Psoríase: dermatologista explica como a doença pode afetar o coração e as articulações

A dermatologista Dra. Luísa Lobato explica por que a psoríase vai além das alterações na pele, quais são seus principais sintomas, os riscos para a saúde cardiovascular e as articulações e como os avanços nos tratamentos podem melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

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Minha trajetória na Dermatologia e o interesse pelas doenças imunomediadas

Sou formada em Medicina pela Universidade Federal do Pará (UFPA), em 2017, e fiz minha residência médica em Dermatologia pelo Hospital Universitário Getúlio Vargas, em Manaus, no Amazonas, onde concluí minha formação em 2023. 

Após esse período, retornei a Belém, minha cidade natal. Também em 2023, realizei um fellowship em Cosmiatria pelo Instituto V-Derm, em Botucatu, São Paulo. Em 2025, me tornei membro titular pela Associação Médica Brasileira (AMB) e pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). Atualmente, atuo na dermatologia clínica, com foco em doenças imunomediadas, cirurgia dermatológica e também realizo procedimentos na área de Cosmiatria.

A psoríase é uma doença inflamatória que pode afetar diferentes órgãos

Hoje sabemos que a psoríase tem um componente metabólico importante. A inflamação ocorre de forma sistêmica, o que pode gerar resistência periférica à insulina e disfunção do endotélio dos vasos sanguíneos, facilitando o depósito de gordura nas artérias e levando à aterosclerose. 

Dessa forma, pacientes com psoríase apresentam maiores chances de desenvolver, de forma precoce, infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) e morte cardiovascular. Além disso, a inflamação sistêmica causada pela psoríase pode afetar as articulações, provocando a artrite psoriásica, e também apresenta correlação com doenças inflamatórias intestinais. Portanto, é uma doença que vai muito além da pele.

Placas avermelhadas e descamação estão entre os principais sintomas da psoríase

Na Dermatologia, os pacientes geralmente chegam ao consultório com queixas de lesões cutâneas, caracterizadas por placas avermelhadas, bem delimitadas e com descamação superficial prateada. 

Essas lesões costumam se distribuir nas áreas extensoras dos cotovelos, joelhos e calcanhares, mas também podem acometer o tronco, incluindo o abdome e o dorso. Além dessas manifestações, existem formas de psoríase que se desenvolvem em regiões consideradas de alto impacto, como couro cabeludo, face, palmas das mãos, plantas dos pés, unhas e áreas de dobras ou região íntima, sendo esta última conhecida como psoríase invertida. 

Alguns pacientes que convivem com a doença há muito tempo também chegam ao consultório relatando dor e edema em determinadas articulações, sintomas que podem indicar a possibilidade de artrite psoriásica.

O diagnóstico da psoríase depende da avaliação clínica das lesões

O diagnóstico da psoríase é essencialmente clínico, baseado nas lesões características da doença, como placas eritematosas com descamação prateada na superfície, no padrão de distribuição dessas alterações pelo corpo e, muitas vezes, na presença de histórico familiar positivo. 

Quando existem dúvidas, podemos utilizar exames e procedimentos complementares, como a biópsia de pele ou a curetagem metódica de Brocq. O diagnóstico pode se tornar mais difícil quando as lesões apresentam características semelhantes às de outras doenças, como eczemas, dermatite seborreica e até mesmo a tínea, uma infecção causada por fungos, popularmente conhecida como impinge. 

Outra situação que dificulta a identificação ocorre quando o paciente já está utilizando medicamentos à base de corticosteroides, pois essas substâncias podem mascarar as características da doença.

As diferentes manifestações da psoríase influenciam a escolha do tratamento

As diferentes apresentações clínicas da psoríase são determinadas principalmente pela distribuição das lesões. A psoríase em placas afeta os membros superiores, os membros inferiores e o tronco, incluindo dorso, tórax e abdome. A psoríase do couro cabeludo acomete essa região, podendo atingir também a área occipital e a região retroauricular, localizada atrás das orelhas. 

