O que o Outubro Rosa ainda precisa ensinar sobre o câncer de mama

Para a mastologista, a próxima etapa da campanha é ensinar a mulher a avaliar informações e a participar das decisões sobre o próprio cuidado

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Quando comecei na mastologia, a relação entre médico e paciente era muito diferente. Nós, médicos, detínhamos grande parte da informação. Explicávamos o diagnóstico, apresentávamos o tratamento e, muitas vezes, a paciente simplesmente perguntava: “Doutora, o que eu tenho que fazer?” Eu acompanhei a transformação dessa medicina durante toda a minha carreira. Mas, em determinado momento, tive a oportunidade — que eu jamais escolheria ter — de enxergá-la também do outro lado da mesa: como paciente. Talvez uma das maiores transformações que eu tenha testemunhado não esteja apenas nos tratamentos. Está na própria paciente, que deixou de ser passageira e passou a ser parte de sua jornada. Hoje recebo mulheres que chegam à consulta depois de terem pesquisado sua doença, lido sobre o tratamento, conversado com outras pacientes e, cada vez mais, utilizado ferramentas de inteligência artificial. Elas perguntam, questionam, querem entender por que uma cirurgia é indicada, por que determinado tratamento é necessário, quais são as alternativas e quais consequências cada escolha poderá trazer para a vida delas. Continua após a publicidade Alguns colegas médicos se incomodam com isso, como se sentissem afrontados, mas na minha opinião, isso não diminui o papel do médico, só aumenta a nossa responsabilidade. Nunca tivemos tanto acesso à informação. Mas acesso à informação não significa necessariamente acesso a conhecimento de qualidade. E é aí que entra uma nova responsabilidade nossa: não apenas prescrever, mas ajudar a interpretar. Acredito que o grande próximo passo para transformar e sedimentar essa nova fase seja letrar as nossas pacientes. Letrar é diferente de informar, letrar é ensinar a interpretar. Continua após a publicidade Durante muitos anos, o Outubro Rosa cumpriu um papel extraordinário: colocou o câncer de mama na conversa da sociedade. Mulheres passaram a falar sobre câncer de mama, famílias passaram a falar mais abertamente sobre o assunto, empresas começaram a se mobilizar e passaram a convidar médicos para falar aos seus funcionários, a imprensa ampliou o barulho. Mas talvez agora tenhamos uma nova missão. Precisamos avançar da conscientização para o letramento em saúde. Não adianta só falar aos catequizados, não adianta ir apenas a eventos médicos ou a lugares onde já temos pacientes oncológicos. Continua após a publicidade Falamos sobre prevenção para quem já está preocupado com prevenção. Falamos sobre saúde para quem já procura saúde. Mas quem mais precisa dessa informação talvez não esteja nos grandes eventos de saúde. Talvez sejam pessoas que não seguem médicos nas redes sociais. Talvez nunca tenham entrado em um centro oncológico. Talvez nem saibam quais escolhas do dia a dia podem aproximá-las da saúde ou afastá-las da doença. E é por isso que entendo que nós, médicos, precisamos mudar de lugar e as campanhas do Outubro Rosa precisam ampliar ainda mais o tema saúde. Continua após a publicidade Não basta uma mulher saber que existe câncer de mama. Ela precisa saber reconhecer informação confiável. Precisa compreender riscos sem viver aterrorizada por eles. Precisa entender que nem todo câncer de mama é igual. E precisa ter condições de participar das decisões sobre o próprio cuidado. Entender tudo isso também me transformou como médica. Durante muito tempo, nós médicos imaginávamos que nossa responsabilidade começava quando a paciente entrava no consultório. Hoje eu penso diferente. Existe uma mulher antes de ela se tornar minha paciente. Continua após a publicidade Existe uma mulher que está em casa pesquisando um sintoma. Está recebendo uma mensagem em um grupo de WhatsApp. Está assistindo a um vídeo. Está perguntando para uma inteligência artificial. Está tentando decidir se aquilo que ouviu é verdade ou não. E é por isso que assumo diariamente o compromisso de estar também nesses espaços. Escrever uma coluna na VEJA SAÚDE é uma das formas que descobri de estar onde as pessoas ainda “saudáveis” estão. A boa medicina não acontece quando o médico sabe tudo e fala somente à paciente que está diante dele no consultório. Acontece quando ciência, informação e experiência se encontram e chegam a quem precisa, antes mesmo de essa mulher ir buscar ajuda. Esse é o nosso papel social. O Outubro Rosa nos ensinou a falar sobre câncer de mama, mas agora precisamos nos ensinar as pessoas a compreender o câncer de mama. E, para isso, nós médicos também precisamos sair dos nossos consultórios, dos nossos congressos e das nossas revistas científicas. Precis0 estar onde as pessoas estão. Preciso estar nas redes. Preciso estar na imprensa. Preciso escrever para uma revista que chega à população geral. Preciso falar com a mulher antes que ela precise de mim como mastologista. Talvez uma das próximas evoluções do Outubro Rosa seja justamente essa. Não falar apenas sobre encontrar a doença mais cedo, mas sobre como construímos saúde antes que a doença apareça. E de tudo o que afasta essa mulher do diagnóstico: atividade física, obesidade, consumo de álcool, tabagismo, alimentação. E mais importante, falar em uma linguagem que faça sentido para quem está fora da medicina. Fora o mediquês e viva o bom português. Cuidem-se, não somente em outubro, mas em todos os dias de suas vidas. Manual anticâncer: 14 formas de evitar a doença Publicidade

As notícias oriundas assim como as imagens tem como fonte de referência: https://saude.abril.com.br/ultimas-noticias

FONTE: https://saude.abril.com.br/coluna/sextou-com-a-doutora/o-que-o-outubro-rosa-ainda-precisa-ensinar-sobre-o-cancer-de-mama/
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