 50 que chegue a uma unidade de saúde e peça, fale ‘eu gostaria de fazer minha mamografia’, o médico vai prescrever”, afirma. A mamografia, no entanto, não elimina a necessidade de prestar atenção ao próprio corpo entre um exame e outro. Mesmo quem segue a recomendação de rastreamento deve procurar avaliação médica se perceber alguma alteração nas mamas.   Do autoexame ao autoconhecimento das mamas O Inca orienta que mulheres conheçam o próprio corpo e observem mudanças nas mamas, sem necessidade de seguir uma técnica específica de autoexame ou uma periodicidade fixa. “Por que eu coloco autoconhecimento e não autoexame? Porque o conhecimento inclui inclusive saber a referência de câncer na família. Você também vai prestar atenção e, talvez, entenda que precisa de exames antes do que a população e que merece um cuidado diferenciado”, explica Fabiana. Entre os sinais que exigem avaliação médica, segundo o Inca, estão nódulo endurecido e fixo ou que vem aumentando de tamanho, saída espontânea de líquido de um dos mamilos, retração da pele e aspecto de casca de laranja. Fabiana conta que muitas pacientes se apoiam só no exame que fazem uma vez por ano. O intervalo entre as mamografias, porém, não significa que seja necessário esperar até o próximo exame para investigar uma mudança percebida no corpo. “Quem usa o SUS deve procurar a unidade básica de saúde; quem tem convênio, agende uma consulta o quanto antes”, enfatiza. O autoconhecimento também ajuda a identificar quem precisa de acompanhamento diferente do recomendado para a população em geral. Cerca de 5% dos casos de câncer de mama ocorrem em mulheres com alto risco para desenvolver a doença, segundo o Inca. Entre os fatores que podem indicar predisposição hereditária estão mutações genéticas e histórico familiar relevante de câncer de mama ou ovário. Para essas mulheres, o instituto recomenda acompanhamento clínico individualizado. Na avaliação de Fabiana, mesmo sem nenhum sinal, a mulher com casos na família deve procurar o médico. Conhecer os próprios riscos e saber quando procurar atendimento, porém, não dependem apenas da iniciativa individual. Na pesquisa, o conhecimento sobre a detecção precoce varia conforme a renda e o tipo de serviço de saúde utilizado, e a realização de mamografias, conforme a renda.   Quem mais precisa do diagnóstico precoce é quem menos tem acesso O conhecimento dos métodos vai de 49% entre as mulheres com renda familiar de até um salário mínimo a 79% entre as que ganham mais de cinco, segundo a pesquisa do A.C.Camargo com a Nexus. A realização de mamografia também varia: de 48% a 69%. Entre as usuárias do SUS, 56% dizem conhecer os métodos; na rede privada, 69%. “As pacientes que mais precisariam do diagnóstico precoce são, muitas vezes, as que menos sabem, as que menos fazem, e depois as que mais serão lesadas no final, porque elas vão ter menos acesso a tudo”, comenta Fabiana.  Além das barreiras de acesso à informação e aos serviços de saúde, há outro obstáculo que pode dificultar que as mulheres priorizem o próprio cuidado: a responsabilidade pelo sustento e pela rotina familiar, que, opina Fabiana, ainda recai sobre elas. Segundo o IBGE, com base no Censo 2022, 49,1% dos domicílios brasileiros tinham uma mulher como responsável. Fabiana relaciona essa realidade à dificuldade que muitas mulheres enfrentam para reservar tempo para a própria saúde. “Sabe o que eu ouço da mulher? ‘Doutora, eu não tenho tempo para ficar doente’”, relata. “Então, verdade seja dita, a gente não vive em uma cultura em que existe uma parceria de fato entre homens e mulheres, em que todos entendem que o papel do cuidado não tem gênero. A gente vive numa sociedade em que o papel do cuidado sobra sempre para a mulher”, completa. Para a especialista, o diagnóstico precoce pode permitir um tratamento mais rápido e reduzir o tempo de afastamento da rotina familiar. “E a mulher compreender que, se ela tiver algo, vai conseguir cuidar mais rápido”, conclui. Veja também: Câncer de mama: mulheres negras enfrentam desigualdades no diagnóstico e tratamento da doença   Conteúdo produzido em parceria com A.C. Camargo Cancer Center.The post Quase 3 em cada 10 brasileiras dizem não conhecer os métodos de detecção precoce do câncer de mama first appeared on Portal Drauzio Varella.

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FONTE: https://drauziovarella.uol.com.br/oncologia/quase-3-em-cada-10-brasileiras-dizem-nao-conhecer-os-metodos-de-deteccao-precoce-do-cancer-de-mama/
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