Já a psoríase da face afeta o rosto, principalmente as sobrancelhas, a região ao redor dos olhos, as maçãs do rosto e a área da barba. A psoríase ungueal compromete as unhas, enquanto a psoríase palmoplantar afeta as palmas das mãos e as plantas dos pés. Por sua vez, a psoríase invertida acomete regiões de dobras, como axilas, cicatriz umbilical, virilhas, região íntima e sulco interglúteo. 

As chamadas áreas de alto impacto, muitas vezes, apresentam maior dificuldade de resposta ao tratamento e provocam uma redução importante da qualidade de vida dos pacientes, o que pode direcionar a abordagem terapêutica para o uso de medicamentos imunobiológicos.

A artrite psoriásica e as alterações metabólicas exigem acompanhamento multidisciplinar

As duas principais condições associadas à psoríase são o desenvolvimento de artrite psoriásica e a obesidade, frequentemente relacionada às síndromes metabólicas. Nesses pacientes, muitas vezes, precisamos realizar um acompanhamento multidisciplinar, envolvendo profissionais como reumatologistas, endocrinologistas e cardiologistas. Identificar precocemente a obesidade e os pacientes que apresentam maior risco cardiovascular é de extrema importância para evitar complicações graves, como infarto e AVC. 

Já a artrite psoriásica pode provocar deformidades nas articulações e comprometer significativamente a qualidade de vida. Por isso, durante a anamnese dermatológica, considero essencial investigar queixas como dores articulares, dedos inchados, condição conhecida como dactilite, e dores nos calcanhares ao acordar, entre outros sintomas. Quanto mais cedo identificamos essas manifestações, melhores podem ser as respostas do paciente a longo prazo em relação ao desenvolvimento e ao controle da artrite.

Os medicamentos imunobiológicos representam um avanço no tratamento da psoríase

Antigamente, tínhamos poucas opções terapêuticas disponíveis para o tratamento da psoríase. Muitas vezes, os pacientes passavam anos utilizando medicamentos tópicos à base de corticosteroides e calcipotriol. Nos casos mais graves ou resistentes ao tratamento, recorríamos a imunossupressores, como metotrexato e ciclosporina, e até mesmo a retinoides, como a acitretina. 

Ao longo dos anos, passamos a contar com medicamentos imunobiológicos, inicialmente os chamados anti-TNF, como adalimumabe, infliximabe e etanercepte. Mais recentemente, surgiram os medicamentos anti-interleucinas 23 e 17, que atuam bloqueando seletivamente moléculas envolvidas no desencadeamento da psoríase ou na manutenção do processo inflamatório. 

Com isso, temos conseguido tratar os pacientes de forma mais precoce, segura e efetiva, buscando controlar a inflamação e prevenir complicações associadas à doença, incluindo a atenção ao desenvolvimento da artrite psoriásica.

O tratamento precoce é fundamental para controlar a inflamação e preservar a qualidade de vida

Minha principal orientação para quem convive com psoríase e ainda considera a doença apenas uma questão estética é procurar o mais breve possível uma consulta com um dermatologista membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), para realizar uma avaliação completa. Essa avaliação não deve se limitar à pele, mas incluir também o couro cabeludo, as unhas, as palmas das mãos, as plantas dos pés e as articulações. 

Investigar a presença de casos familiares também é importante, mas, principalmente, é fundamental que o paciente tenha acesso a medicamentos eficazes e de qualidade, disponíveis tanto na rede pública, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), quanto na rede privada e nos planos de saúde, conforme os critérios de acesso.

Quanto mais cedo iniciamos o tratamento, mais cedo conseguimos conter a inflamação e melhores podem ser as respostas do paciente ao acompanhamento terapêutico. A psoríase é uma doença que vai muito além da pele e pode causar um enorme impacto psicossocial, comprometendo diferentes aspectos da vida de quem convive com a condição.


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